23% dos brasileiros já tiveram outra religião
Motivações para trocas vão de afinidade com crenças e valores morais à discordância com lideranças da igreja
Foto: Montagem de fotos de arquivo pessoal Batizada e crismada pelos pais conforme os ritos do catolicismo, a atendente de curso de idiomas Milena Rodrigues, de 27 anos, hoje sente sua fé mais contemplada nos cultos evangélicos do que na missa.
Convertida ao protestantismo há dois anos, a moradora de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, pretende ter filhos e levá-los à igreja, mas diz que buscará dar maior autonomia para “descobrirem a própria fé” do que ela mesma sentiu na maneira como foi criada.
O caso de Milena não está isolado: 23% dos brasileiros afirmam já ter tido outra religião, segundo dados da pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil.
Em um cenário de aumento da população evangélica e redução do número de católicos, a pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) e pela Quaest, com 15 mil entrevistas em todo o país, aponta que a maior tendência de conversão religiosa ocorre justamente entre esses dois grupos.
Segundo o levantamento, quase 10% dos entrevistados são evangélicos que afirmam ter sido católicos antes.
O índice equivale a um terço do total de evangélicos (29%) no país.
No sentido inverso, apenas 3% dos entrevistados são católicos que dizem ter sido evangélicos.
Essa transição também ocorre para fora do campo religioso: entre os entrevistados que dizem não ter religião, um em cada cinco já foi católico ou evangélico.
Assim como Milena, cerca de 30% dos brasileiros não têm hoje a mesma religião dos pais; um percentual similar diz que os filhos também seguiram religiões distintas.
— Quero levar meus filhos à igreja e apresentá-los a Deus, mas sem colocar a mesma pressão que eu recebi — afirma Milena, que se sentiu atraída para a religião evangélica especialmente ao notar diferenças nos cultos. — Na Igreja Católica não tem a questão da música, do louvor, muito forte. Isso pesou bastante para a minha decisão.
A pesquisa do ISER e da Quaest apontou que 31% dos entrevistados não têm a mesma religião de seus pais, e que este é um fenômeno mais frequente entre os evangélicos.
Nesse segmento, 32% afirmaram ter mães católicas, e 39% disseram que o pai é adepto do catolicismo.
O inverso é menos frequente: 7% dos católicos têm mãe evangélica, segundo a pesquisa, e 4% têm pai evangélico.
— Hoje nós temos famílias plurirreligiosas no Brasil.
E a pesquisa mostra que o trânsito entre religiões tomou diversas direções — afirma a antropóloga Lívia Reis, coordenadora da pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil e do ISER.
Uma casa, duas fés
Segundo o levantamento, 30% dos entrevistados dizem que ao menos um de seus filhos é adepto de outra religião.
Entre os evangélicos, o índice chega a 41%, enquanto só 20% dos católicos dizem o mesmo.
No caso de Carolina Reis, de 31 anos e evangélica, a pluralidade religiosa aparece no atual relacionamento: sua parceira é adepta do candomblé.
Com planos de ter filhos, elas pretendem proporcionar à criança o contato com as duas religiões, segundo Carolina, para que possa “escolher a qual lugar quer pertencer, assim que tiver consciência”.
A pesquisa do ISER e da Quaest aponta que as diferenças de fé entre casais variam de acordo com o grupo religioso.
Entre os evangélicos, 67% dizem que o parceiro tem a mesma religião.
No caso dos seguidores de religiões afro-brasileiras, esse percentual é de 54%.
Entre os católicos, por outro lado, 81% dizem que o cônjuge tem a mesma religião.
Carolina diz que teve criação católica e chegou a participar de um grupo jovem de uma paróquia no Distrito Federal, antes de se converter ao protestantismo.
Hoje membro da igreja Coletivação, em Ceilândia, Distrito Federal, ela afirma que a mudança religiosa ocorreu porque não sentia sua sexualidade aceita na igreja católica que frequentava.
Já a igreja evangélica à qual pertence hoje é receptiva à população LGBTQIAPN+.
— Eu já não poderia participar de certas coisas dentro da Igreja Católica como eu gostaria, por conta da homossexualidade.
Na época, eu tinha uma companheira evangélica, e achamos uma igreja com viés mais progressista — afirma.
Segundo a pesquisa, o principal motivo citado pelos entrevistados para mudar de religião é ter “maior afinidade com as crenças e práticas” da nova fé, razão mencionada por 36%.
Outros 21% responderam ter mudado por encontrarem “valores morais e éticos” mais adequados em outra religiosidade, e 16% afirmaram ter tido “discordância com a autoridade religiosa”.
Apenas 5% disseram ter mudado de fé por “discordância política”.
Na avaliação de Carolina, para além da maior aceitação que percebeu à sua orientação sexual, outro fator que a atraiu na igreja evangélica foi o espaço dado à música gospel, interesse que a acompanha desde os tempos de catolicismo.
A pesquisa do ISER e da Quaest aponta que, entre pentecostais e protestantes, o consumo de gospel chega a 80%.
O índice também é elevado entre os católicos praticantes: 69%.
O levantamento também indica que os evangélicos tendem a consumir mais do que os católicos outros produtos religiosos, como filmes e séries com a temática da fé, rádios cristãs e novelas bíblicas.
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