O inquérito da PF que investiga tráfico de influência

Apuração da Polícia Federal a que revista VEJA teve acesso aponta o filho do presidente como parte da engrenagem de esquema no Ministério da Saúde

Por Ricardo Chapola e Laryssa Borges / VEJA
O inquérito da PF que investiga tráfico de influência (Juca Varella/Estadão Conteúdo; Instagram @roberta.luchsinger/.)

Em abril do ano passado, a Polícia Federal realizou a primeira fase da Operação Sem Desconto, investigação que desmantelou uma quadrilha formada por empresários, servidores públicos e Lobistas que se juntaram para aplicar um golpe contra a Previdência.

O caso ganhou rapidamente o selo de escândalo pela crueldade (idosos tiveram suas aposentadorias roubadas), pela ousadia (o esquema operava movido por subornos pagos a funcionários do governo) e pelos números superlativos (foram desviados 6 bilhões de reais de 4 milhões de aposentados).

O cheiro de envolvimento de políticos levou o Congresso a criar uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, que produziu marolas em direção a figuras importantes como Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula.

Na época, uma testemunha revelou que o primogênito estaria a serviço de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", líder da quadrilha, e atuaria em parceria com Roberta Luchsinger, uma lobista conhecida pelas relações de amizade com petistas de alto escalão, para impulsionar negócios milionários junto ao governo do pai. Embora contundente, o depoimento não veio acompanhado de provas.
Sem avanços, a CPMI foi encerrada, mas as investigações prosseguiram.

No início do ano, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a quebra do sigilo telemático de Roberta Luchsinger.

A Polícia Federal teve acesso então a mensagens e documentos da lobista armazenados em nuvem. Surgiram novas suspeitas, com a participação do Careca do INSS, mas não relacionadas ao caso do roubo dos aposentados. Na análise do material, os investigadores chegaram à seguinte conclusão: Lulinha teria atuado como uma espécie de agenciador oculto de empresários que tinham interesse em fechar negócios vultosos em Brasília. Além do Careca do INSS e da lobista, o grupo seria integrado também por Fernando Bittar, amigo e antigo sócio do primogênito, conhecido também na época da Lava-Jato por ser um dos Proprietários do célebre sítio de Atibaia (a força-tarefa de Curitiba defendia que o verdadeiro dono da propriedade era Lula). O grupo também teria contado com a ajuda de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, na época em que ele era chefe de gabinete do presidente Lula.

Seriam nítidos, de acordo com os investigadores, os indícios de corrupção e tráfico de influência.
A revista VEJA teve acesso à integra do inquérito que, a exemplo do que aconteceu há duas décadas, coloca de novo o filho do presidente no topo de um rumoroso escândalo.

De acordo com o relatório da investigação da PF, não há dúvida de que Roberta mantinha uma sociedade oculta com Lulinha e Bittar para intermediar negócios. "Os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fabio Luis Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal", concluíram os delegados.

Nas mensagens, a lobista jactava-se de uma suposta proximidade com o presidente Lula.
Segundo ela, o petista já teria, inclusive, lhe oferecido um cargo no governo.
Roberta conta que não aceitou. Em conversa com um empresário em 2024, explicou que preferiu se dedicar à "sociedade" com o filho do presidente. "Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. ( ... ) Eu disse: aonde eu tô.
Na minha sociedade com Fábio e Fernando." E explicou o porquê: "Tô em cargo nenhum e ando onde quero".
A lobista deixava bem claro a seus interlocutores o nível da relação que mantinha com o filho do presidente. "Fefe (Fernando Bittar), Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds (todos) vão.
A gente é mesmo irmão", escreveu ela em um dos diálogos anexados ao inquérito.
Roberta esclareceu como seria a participação de Lulinha no esquema: "Fábio não faz nada. Ele só entra em campo qdo (quando) precisa. Tem q se preservar". Não era blefe.

