Por que grandes fábricas e lojas deixaram o Brasil?
Häagen-Dazs, Walmart, Ford e outras: marcas famosas que encerraram ou reduziram operações no Brasil
Reprodução Ilusttrativas Uma das marcas de sorvete premium mais conhecidas do mundo está se despedindo das prateleiras brasileiras. A Häagen-Dazs deixará de ser distribuída no Brasil, encerrando uma trajetória iniciada em 1997.
A decisão da General Mills ocorre dentro de um processo de reformulação do portfólio internacional da companhia e coloca a marca em uma extensa relação de multinacionais que, em diferentes momentos, decidiram diminuir, transformar ou encerrar suas operações brasileiras.
Mas as histórias não são exatamente iguais.
Enquanto empresas como a Fnac efetivamente desapareceram do mercado brasileiro, outras, como Ford, Mercedes-Benz, Sony e Roche, fecharam fábricas ou interromperam determinadas atividades, mas mantiveram vendas, serviços ou outros negócios no país.
Há ainda casos como Walmart, cuja operação foi vendida e passou a utilizar outra marca.
Häagen-Dazs encerra 29 anos de Brasil
A mudança mais recente envolve a Häagen-Dazs. A marca chegou ao Brasil em 1997 e consolidou espaço no segmento de sorvetes premium, inicialmente também com lojas próprias.
Em 2018, a General Mills encerrou as unidades físicas da Häagen-Dazs no país, mas os potes continuaram disponíveis em supermercados, empórios, restaurantes e plataformas de entrega.
Agora, a empresa decidiu encerrar também a distribuição da marca no mercado brasileiro.
Segundo a General Mills, a decisão faz parte de uma reformulação de portfólio anunciada em março de 2026.
Os consumidores ainda podem encontrar unidades remanescentes em alguns pontos de venda enquanto houver estoques.
A despedida ocorre depois de 29 anos de presença no Brasil.
Haribo fecha fábrica pioneira fora da Europa
Outra gigante do setor de alimentos também reduziu sua estrutura no país em 2026.
A alemã Haribo, famosa pelas balas de gelatina em formato de ursinho, decidiu fechar sua fábrica em Bauru, no interior de São Paulo.
A unidade começou a produzir em 2016 e entrou para a história da companhia como a primeira fábrica da Haribo instalada fora da Europa.
Cerca de 150 trabalhadores foram atingidos pela decisão.
A companhia citou dificuldades relacionadas à competitividade, ambiente de negócios e sustentabilidade da operação no longo prazo.
Nesse caso, porém, é importante uma diferença: a Haribo não necessariamente abandona o mercado brasileiro. A empresa informou que avalia uma nova estrutura para continuar comercializando seus produtos, possivelmente por importação.
Ford parou de fabricar carros
Talvez um dos casos mais conhecidos seja o da Ford. A montadora começou a operar no Brasil em 1919 e durante mais de um século produziu veículos em território nacional.
Em janeiro de 2021, anunciou o encerramento da produção brasileira.
Foram atingidas fábricas como Camaçari, na Bahia, Taubaté, em São Paulo, e a unidade da Troller no Ceará.
A Ford citou capacidade ociosa, redução das vendas, prejuízos acumulados e os efeitos econômicos da pandemia.
O anúncio teve enorme repercussão pelo peso histórico da empresa na indústria automobilística brasileira. Mas a Ford não saiu comercialmente do Brasil.
A empresa manteve concessionárias, assistência, desenvolvimento de produtos e passou a abastecer o mercado principalmente com veículos importados de outros países.
Mercedes-Benz deixou de produzir automóveis
A Mercedes-Benz também encerrou uma parte relevante de sua produção brasileira.
Em dezembro de 2020, a montadora anunciou o fechamento da fabricação de automóveis premium na unidade de Iracemápolis, interior paulista.
A fábrica havia sido inaugurada apenas quatro anos antes e produzia os modelos Classe C e GLA.
A empresa relacionou a decisão à situação econômica brasileira, à redução nas vendas de veículos premium durante a pandemia e a uma reestruturação mundial de sua rede de produção.
A Mercedes-Benz, entretanto, não deixou o país. A companhia continuou vendendo automóveis importados e manteve sua forte operação brasileira de caminhões e chassis de ônibus.
Forever 21 fechou todas as lojas brasileiras
No varejo de moda, uma despedida que chamou atenção foi a da Forever 21.
A rede norte-americana desembarcou no Brasil em 2014, provocando filas nas primeiras inaugurações.
Em seu auge, chegou a operar 15 lojas no mercado brasileiro. O cenário mudou nos anos seguintes.
Depois de enfrentar dificuldades financeiras internacionalmente e problemas ligados ao custo e à escala da operação brasileira, a empresa decidiu fechar suas lojas no país.
Em 2022, as últimas unidades foram encerradas. A trajetória brasileira durou aproximadamente oito anos.
Fnac chegou a ter 12 lojas antes de desaparecer
Livros, CDs, DVDs, computadores, televisores e produtos eletrônicos dividiam espaço nas grandes lojas da Fnac, uma das redes mais conhecidas do varejo cultural europeu.
