Emerson Celestino

A incoerência de setores da Igreja Católica

O Evangelho pode servir de palanque para o PT?

Imagem: AP
A incoerência de setores da Igreja Católica

Por que católicos comprometidos com a vida, a família e a tradição cristã deveriam questionar a aproximação entre setores do clero e a esquerda brasileira.
A recente divulgação da carta “Ao Povo de Deus”, assinada por bispos católicos que apresentam a candidatura de Flávio Bolsonaro como uma ameaça à democracia e demonstram preferência política pela candidatura adversária, reacende uma questão incômoda: até que ponto setores da Igreja Católica estão colocando a fidelidade ao Evangelho acima de suas preferências ideológicas?

A crítica não se dirige a todos os católicos, muito menos à fé professada por milhões de brasileiros.
Dirige-se à incoerência de lideranças religiosas que parecem enxergar com extrema severidade os defeitos da direita, mas demonstram muito mais tolerância quando os problemas aparecem no campo político da esquerda.
Se a Igreja pretende orientar a consciência dos fiéis, precisa fazê-lo com coerência. Não pode transformar a Doutrina Social em instrumento de combate a adversários políticos, selecionando apenas os princípios que favorecem determinada candidatura.
 O PT e suas raízes nas Comunidades Eclesiais de Base
É impossível compreender a história da esquerda brasileira sem reconhecer a participação de setores progressistas da Igreja Católica na mobilização social que contribuiu para a fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980.
As Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais sociais e os movimentos ligados à Teologia da Libertação ajudaram a formar lideranças populares e a difundir uma visão de transformação da sociedade centrada na organização dos trabalhadores e no combate às desigualdades.
O PT, evidentemente, também nasceu do sindicalismo, dos movimentos populares e de outras organizações políticas.
Não foi uma criação exclusiva da Igreja.
Entretanto, essa proximidade histórica levanta uma pergunta legítima: quando a atuação pastoral passa da defesa dos pobres para a defesa preferencial de um projeto partidário, onde termina a missão religiosa e começa a militância ideológica?

A preocupação não é imaginária. A própria Santa Sé advertiu, em documento de 1984, sobre os riscos de determinadas interpretações da Teologia da Libertação que recorriam de maneira acrítica a conceitos marxistas. A advertência, porém, não significou rejeição da luta cristã contra a pobreza ou de toda forma de Teologia da Libertação.
O problema começa quando a opção pelos pobres é apresentada como justificativa suficiente para apoiar um partido, como se a política social de uma legenda anulasse automaticamente todas as demais questões morais.
Justiça social não pode ser salvo-conduto moral
Um dos argumentos mais frequentes dos setores católicos progressistas é a defesa dos pobres. Trata-se de uma preocupação legítima e profundamente enraizada no cristianismo.
O problema aparece quando a justiça social se transforma em uma espécie de salvo-conduto: um candidato ou partido passa a ser tratado como moralmente aceitável porque defende determinados programas sociais, mesmo quando existem divergências importantes em outros temas.
Para o conservador cristão, a vida humana, a família, a liberdade religiosa, a responsabilidade individual e a justiça social não são princípios que precisam se destruir mutuamente.
São questões que devem ser examinadas em conjunto.
A defesa da vida desde a concepção não perde importância porque existem pessoas pobres. A proteção dos trabalhadores não se torna dispensável porque existem controvérsias sobre costumes.
A responsabilidade fiscal não elimina a obrigação de socorrer os necessitados.
Da mesma maneira, defender a família não autoriza ignorar a miséria, e combater a pobreza não autoriza relativizar qualquer princípio moral.
O eleitor católico tem o direito e a responsabilidade de perguntar se o candidato que recebe seu voto representa, de maneira suficientemente coerente, os valores que considera fundamentais.
E a defesa da vida e da família?
A doutrina católica atribui grande importância à proteção da vida humana, ao matrimônio, à família e à educação dos filhos. Esses princípios não deveriam desaparecer do debate quando a eleição coloca em confronto projetos políticos diferentes.
É perfeitamente legítimo que um católico questione o apoio a candidatos cujas posições sobre o aborto entrem em conflito com o ensinamento da Igreja.
Também é legítimo discutir políticas sobre drogas, educação e família a partir de convicções religiosas.
A crítica deve ser dirigida às posições concretas e às contradições demonstráveis, não à consciência individual de milhões de pessoas.
Mas existe uma pergunta incontornável: por que alguns líderes religiosos enfatizam determinadas questões sociais para orientar o voto, enquanto questões morais igualmente relevantes recebem tratamento secundário ou desaparecem de sua argumentação eleitoral?
Se o Evangelho deve orientar a política, essa orientação não pode mudar de acordo com a conveniência partidária.
A carta dos bispos e a seletividade política.
Na carta divulgada em outubro de 2026, os signatários apresentam críticas a Flávio Bolsonaro relacionadas a temas como direitos trabalhistas, pobreza, armamento, meio ambiente, soberania e democracia. Ao mesmo tempo, descrevem favoravelmente a atuação da candidatura adversária em aspectos sociais e institucionais.
Os bispos têm liberdade para expressar suas avaliações políticas. O debate público também permite contestar essas avaliações.
Não basta afirmar que um governo é responsável com os pobres. É necessário examinar os resultados de suas políticas, a integridade de seus representantes, o respeito às instituições e suas posições diante de questões morais fundamentais.
Por que o conservadorismo cristão rejeita o alinhamento automático.
Sob essa perspectiva, o bolsonarismo encontra apoio entre eleitores que valorizam o conservadorismo nos costumes, a segurança pública, a liberdade econômica e o combate à expansão da esquerda. 
Mas os católicos que se identificam com esses valores têm motivos legítimos para questionar a aproximação de setores do clero com o PT. Não porque a Igreja deva abandonar os pobres, mas porque a defesa dos pobres não deveria ser transformada em justificativa universal para alianças políticas.
A crise de credibilidade de qualquer instituição religiosa começa quando seus princípios parecem variar conforme a conveniência de seus dirigentes.
Se a Igreja condena o totalitarismo, deve condená-lo em qualquer campo político. Se defende a dignidade humana, precisa considerar essa dignidade em todas as etapas da vida. Se denuncia a exploração dos pobres, deve também examinar a corrupção, a ineficiência e o uso eleitoral da assistência social. Se cobra responsabilidade dos conservadores, deve cobrar responsabilidade dos progressistas.
O católico conservador não precisa escolher entre sua fé e sua consciência política. Precisa, isto sim, recusar a submissão automática de ambas a qualquer partido.
A Igreja tem uma missão espiritual que ultrapassa as eleições. Sua contribuição para a sociedade será maior quando formar consciências livres, capazes de avaliar criticamente os candidatos, em vez de transformar divergências políticas em testes de fidelidade religiosa.
A pergunta final não é se um católico pode votar no PT ou em Flávio Bolsonaro.
Em uma democracia, pode escolher livremente. A pergunta é outra: está disposto a aplicar os mesmos princípios morais ao candidato que apoia e ao candidato que rejeita?
É essa coerência, e não a obediência a uma legenda, que deveria orientar o cristão comprometido com sua fé.



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