OPINIÃO & OPINIÃO
A Guardiã do Invisível
Há uma força ancestral no olhar e nos ouvidos das mães. Um misto de lupa e confessionário que não perde nada.
Uma frase casual no jantar. A pausa longa em um tema delicado. Um sorriso maroto. Um pensamento longe.
Sim, ela ouve o som do silêncio.
A mãe interpreta. Junta. Costura. Conclui. E sabe quando falar.
Ou se calar, se o assunto não pode ser confessado.
Os segredos da família repousam no silêncio materno.
Naquela manhã, a mãe observava a quietude pesada entre o pai e o filho.
Estavam a caminho da zona eleitoral. Há dias ela vinha buscando uma brecha para selar a paz em casa.
O pai, fazia dez anos, passara a odiar Lula e o PT.
E contaminara a família; marcharam juntos, de verde e amarelo, por mudanças.
Mas o filho crescera.
Aos 17 anos, ia votar pela primeira vez para presidente.
E o menino já se conscientizara de que o pai não estava certo. Demorou, mas conseguiu conversar com a mãe.
Colocou na mesa os prós e contras de cada candidato. Diante de uma balança que lhe parecia favorável a Lula, a mãe não teve dúvidas em mudar também.
Ela tentou conversar com o marido. No início, ele não queria saber.
Depois, passou a silenciar, a não dar respostas. Ela desconfiou daquela mudez. Será? Mas ele era um homem que raramente mudava de opinião; já brigara e rompera com irmão e amigos por causa de política.
Ali, dentro do carro, o silêncio era quase físico. O rapaz queria tanto conversar com o pai.
Falar do orgulho de votar 13, de contribuir com a democracia, com os valores de honestidade e respeito que aprendera na própria família.
O pai dirigia sério, compenetrado. E freou o carro bruscamente quando ouviu a voz macia da mãe dizer: “Nós vamos votar no Lula”.
Ele respirou fundo. Esteve a ponto de estourar, de fugir de si mesmo.
Mas alguma coisa, talvez o milagre discreto dos domingos, tocou o seu coração.
Em vez do grito, ele abraçou a esposa e esticou o braço para o filho, que o acolheu num gesto só.
E todos, no silêncio agora leve do carro, caíram no choro.
Dirceu Herrero Gomes
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