A empresa francesa chegou ao Brasil em 2000. No auge da operação, teve 12 unidades no país.
Em 2017, a Livraria Cultura assumiu a operação brasileira da Fnac.
Pouco mais de um ano depois, em outubro de 2018, a última loja foi fechada e a operação virtual também chegou ao fim. A Fnac havia apontado dificuldades para conseguir escala suficiente no país em meio a um ambiente de queda nas vendas, transformação do varejo e forte concorrência.
Walmart trocou de mãos e desapareceu das lojas
O Walmart chegou ao Brasil em 1995 e construiu uma das maiores operações varejistas do país. Em determinado momento, o grupo possuía centenas de unidades distribuídas por vários estados, operando também diferentes bandeiras.
Em 2018, o Walmart vendeu 80% de sua operação brasileira para o fundo Advent International.
A multinacional norte-americana permaneceu inicialmente com participação minoritária, mas deixou de controlar o negócio. A operação passou por uma ampla reestruturação.
A partir de 2019, a marca Walmart começou a desaparecer das fachadas brasileiras e o negócio passou a operar como Grupo BIG.
Posteriormente, o Grupo BIG foi adquirido pelo Carrefour, encerrando definitivamente aquele capítulo da presença física do Walmart no varejo brasileiro.
Sony fechou fábrica, mas manteve PlayStation e entretenimento
A japonesa Sony construiu uma história de décadas no mercado brasileiro. Durante anos, televisores, aparelhos de som, câmeras fotográficas e outros eletrônicos da marca foram produzidos no país.
Em 2020, a companhia anunciou que encerraria a fabricação local desses produtos, com fechamento de sua unidade industrial de Manaus.
A decisão fazia parte de uma revisão mundial da estrutura de negócios diante das transformações do mercado de eletrônicos. Isso não significou uma saída completa do Brasil.
A Sony manteve atividades relacionadas a PlayStation, música, entretenimento, soluções profissionais e suporte, entre outros segmentos.
Ou seja: desapareceu a fabricação brasileira de vários eletrônicos de consumo, mas não a companhia como um todo.
Nikon encerrou no mercado brasileiro
Outra japonesa tradicional do setor de fotografia tomou uma decisão ainda mais radical. A Nikon anunciou em 2017 que deixaria de vender diretamente seus produtos no Brasil. No ano seguinte, comunicou o encerramento de suas atividades locais.
A medida fazia parte de uma reestruturação global que envolvia vendas, pesquisa, desenvolvimento e produção.
A saída ocorreu justamente em um período no qual o mercado de câmeras fotográficas passava por profundas mudanças, principalmente devido ao avanço dos smartphones.
Produtos Nikon ainda poderiam chegar ao consumidor brasileiro por importadores e outros canais, mas a operação direta da fabricante foi encerrada.
Roche fechou, mas segue trazendo medicamentos
No setor farmacêutico, a suíça Roche apresenta outro tipo de caso. Presente no Brasil desde 1931, a companhia manteve por décadas uma fábrica de medicamentos no Rio de Janeiro. Em 2019, anunciou que encerraria progressivamente a produção no local.
O processo foi concluído em 2024, quando foi fabricado o último lote na unidade. Segundo a companhia, a mudança estava relacionada à transformação global de seu portfólio e à maior concentração em medicamentos inovadores e de alta complexidade. A Roche, entretanto, continua operando no Brasil.
A empresa mantém atividades comerciais e segue disponibilizando medicamentos em áreas como oncologia, neurologia, oftalmologia e doenças raras.
Nem toda “saída do Brasil” significa a mesma coisa
A história dessas multinacionais revela estratégias bastante diferentes.
Häagen-Dazs: fim da distribuição da marca.
Haribo: fechamento da fábrica e estrutura administrativa, com possibilidade de continuar vendendo por importação.
Ford: fim da produção nacional de veículos, mas manutenção das vendas e demais operações.
Mercedes-Benz: encerramento da fabricação de automóveis, mas continuidade em caminhões, ônibus e importados.
Forever 21: encerramento das lojas brasileiras.
Fnac: fim da operação no país.
Walmart: venda da operação e desaparecimento da bandeira.
Sony: encerramento da produção de vários eletrônicos, mantendo outros negócios.
Nikon: encerramento da operação direta.
Roche: fechamento da fábrica, mas continuidade da atividade comercial.
Competitividade, custos pesam nas decisões
Não há uma única explicação para todas essas mudanças. Em alguns casos, empresas citaram custos elevados, baixa escala, queda das vendas e dificuldades de competitividade.
Em outros, a decisão esteve ligada a mudanças globais de estratégia, concentração da produção em menos países ou revisão de portfólios.
Também aparecem entre os fatores a transformação dos hábitos de consumo, crescimento do comércio eletrônico, concorrência local, variações cambiais e, em determinados períodos, os efeitos de crises econômicas e da pandemia.
A saída da Häagen-Dazs mostra que esse movimento continua acontecendo.
Quase três décadas depois de chegar ao mercado brasileiro, uma marca conhecida mundialmente agora se junta a uma lista de empresas que concluíram que o modelo utilizado no Brasil já não fazia mais sentido dentro de suas estratégias globais.
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