Empresários citam relação com ex-ministro.

Empresários citam pedido a ex-ministro indiciado pela PF pelo esquema para ajudar entidade.

Luiz Vassallo e Jenne Andrade/Estadao
Empresários citam relação com ex-ministro. Reprodução Estadao/

Em gravações obtidas pelo Estadão, alvos da Polícia Federal pela fraude bilionária contra aposentados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) relataram como foram as tratativas com o ex-ministro da Previdência, José Carlos de Oliveira (PSD) para operar entidades envolvidas no esquema.
Procurada, a defesa dos empresários afirmou desconhecer os vídeos e que quem eventualmente vazou suas gravações cometeu crimes.
A defesa do ex-ministro José Carlos de Oliveira afirmou que ele nega relação com os empresários.
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  Igor Delecrode,                                     Felipe Macedo Gomes                         Américo Monte,

A reportagem obteve acesso a câmeras de segurança instaladas na residência de um dos investigados, Anderson Cordeiro de Vasconcelos, em um encontro com Igor Dias Delecrode, integrantes do grupo de empresários apelidado de “golden boys”
Eles receberam o apelido por serem jovens na casa dos 30 e 40 anos e mesmo assim terem presidido formalmente as quatro entidades que controlaram.
O jornal Estadão obteve acesso a 30 minutos de gravações de câmeras que ficavam ligadas 24 horas por dia no imóvel.
Em todo o vídeo, os empresários se referem às associações que controlavam nominalmente e a uma parceria de negócios entre eles que só existiu nessa área.
Os empresários e José Carlos de Oliveira estão hoje monitorados por tornozeleira eletrônica, medida imposta pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
O ex-ministro, que também presidiu o INSS e foi diretor de benefícios do órgão, já foi indiciado por ter recebido propinas de outra entidade do esquema, a Conafer.
O inquérito sobre os “golden boys” está em fase final e o relatório ainda não foi apresentado.
As imagens obtidas são de 22 de maio de 2025, um mês depois da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que investigou os desvios de R$ 6,2 bilhões sobre aposentadorias.

Sindicatos e associações que obtinham acordos com o INSS para oferecer seguros e planos de saúde a aposentados estão sob suspeita de fazer descontos indevidos sobre os benefícios de pessoas que nunca se filiaram a elas.
Associações ligadas a Igor e Anderson faturaram mais de R$ 700 milhões com o esquema.
Na conversa, eles conversam sobre como tiveram ajuda de Wilson Roberto Gomes, pai de outro integrante dos “golden boys”, Felipe Macedo Gomes, para conseguir o primeiro acordo para operar a Amar Brasil Clube de Benefícios.
Delecrode diz: “O Felipe, ele sempre bateu no peito dele que conseguiu fazer o negócio sozinho, sem ajuda de ninguém. Agora, você falou o que levou do pai dele? ‘Eu que consegui o negócio para vocês, eu que sentei lá com o Oliveira, eu que disse que podia acreditar em vocês’”, disse.
Anderson concordou e citou a frase que teria sido dita por Wilson Gomes: “Faz pro meu filho como se fosse pra mim”. Ele ainda disse: “Eu não sabia de nada disso, nem que ia dar um helicóptero pro “big boss”. Anderson não deixou claro quem seria o “big boss”.
Em outro trecho da conversa, eles conversam sobre como o esquema teria rendido ao pai de Felipe.
Eles afirmaram que Felipe poderia recorrer ao dinheiro de Wilson Gomes, que teria levado R$ 7 milhões dos “golden boys”.

A história do grupo começa pela relação de amizade de Oliveira com o pai de Felipe Macedo Gomes, Wilson Roberto Gomes.
Conhecido como “Xixa”, Wilson foi condenado por lavagem de dinheiro para o tráfico de drogas.
Preso com 16 kg de cocaína, um dos acusados disse que Xixa emprestou dinheiro a juros de 20% ao mês, usados para o comércio da droga.
A investigação mostrou que houve lavagem de dinheiro com notas fiscais da loja de carros de Xixa.
Em 2013, atiradores fuzilaram o irmão de Xixa e um parente distante de Oliveira em frente ao Café Jornal, em Moema, na Zona Sul de São Paulo. A polícia nunca identificou suspeitos do crime.
Uma das vítimas, um irmão de Wilson, havia acabado de ser absolvido da acusação de ter sequestrado um dos líderes do roubo ao Banco Central, em 2005.
Foi na gestão de Oliveira que Felipe Macedo Gomes conseguiu emplacar o acordo de cooperação técnica da Amar Brasil Clube de Benefícios.
O termo foi assinado pelo então diretor do órgão, Edson Yamada, que é sócio de Oliveira — ambos são investigados pela PF.
A entidade, sozinha, faturou R$ 324 milhões entre 2021 e 2025. Foi no governo Lula, no entanto, que Gomes conseguiu outros três acordos para outras entidades que descontaram outros R$ 376 milhões.