O nível de intimidade fica claro também em um grupo de WhatsApp, intitulado "Musaranhos", que a trinca mantinha para discutir os negócios junto ao governo. Musaranho é um mamífero que parece um rato. Lulinha e Bittar eram os "Musos", Roberta era a "Musa". "Convém indicar que Fabio Luis Lula da Silva aparece reiteradamente no material analisado como figura de elevada relevância mesmo que adote postura de menor exposição nas tratativas. As comunicações indicam que Fabio é mencionado por Roberta Luchsinger como referência decisória nos projetos discutidos", diz o relatório policial.

O inquérito destrincha o esforço de Roberta e Lulinha para convencer o governo a regulamentar o uso de canabidiol no país.
Egresso do ramo farmacêutico, o hoje notório Careca do INSS, além de golpear os aposentados, antes de cair em desgraça articulava a realização de um negócio bilionário junto ao Ministério da Saúde.

Para o plano dar certo, era preciso destravar resistências políticas e mudar certas regras.
Roberta explica o caminho que ela trilhava para driblar os problemas: "Eu trabalho a política via Palácio. Eu sou boa de costura política". Contratada como consultora do Careca do INSS, a lobista acionou Lulinha para acelerar a regulamentação para a produção e venda de medicamentos à base de canabidiol.
Resolvido esse problema, a segunda etapa do projeto era "convencer" o Ministério da Saúde a contratar uma empresa de Camilo Antunes para fornecer os remédios - um negócio superior a 1 bilhão de reais. "Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer", escreveu a lobista em 23 de janeiro de 2025.

De acordo com a PF, Lulinha já estava se mexendo nos bastidores havia algum tempo. O grupo precisava de acesso ao Ministério da Saúde. Coube a Marcola, o chefe de gabinete de Lula, marcar uma reunião entre a lobista e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta.
Essa reunião só aconteceu depois da interferência de Lulinha. "Pousei. Vou lá no Berge", disse Roberta a Fábio em 6 de março de 2024. "Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo (beijo) pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou", ironiza o primogênito.
Roberta não esconde o objetivo: "Precisamos 100% do Berger".
Após o encontro, Marcola recebeu a minuta de um documento que liberava a produção de medicamentos à base de canabidiol. Nesse mesmo período, Roberta passou a pagar contas pessoais do auxiliar do presidente. Entre fevereiro e novembro de 2024, foram 217 098 reais em faturas de cartão de crédito, boletos de apólice de seguro, financiamento do carro, um par de brincos e um pingente de diamantes com que ele presenteou a esposa.
Homem de confiança de Lula, Marcola possuía acesso direto ao gabinete de Lula, testemunhava inclusive conversas fora da agenda oficial e até atendia o celular do presidente.
Ele acabou sendo exonerado em julho passado, por ordem do presidente.
Em sua defesa, garante que as transações foram parte de um empréstimo, que ele quitou depois, e que sua demissão nada teve a ver com isso. 
A lobista Roberta confirma a história do empréstimo pessoal. Até onde se sabe, Marcola não é investigado no caso.
Segundo a PF, as mensagens revelam ainda que os "Musaranhos" tinham tentáculos em outras áreas do governo. Lulinha é investigado pelos federais por suspeitas de usar a influência como filho do presidente para abrir portas também na Dataprev, autarquia que, entre outras atividades, processa os dados dos aposentados do INSS.
Umas das mensagens anexadas a esse inquérito mostra Roberta e um empresário ligado ao Careca do INSS combinando para pressionar Carlos Gabas, ex-ministro da Previdência no governo Dilma Rousseff, a facilitar a vida do grupo.
Na época, uma instrução normativa impunha à Dataprev travas tecnológicas que dificultavam descontos em folha de empréstimos concedidos aos aposentados - um entrave aos intentos de pessoas eventualmente mal-intencionadas. "Ta indo tudo ok na Dataprev ou preciso apertar Gabas?", escreve a lobista a um empresário interessado na causa.
Na Telebrás, a cobiça provocou atritos entre velhos amigos. Roberta e Fábio reclamaram em uma troca de mensagens das traficâncias de Kalil Bittar, irmão de Fernando e também sócio de Lulinha, que estaria usando o nome do filho do presidente para tentar obter um contrato milionário na estatal, na época comandada pelo atual ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira.
"Kalil vendendo vc e a grande influência dele p (para) o presidente da Telebrás. Quase fechando um negócio gigante", escreveu Roberta. "Vendendo facilidades, Telebrás contrata ele, plataforma dele, coisas que ele indicar", continua ela.
Lulinha a orienta a desmentir a história.
Dinheiro, aliás, é um assunto recorrente nos diálogos. Roberta, por exemplo, projetava ganhos de 100 milhões de reais apenas em 2024.
Ela também aparece dando instruções e seu motorista para fazer entregas de dinheiro vivo a diferentes destinatários, incluindo o parceiro Fernando Bittar. Os valores circulavam em malas.
Ao tratar de uma viagem à África, organizada e paga pela lobista (custo de 20 000 dólares por cabeça), Lulinha, que vai embarcar com a família, deixa transparecer que era Roberta que cuidava de suas finanças. "A gente tem grana pra bancar essas coisas?", pergunta. E acrescenta: "Vc que cuida das minhas finanças".
Em outro diálogo, Lulinha comenta animado a perspectiva de lucro de uma boa tacada nos negócios da turma: "coisa boa paporra".
As mensagens do filho do presidente - todas - tinham sido apagadas e só foram recuperadas graças a um software especial usado pela PF, que suspeita que pagamentos recebidos por uma empresa de consultoria de Roberta teriam o filho do presidente como destino final.
Em uma mensagem, o Careca do INSS se refere ao destinatário do dinheiro como "o filho do Rapaz", muito embora o montante tenha sido destinado à RL Consultoria, a companhia de Roberta. "A análise também revelou interesse explícito na abertura de empresas e contas bancárias no exterior, inclusive em locais de difícil rastreamento ou cooperação internacional", destacou a PF.

