Dívida das Casas Bahia liga alerta em Arapongas.

Crise das Casas Bahia pode deixar impacto de R$ 70 milhões nas fábricas de móveis de Arapongas

SIMA/PMARAPONGAS/PortalEdsonValerio
Dívida das Casas Bahia liga alerta em Arapongas. Setor Moveleiro, em ARAPONGAS/ Reprodução.

A crise que colocou uma das maiores redes varejistas do país diante da Justiça tem reflexos que chegam diretamente ao Norte do Paraná. O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia pode envolver aproximadamente R$ 70 milhões em negócios realizados por indústrias de móveis de Arapongas.

O município concentra um dos maiores polos moveleiros do Brasil e mantém uma relação comercial histórica com grandes redes nacionais de varejo.

A estimativa foi apresentada pelo presidente do Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas (Sima), José Lopes Aquino, diante das vendas realizadas por fabricantes da cidade para o Grupo Casas Bahia.

O valor ainda é preliminar e não significa, necessariamente, que todo o montante será perdido. Parte das indústrias possui seguro de crédito, mecanismo que pode cobrir total ou parcialmente determinados valores a receber.

Estimativa chega R$ 70 milhões em Arapongas

O tamanho real da exposição das fábricas ainda dependerá da situação individual de cada empresa.

Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas não dispõe, neste momento, de uma consolidação completa dos contratos, títulos a receber, seguros e negociações existentes entre cada fabricante e o Grupo Casas Bahia.

Mesmo assim, o valor estimado em R$ 70 milhões dá uma dimensão da importância da varejista para a cadeia moveleira instalada em Arapongas. A preocupação não está apenas no recebimento das vendas já realizadas.

Uma eventual redução das compras futuras da rede também pode atingir produção, fornecedores, transportadoras e outros setores que trabalham em torno da indústria de móveis.

Casas Bahia quer renegociar R$ 17,3 bilhões

O Grupo Casas Bahia apresentou o pedido de recuperação judicial à Justiça de São Paulo no domingo, 16 de agosto. A medida busca reorganizar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas.

O processo envolve a própria companhia e outras empresas do grupo, entre elas a Indústria de Móveis Bartira, fabricante que historicamente abastece as lojas da rede.

São aproximadamente 28 mil credores envolvidos na relação apresentada no processo.

A recuperação judicial é utilizada para permitir que uma empresa em dificuldade financeira tente renegociar suas obrigações, reorganizar vencimentos e preservar a atividade.

Até esta quarta-feira (26), no entanto, é importante fazer uma distinção: o pedido foi apresentado, mas o processamento da recuperação judicial ainda estava em análise pela Justiça.

Foi determinada uma constatação prévia sobre a situação das empresas antes da decisão judicial definitiva sobre o início do processo.

Prejuízo chegou a R$ 10,1 bilhões em 3 meses.

A situação financeira se agravou significativamente neste ano. No segundo trimestre de 2026, o Grupo Casas Bahia registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões.

Parte expressiva desse resultado está relacionada a ajustes contábeis extraordinários, mas a companhia também enfrenta pressão financeira provocada por juros elevados, dificuldade de acesso ao crédito, custo financeiro e consumo mais fraco.
O prejuízo ajustado no período ficou em aproximadamente R$ 978 milhões. A crise de liquidez ganhou força depois que a varejista encontrou dificuldades para obter novos recursos no mercado.

Empresa havia renegociado R$ 4,1 bilhões em 2024

A atual crise não surgiu de uma hora para outra. Em 2023, o grupo iniciou um amplo processo de transformação, que envolveu redução de custos, mudança da estratégia comercial, fechamento de pontos considerados menos rentáveis e redução do quadro de funcionários.

No ano seguinte, a companhia recorreu a uma recuperação extrajudicial para reperfilar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras. O acordo permitiu ampliar prazos e aliviar os desembolsos que estavam concentrados nos anos seguintes. A expectativa era ganhar tempo para recuperar vendas, caixa e rentabilidade.