Quebras de sigilo bancário nas investigações mostraram que Felipe Macedo Gomes transferiu R$ 8 mil a Oliveira na pessoa física.
Também recebeu R$ 12,5 mil de João Carlos Camargo Júnior, conhecido alfaiate de famosos e políticos que fez transações milionárias com os “golden boys”.
A maior parte do dinheiro recebido por Oliveira vinha de supostos operadores e de uma padaria em São Paulo. Sua relação com os “golden boys” ainda é investigada.
Como funcionou o esquema

As entidades da Farra do INSS, como as associações ligadas aos “golden boys”, só podiam descontar diretamente da folha de pagamento dos aposentados porque firmaram acordos de cooperação técnica (ACTs) com o INSS.
Ex-diretores do órgão estão sob suspeita de receber propina para firmar esses acordos.
Os acordos de cooperação técnica previam que associados das entidades tivessem suas mensalidades transferidas diretamente a elas. Em troca, as associações ofereciam supostos serviços, como seguros e planos de saúde.
As investigações mostraram que entidades filiavam esses aposentados de maneira fraudulenta.
Segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU), 98% dos aposentados não haviam autorizado os descontos. Muitos sequer sabiam da existência das associações.
Empresários ligados às associações são suspeitos de fraude.
Ex-diretores do INSS são investigados pelo recebimento de propina para manter o esquema em andamento — seja para aprovar novas associações ligadas aos empresários, ou para manter os acordos com elas caso houvesse sindicâncias para apurar irregularidades.
Quatro associações, corrupção no INSS e ostentação
Apesar de longe da idade para se aposentar, Anderson e Igor já presidiram a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP), uma das entidades suspeitas do grupo.
Com Américo Monte Jr e Felipe Macedo Gomes, eles são suspeitos de serem os controladores da Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP).
Todas essas entidades tinham como sedes salas comerciais, também em Alphaville.
As investigações detectaram que mais de R$ 100 milhões que essas entidades receberam foram direcionados a empresas de Américo, Felipe e Anderson e Igor. Essas empresas ainda transferiram dinheiro a parentes deles.
Contratos com parentes de dirigentes do INSS
Empresas e associações dos “golden boys” firmaram contratos de prestação de serviços com Eric Fidelis, filho do ex-diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis — que foi preso na Operação Sem Desconto — e com a médica Thaissa Hoffmann, mulher do ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Oliveira, que também foi preso.
Ambos já eram suspeitos em razão de pagamentos milionários que receberam de Antonio Carlos Camilo Antunes, lobista conhecido como o “Careca do INSS”, e de outros operadores ligados a associações.
Os “golden boys” nunca foram presos e somente em abril de 2026 o ministro do STF André Mendonça ordenou, a pedido da PF, que esses empresários passassem a usar tornozeleiras eletrônicas.
Defesa afirma desconhecer vídeos
Os advogados Rogério Cury, Daniela Cury, Levy Magno e Victor Fanti, que atuam na defesa de Anderson, Igor e Felipe, afirmaram que “desconhecem a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos em questão”.
“De todo modo, todos os seus bens se encontram bloqueados pela Justiça e o declarante segue, como sempre esteve, sob absoluta disposição das autoridades públicas”, afirmam.
A defesa ainda afirma, em nome de Anderson, que, “se eventualmente existentes”, os vídeos “foram obtidos de maneira ilícita e criminosa”.
As defesas de Eric Fidelis e Virgilio de Oliveira não se manifestaram. A reportagem não localizou a defesa de Antonio Carlos Camilo Antunes.
O advogado Fernando José da Costa, que representa Wilson Roberto Gomes, afirma que “seu cliente nunca teve relação com as associações”.
Sobre a ação em que Gomes chegou a ser condenado, Fernando José da Costa afirma que ela é “um processo antigo que, embora tenha havido o trânsito em julgado, teve reconhecida a prescrição da pretensão executória”.
“Ou seja, não houve e não haverá cumprimento de pena. Por essa razão, e também por se tratar de processo que tramita sob sigilo, a defesa não irá se manifestar”, disse.

Ex-ministro nega irregularidades
O ex-ministro José Carlos Oliveira (Ahmed Mohamad Oliveira) afirma que “as afirmações feitas são infundadas, uma vez que nunca manteve relacionamento particular ou profissional com os mencionados”.
“Sobre o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre o INSS e qualquer entidade representativa, importa destacar, uma vez mais, que o ex-ministro não tinha qualquer ingerência no processo de celebração dos referidos instrumentos.
Os ACTs celebrados pelo INSS seguem critérios rigorosamente técnicos, administrativos e jurídicos, observando fluxos internos de análise e aprovação conduzidos pelas áreas competentes da autarquia, sem interferência pessoal ou política”, diz.
“Também é importante destacar que o debate em torno dos ACTs deve estar concentrado no período em que se verificou o crescimento desordenado dos descontos aplicados aos beneficiários e, consequentemente, o expressivo aumento da arrecadação das entidades envolvidas.
Essas entidades têm natureza privada e autônoma, razão pela qual devem responder de forma independente, nos termos da legislação vigente, por eventuais irregularidades que venham a ser apuradas pelos órgãos competentes”, afirma o ex-ministro.
“Por fim, importante reiterar que não procede qualquer afirmação de que o ex-ministro José Carlos Oliveira tenha atuado para aprovação deste ou qualquer outro ACT junto ao INSS”, disse.
Por meio de sua defesa, Oliveira disse ao jornal Estadão que apenas “conhece membros da família Macedo”, mas nega “amizade” com eles.
Ele afirma que “não mantém nem manteve laços de amizade próximos ou antigos com a família, especialmente com os envolvidos no episódio ocorrido no mencionado Café, sendo inadequada qualquer tentativa de estabelecer associação entre os fatos e o ex-ministro”.
Oliveira ainda disse que a relação com Yamada é “estritamente pessoal, alheia a quaisquer questões funcionais ou profissionais relacionadas ao INSS ou à administração pública federal”.





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