Walber Guimarães Junior

Os gatos aproveitam os olhos no peixe.

REPRODUÇÃO
Os gatos aproveitam os olhos no peixe.

A sabedoria popular nos ensina um velho ditado “um olho no gato e outro no peixe” que se referia aos pescadores que precisavam limpar o peixe no cais, logo após chegar da pescaria no mar que não podiam desviar a atenção dos gatos, loucos para aproveitar a ocasião.

Falo por mim, em períodos eleitorais, insisto em me manter atento aos temas periféricos porque, e o senso comum nos ensina, costuma ser um ótimo momento para os gatos agirem livremente, aproveitando as atenções gerais centradas no processo eleitoral, para promoverem “pescarias lucrativas”.
Você pode até alegar que posso relaxar, afinal vereadores e deputados são eleitos e pagos para fiscalizarem qualquer atitude suspeita em suas “jurisdições”, mas, acho que você pode concordar comigo, criar problema para os chefes, sejam prefeitos ou governadores, não é bem a praia da quase totalidade de nossos representantes no legislativo.
Confesso que, agora nestas eleições, foi um pregão eletrônico na pequena cidade de Indianópolis, no Paraná, que apontava o valor de R$ 1.872.342,05 para aquisição de gêneros alimentícios (pães, bolos e rosquinhas, dentre outros) para atendimento das necessidades das secretarias municipais.
Ocorre que a cidade tem em torno de quatro mil e quinhentos habitantes e trezentos funcionários públicos, logo a verba contempla mais de 6 mil reais para cada funcionário público.
Se o pregão aprovou uma empresa com este valor, significa que, a cada dia útil do ano, cada funcionário terá uma verbinha de vinte e três reais para um “lanchinho”.
Claro, que talvez haja uma explicação para esta demanda da prefeitura e, embora desperte suspeitas, talvez seja algo lícito, mas certamente distante do bom senso.
Curiosidade desperta, fiz uma rápida pesquisa pelas redes sociais, concentrada em ações suspeitas apenas no ano de 2026 e consigo produzir a seguinte lista;
- Fraude em licitação na Secretaria de Infraestrutura em Roraima, com provável direcionamento de contrato e uso de licitações presenciais para benefício do governador e empresários locais;
- Esquema de desvio de recursos públicos (38 milhões) em Salvador na Bahia, resultando em afastamento de secretário municipal e vereador em irregularidades em contratos;
- Irregularidade no uso de emendas pix no Amapá, com falta de transparência na aplicação dos recursos, com envolvimento de prefeituras e parlamentares;
- Suspeitas de favorecimento de parentes com destinação de emendas parlamentares em verbas destinadas ao terceiro setor geridas por familiares de vereadores no Estado de São Paulo;
- Uso da máquina pública para contratações temporárias em Sergipe, com aumento expressivo de contratações, já próximas do período eleitoral para favorecer candidatos à reeleição e aliados políticos; 
Sem maiores dificuldades, podemos fazer um passeio pelo mapa brasileiro no rastro das suspeitas de corrupção, todas focadas no benefício na penumbra do processo eleitoral, sempre em benefício dos políticos com mandato às custas do cidadão comum.
Regra geral em um país onde corromper parece ser a regra normal e que bancar a campanha com dinheiro público, embora indevido, continua sendo uma prática recorrente de norte a sul do Brasil.
Observe que, propositalmente, exclui nomes, partidos e, naturalmente, polo ideológico para, com um roteiro didático, quase um desenho, apontar para algo cristalino; a corrupção não é patrimônio da direita ou esquerda, mas um rastro genético presente em quase toda a classe política, como um vírus transmissível que ameaça a todos que convivem neste ambiente, respirando o ar das negociatas, dos acordos e se especializando na arte de transpor dinheiro dos cofres públicos para suas contas bancárias.
Afasto o olhar da patética cena que iguala a todos na ação nefasta, e tento enxergar luz no debate político.
Infelizmente, vejo Lula sem explicar o Lulinha e Flávio Bolsonaro negando a verdade em suas relações espúrias com Daniel Vorcaro e ambos concentrados na missão de colar a imagem da desgraça nacional no adversário, como caminho único para a vitória nas urnas.
Sim, você sabe disto; a maioria absoluta do eleitorado não quer eleger o melhor, mas apenas evitar o pior, seja ele qual for.
Talvez por isso, os demais candidatos, Augusto Curi, Renan Santos, Romeu Zema ou Ronaldo Caiado, mesmo quando o eleitor enxerga competência ou qualidades superiores, não sejam admitidos como alternativa real porque um dos males invisíveis da polarização é a opção definitiva pelo voto útil e a única utilidade que o voto ainda tem para o brasileiro é fechar a porta do inferno que seu adversário pode abrir para jogar de vez o Brasil nas trevas.

Não importam projetos ou ideias porque são irrelevantes diante da missão prioritária de “salvar a nação” do inimigo.

Ainda que Lula jamais responda como zerar a dívida pública, mesmo que Flávio não apresente nada além do sobrenome, por mais que brasileiros sensatos, atualmente apenas uma amostra pequena do conjunto de eleitores, busquem alternativas, caminhos ou ideias que apontem para um futuro melhor, o juízo informa que vai vencer as eleições quem for menos rejeitado.
Enquanto isto, o palco segue armado para o teatro político e, atrás das cortinas, a vazão de recursos dos cofres públicos para as contas privadas aumenta com a cumplicidade do nosso poder legislativo, omisso e cúmplice do chefe de plantão, como regra geral.



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