Dois anos depois, porém, a companhia chegou ao pedido de recuperação judicial com um passivo muito maior.
298 lojas foram fechadas

Poucos dias antes de procurar a Justiça, o Grupo Casas Bahia colocou em prática mais uma forte redução de sua estrutura física. Segundo informações apresentadas no processo trabalhista que acompanha as demissões coletivas, foram 298 lojas fechadas.
A reestruturação atingiu também milhares de funcionários. Cerca de 1,9 mil desligamentos teriam ocorrido inicialmente, enquanto documentos relacionados à reorganização indicaram que o total poderia chegar a aproximadamente 3 mil trabalhadores.

A Justiça do Trabalho determinou a suspensão das demissões coletivas e exigiu negociação com as entidades sindicais. A decisão, entretanto, não determina a reabertura automática das lojas que já foram encerradas.
Maringá segue sem fechamento de loja

A crise também provocou questionamentos sobre a situação das unidades instaladas no Paraná.

Em Maringá, até o momento não houve confirmação pública de inclusão da unidade local entre os pontos encerrados na rodada recente de cortes.
A loja da cidade segue como referência da rede na área central.

Em Apucarana, levantamento realizado depois do pedido de recuperação judicial apontou que a unidade também seguia funcionando normalmente.
Em Londrina, a rede mantém presença comercial, inclusive com unidades cadastradas na cidade.
Portanto, a recuperação judicial não significa que todas as lojas Casas Bahia serão fechadas.
A companhia afirma que pretende manter em atividade a rede considerada viável, além do comércio eletrônico e dos demais canais de atendimento.
Paraná lojas atingidas pelos cortes

Apesar da manutenção de unidades no eixo Maringá–Apucarana–Londrina, o Paraná já sentiu os efeitos da redução da rede. Uma loja foi fechada em Ponta Grossa, atingindo trabalhadores da unidade.
Também houve registro de encerramento em Paranavaí.
Em Curitiba, unidades chegaram a aparecer em relações de lojas previstas para encerramento durante o processo de reorganização.
O cenário mostra que a empresa está fazendo uma seleção de pontos comerciais considerada essencial para diminuir custos e concentrar sua operação nas lojas de maior desempenho.
Fornecedores entram no centro da crise
A situação das indústrias de Arapongas revela outro lado da recuperação judicial.
Uma grande rede varejista não movimenta apenas seus próprios funcionários e lojas.

Ela mantém relações com fabricantes de móveis, eletrodomésticos, eletrônicos, colchões e inúmeros outros produtos, além de transportadoras, empresas de logística e prestadores de serviços.

Entre os grandes credores do Grupo Casas Bahia estão fabricantes nacionais e multinacionais.

Para as indústrias moveleiras de Arapongas, o desafio será saber quanto dos valores pendentes estará efetivamente sujeito à recuperação, quais empresas possuem seguro e em quais condições os créditos poderão ser negociados.
Consumidor continua tendo direitos sobre compras e garantias

A repercussão da crise levou a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) a abrir um monitoramento da situação do Grupo Casas Bahia. O órgão alerta que o simples pedido de recuperação judicial não cancela compras, contratos, financiamentos, carnês ou garantias.
Quem comprou um produto e já recebeu deve continuar pagando normalmente as parcelas previstas.
Quem realizou uma compra e ainda aguarda a entrega deve acompanhar o prazo informado pela empresa e guardar nota fiscal, pedido, comprovantes de pagamento e protocolos de atendimento.
Caso haja atraso ou não entrega, continuam valendo as regras do Código de Defesa do Consumidor.
A recomendação também é utilizar somente canais oficiais para pagamentos e ficar atento a possíveis golpes aproveitando a repercussão da crise.

Recuperação busca uma saída da companhia

O pedido judicial não representa, por si só, a falência das Casas Bahia.

A finalidade do processo é justamente abrir espaço para uma renegociação coletiva das dívidas enquanto a companhia tenta manter suas atividades.

O Grupo Casas Bahia emprega mais de 20 mil pessoas e possui uma extensa cadeia de fornecedores.

Para Arapongas, os próximos passos serão decisivos. As indústrias precisarão dimensionar individualmente os créditos envolvidos, verificar as coberturas de seguro e acompanhar as condições que serão propostas aos fornecedores no plano de recuperação.

Por enquanto, a estimativa de R$ 70 milhões coloca o polo moveleiro do Norte do Paraná entre os setores diretamente expostos à maior crise financeira da história recente das Casas Bahia.




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