Ex-dono da Reag entrega proposta de delação à PGR
Delação do ex-dono da Reag pode revelar novos caminhos de suposto esquema envolvendo o Banco Master
Ex-presidente do Conselho de Administração da Reag Investimentos, João Carlos Falbo Mansur Imagem: Geraldo Magela/Agência Senado O ex-controlador da Reag Investimentos, João Carlos Mansur, entregou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma proposta de acordo de colaboração premiada que tem como principal alvo o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
A negociação está na fase final de ajustes, mas o acordo ainda não foi formalmente assinado.
A proposta apresentada por Mansur reúne 17 anexos com informações e documentos sobre suspeitas de crimes financeiros.
Como parte das condições negociadas, o empresário deverá pagar R$ 40 milhões em multas, valor correspondente, segundo a proposta, ao que recebeu da Reag durante o período em que esteve à frente da empresa. As informações foram divulgadas nesta quarta-feira (26).
Mansur relata operações envolvendo fundos da Reag
Segundo o conteúdo apresentado à PGR e à Polícia Federal, a Reag teria prestado serviços ao Banco Master e a Daniel Vorcaro desde 2019, quando o empresário assumiu o controle da instituição.
Mansur afirma que fundos administrados pela Reag teriam sido utilizados em operações para desviar recursos do banco, com a utilização de pessoas apontadas como laranjas e estruturas mantidas no exterior.
O ex-controlador também teria apresentado documentos sobre transações e negociações realizadas diretamente com Vorcaro.
De acordo com o relato, esses elementos indicariam que o ex-banqueiro tinha conhecimento das operações investigadas.
A proposta ainda precisa ser formalizada.
Depois da assinatura, o material deverá ser encaminhado ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pelo caso. Caberá ao magistrado avaliar eventual homologação, caso sejam atendidos os requisitos legais.
Objetivo é rastrear dinheiro do Banco Master
Para a PGR, um dos principais interesses na colaboração é obter informações que ajudem a rastrear e recuperar recursos supostamente desviados do Banco Master.
Mansur teria apresentado novos nomes de empresas, fundos e outras estruturas que, segundo as investigações, podem ter sido utilizadas nas operações.
Um dos exemplos citados envolve o Jaguar Multimarket Fund Ltd, registrado nas Ilhas Cayman.
Segundo a proposta, o Banco Master teria enviado aproximadamente R$ 494 milhões ao fundo.
Formalmente, o beneficiário apareceria como Benjamim Botelho, apontado como parceiro de negócios do Master. Mansur, porém, afirma que o verdadeiro beneficiário seria Vorcaro.
Reag também está no radar de outras investigações
Mansur já é investigado em diferentes frentes. No ano passado, ele foi alvo da Operação Carbono Oculto, que apurou suspeitas de lavagem de dinheiro e infiltração do crime organizado na economia formal. A Reag, posteriormente liquidada pelo Banco Central, apareceu entre as estruturas investigadas.
O empresário também entrou no foco da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades envolvendo o Banco Master e é relatada no STF pelo ministro André Mendonça.
Além disso, Mansur mantém negociações com o Ministério Público de São Paulo relacionadas à investigação da Carbono Oculto.
Políticos aparecem entre os anexos
A proposta de colaboração também menciona políticos. Entre eles estão o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União-BA).
No caso de Wagner, Mansur relata que teria comprado ingressos para um show da cantora Taylor Swift, avaliados em cerca de R$ 63,3 mil, a pedido de Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master. Os ingressos teriam sido utilizados para presentear o senador.
Wagner afirmou que a compra ocorreu a partir de um pedido pessoal feito a um amigo para ajudá-lo a conseguir os ingressos e declarou não conhecer Mansur nem ter mantido relação com a Reag.
Já ACM Neto aparece relacionado ao fundo Seattle 95, do qual é único cotista e que foi administrado pela Reag até 2025.
O fundo realizou investimentos no Structure, ligado a operações de empréstimos consignados originados pelo Banco Master.
Neto afirmou que o fundo foi criado com recursos próprios de origem declarada e lícita, que a Reag foi contratada para administrar os investimentos e que as operações ocorreram dentro das regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Investigação aponta possível supervalorização de ativos
As apurações do Banco Central e da Polícia Federal indicam que uma das estruturas investigadas envolvia empréstimos do Master para empresas recém-criadas.
Os recursos seriam posteriormente aplicados em fundos administrados pela Reag.
Em seguida, o dinheiro passaria por diferentes fundos e seria utilizado na aquisição de ativos de baixo valor ou com pouca liquidez.
Esses ativos, segundo os investigadores, seriam registrados nos fundos por valores muito superiores aos considerados reais.
Um dos casos citados é o do fundo High Tower, que teria adquirido por cerca de R$ 850 milhões carteiras de crédito consideradas problemáticas do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Esses ativos teriam sido registrados posteriormente por aproximadamente R$ 10 bilhões.
A suspeita é que operações desse tipo permitissem retirar ativos considerados problemáticos do balanço do banco e transferi-los para o mercado de capitais, onde apareciam dentro de fundos com valores artificialmente elevados.
Seis fundos ligados à Reag chegaram a apresentar, somados, R$ 102,4 bilhões em patrimônio informado.
Esse número, porém, representa o tamanho da estrutura sob investigação e não significa que todo esse montante tenha sido desviado.
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