Injeção abre caminho para tratamento da apneia do sono

Caneta contra obesidade reduz em até 34 episódios por hora as interrupções da respiração durante o sono

Carlos Eduardo Barra Couri
Injeção abre caminho para tratamento da apneia do sono Imagem: Thinkstock/VEJA/VEJA

A retatrutida, medicamento injetável desenvolvido para combater a obesidade, apresentou resultados promissores no tratamento da apneia obstrutiva do sono, doença que provoca interrupções repetidas da respiração durante a noite e pode comprometer seriamente a qualidade do descanso.

Em um estudo clínico de fase 3, publicado em 29 de setembro de 2026, pesquisadores observaram uma redução média de até 34,3 episódios de apneia ou hipopneia por hora de sono entre participantes que receberam o medicamento.

Os voluntários com apneia apresentavam, no início da pesquisa, aproximadamente 59 episódios respiratórios por hora — uma frequência próxima de uma interrupção a cada minuto.

O resultado representa um avanço nas pesquisas sobre o uso de medicamentos contra a obesidade para tratar problemas respiratórios associados ao excesso de peso.

O que a pesquisa descobriu

O estudo internacional, chamado TRIUMPH-1, acompanhou 2.339 adultos com obesidade, dos quais 243 tinham apneia obstrutiva do sono. Os participantes receberam aplicações semanais de retatrutida, em diferentes doses, ou placebo durante 80 semanas.

Entre os pacientes com apneia, a dose de 9 miligramas apresentou redução média de 34,3 eventos respiratórios por hora. Com 12 miligramas, a diminuição foi de aproximadamente 32 episódios por hora.

No grupo que recebeu placebo, a redução ficou próxima de 10 episódios por hora.

Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine e fazem parte de um programa de pesquisas desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly.

Por que um medicamento para obesidade pode melhorar a respiração?

A apneia obstrutiva do sono acontece quando as vias respiratórias ficam parcial ou totalmente bloqueadas durante o descanso, provocando pausas na respiração, redução da oxigenação e pequenos despertares.

O excesso de peso é um dos principais fatores associados ao problema.

A retatrutida atua sobre três receptores hormonais: GLP-1, GIP e glucagon, relacionados à regulação do metabolismo, do apetite e do peso corporal.

No mesmo estudo, participantes que utilizaram a dose de 12 miligramas apresentaram uma perda média de 25% do peso corporal, considerando a análise principal dos resultados.

A redução do peso pode contribuir para diminuir a obstrução das vias respiratórias, embora os pesquisadores ainda precisem esclarecer melhor todos os mecanismos envolvidos na melhora da apneia.

Medicamento ainda não está liberado para venda

Apesar dos resultados, a retatrutida permanece em fase de pesquisa clínica e não possui aprovação para comercialização no Brasil.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já alertou sobre a oferta irregular de produtos anunciados como retatrutida, especialmente pela internet.

Nos estudos, os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, incluindo náuseas e diarreia.

Os resultados também não significam que qualquer pessoa que ronca poderá utilizar a injeção. A pesquisa avaliou pacientes com obesidade e apneia obstrutiva do sono, uma condição que precisa de diagnóstico médico específico.

A expectativa é que os estudos contribuam para ampliar as alternativas de tratamento, mas a utilização da retatrutida dependerá da conclusão das avaliações de segurança, eficácia e aprovação pelas autoridades sanitárias.

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