Quase metade das candidaturas de 2026 é de pretos e pardos
Candidaturas negras avançam, mas estudo aponta distância entre participação eleitoral e cadeiras no Congresso
Foto: Pedro Ladeira/Folha Express A participação de candidatos pretos e pardos nas eleições brasileiras cresceu na última década, mas o avanço nas candidaturas ainda não se converteu na mesma proporção em cadeiras ocupadas no Congresso Nacional.
Um estudo do Núcleo de Estudos Raciais do Insper (Neri), com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das eleições de 2014, 2018 e 2022, aponta que a presença de parlamentares negros aumentou nas duas Casas, mas permanece abaixo de 30%.
Na Câmara dos Deputados, a proporção de eleitos pretos e pardos passou de 19,9% em 2014 para 26,5% em 2022. No Senado, o percentual avançou de 18,5% para 22,2% no mesmo período.
Candidaturas de 2026
Dados divulgados pelo TSE no último domingo (16) mostram que foram registradas, até aquele momento, 10.226 candidaturas de pessoas negras para os cargos em disputa nas eleições de 2026.
Desse total, 2.803 candidatos se declararam pretos e 7.415 pardos.
Juntos, os dois grupos representam 49,8% das candidaturas registradas. Nas eleições anteriores, a proporção havia sido de 50,3%.
O número, porém, ainda é considerado parcial, já que o registro feito pelos partidos precisa passar pela análise da Justiça Eleitoral.
Algumas candidaturas podem ser indeferidas por falta de requisitos ou outras irregularidades.
Diferença entre candidaturas e eleitos
O levantamento do Insper chama atenção para a diferença entre a participação de pessoas negras entre os candidatos e a quantidade que efetivamente consegue conquistar uma vaga.
Para avaliar essa relação, os pesquisadores utilizam o Índice de Equilíbrio Racial (IER), que compara a proporção de candidatos ou eleitos negros com a participação da população negra na respectiva região.
Quando o índice fica abaixo de 1, significa que a presença do grupo entre candidatos ou eleitos é inferior à proporção considerada necessária para uma representação equilibrada.
No caso dos parlamentares eleitos, o índice permanece abaixo desse patamar desde 2014.
O Senado apresenta uma das maiores diferenças. O IER era de 0,80 em 2014 e ficou próximo de 0,75 nas eleições seguintes.
Segundo a economista e pesquisadora Camila Alvarenga, que assina o estudo ao lado do economista Michael França, a análise proporcional revela uma diferença importante em relação aos números absolutos. Estados com maior população negra, por exemplo, podem ter uma representação menor quando o resultado é comparado ao perfil de seu eleitorado.
Avanço ainda não significa equilíbrio
Os dados mostram uma redução gradual da participação de candidatos brancos entre os eleitos, acompanhada pelo crescimento da presença de pardos e pretos.
Mesmo assim, o estudo aponta que a representação permanece distante da composição racial da população brasileira.
Em 2022, por exemplo, 141 dos 540 parlamentares eleitos para a Câmara e o Senado se declararam negros, segundo os dados utilizados no levantamento.
O número representou crescimento de 8,5% em relação a 2018. Entre 2014 e 2018, o aumento havia sido de 22,6%.
No Senado, a quantidade de cadeiras em disputa também influencia os percentuais. Em 2022, foram 27 vagas.
Naquele pleito, três eleitos se declararam pretos e dois indígenas, o que mostra como a entrada ou saída de poucos parlamentares pode alterar significativamente os índices.
Debate envolve financiamento e regras partidárias
A pesquisa também aponta a necessidade de acompanhar as diferenças no financiamento das campanhas de candidatos negros e brancos e a aplicação das regras de cotas partidárias.
A identificação racial dos candidatos é feita por autodeclaração, assim como ocorre nos levantamentos do IBGE.
O Senado mantém ainda o Observatório de Equidade do Legislativo, que reúne informações sobre o perfil dos parlamentares, incluindo recortes de raça e gênero.
Os dados mostram, portanto, que a presença de candidatos negros nas eleições aumentou, mas a transformação desse crescimento em representação efetiva no Congresso ocorre em ritmo mais lento.
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