Segundo o inquérito, o trio integrado por Lulinha teria avançado os limites do lobby empresarial. "Eu posso chegar em qualquer parlamentar, por exemplo, e dizer: essa lei não é boa, vai ter um impacto negativo sobre os postos de trabalho.
Isso é lobby e é legítimo", explica Vitor Schirato, professor de direito administrativo da Universidade de São Paulo. "Agora, se eu tenho um irmão que é ministro, chego para uma pessoa que tem interesse direto naquele ministério e falo 'olha, se você me pagar 1 milhão de reais, eu convenço meu irmão a te dar uma decisão favorável', isso vira tráfico de influência, o que é crime."

Os planos e as maquinações financeiras do grupo começaram a ruir em abril do ano passado com o início da Operação Sem Desconto.
O Careca do INSS
foi preso, Roberta passou a ser investigada e Lulinha se mudou para a Europa depois do escândalo. A mudança, segundo os advogados dele, já estava prevista. De fato. A PF encontrou mensagens, postadas em janeiro de 2025, em que a lobista dizia que precisava destravar logo os negócios de interesse do grupo porque Fábio iria morar no exterior: "As coisas irão acontecer pq eu tenho q tirar o Fábio e família do país até junho", completou.

Lulinha, de fato, se mudou para a Espanha. Ele mora com a mulher e os filhos em Madri, num confortável condomínio com aluguel estimado em 5 000 euros, o equivalente a 30 000 reais. Sempre que questionado sobre a atuação empresarial do filho, Lula tem declarado que o primogênito jura inocência e que a PF possui total liberdade para prosseguir na investigação: "Se tiver alguma coisa, vai pagar o preço".
O presidente, aliás, não está indiciado no caso e sequer faz parte dos alvos da investigação.
Advogado que representa Lulinha nos inquéritos da PF, Marco 
Aurélio de Carvalho nega que seu cliente tenha relação com negócios que envolvam a administração pública brasileira.
"O Fábio carrega o peso do sobrenome", afirma. "Se fosse qualquer outra pessoa, o inquérito já estaria arquivado."
Roberta, por sua vez, se queixa de ter virado alvo principal das denúncias. Numa das mensagens reproduzidas no inquérito, ela profetizou: "Ou a gente vai ficar milionário ou vamos nos f ... grande".
A primeira hipótese parece temporariamente fora de cogitação.




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