Emerson Celestino

Quando a sala de aula vira palanque ideológico, quem perde são as crianças.

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Quando a sala de aula vira palanque ideológico, quem perde são as crianças.

O caso da professora afastada em Potirendaba (SP) é grave e precisa provocar uma reflexão que vá muito além de uma disputa entre esquerda e direita.
Segundo as notícias divulgadas, a docente teria associado um eventual governo de Flávio Bolsonaro ao fascismo e feito declarações sobre a possibilidade de crianças morrerem em razão da cor da pele.
Se confirmadas, essas condutas são absolutamente incompatíveis com a responsabilidade de quem tem a missão de educar.
Professor não é dono da consciência dos alunos, muito menos tem o direito de transformar crianças em instrumentos de militância política.
Uma sala de aula deve ser um espaço de conhecimento, pluralidade, pensamento crítico e respeito.
É legítimo ensinar o que foi o fascismo, estudar regimes autoritários, discutir racismo e analisar diferentes correntes políticas.
O que não é aceitável é usar esses temas para amedrontar crianças de 11 anos, sugerir que o futuro delas depende da vitória ou derrota de determinado candidato e fazer distinções entre alunos com base na cor da pele.
Imagine o impacto psicológico de uma criança ouvir de uma professora, uma adulta em quem deveria confiar, que ela poderia morrer por causa de sua aparência ou origem racial. Isso não é formar cidadãos críticos.
É expor crianças a um discurso que, segundo os relatos, pode provocar medo, constrangimento e divisão.
E há uma questão que não pode ser ignorada: quantos outros professores, em diferentes escolas, podem estar confundindo liberdade de ensinar com liberdade para fazer militância partidária diante de alunos?
Não é possível afirmar que exista um número específico sem dados e investigações, mas a pergunta merece ser feita, independentemente da orientação política de quem ensina.
Se um professor de direita usasse a sala de aula para dizer que crianças seriam perseguidas caso a esquerda chegasse ao poder, também deveria ser responsabilizado. Se um professor de esquerda faz o mesmo para atacar adversários políticos, a regra precisa ser exatamente a mesma.
A ética profissional não pode mudar conforme o candidato preferido do educador.
O problema não é ser de esquerda ou de direita.
Todo cidadão tem direito às próprias convicções.
O problema começa quando a autoridade do professor é utilizada para impor essas convicções a crianças que ainda estão desenvolvendo sua capacidade de interpretar o mundo, questionar informações e formar opiniões próprias.
Também é preciso combater a seletividade.
Se exigimos apuração rigorosa quando há suspeitas de racismo, assédio eleitoral ou abuso da função docente, devemos exigir o mesmo rigor em qualquer escola, município ou espectro ideológico.
Não pode haver indignação seletiva, proteção por afinidade política nem punição motivada por perseguição ideológica.
Deve haver investigação, provas e aplicação imparcial da lei.
A escola pública pertence à sociedade, não a partidos políticos.
Os pais confiam seus filhos às instituições de ensino esperando que recebam conhecimento, orientação e proteção — não que sejam colocados no meio de disputas eleitorais ou usados como plateia para discursos de medo.
Se as acusações forem comprovadas, a responsabilização deve ser proporcional à gravidade dos fatos, respeitando o devido processo legal.
E a investigação não deve terminar em um único caso: é necessário fortalecer mecanismos de denúncia, fiscalização e proteção dos estudantes, garantindo que professores de qualquer orientação política respeitem os mesmos limites.
Educação não é doutrinação. Consciência crítica não se constrói pelo medo.
E combater o autoritarismo não pode servir de justificativa para práticas autoritárias dentro da própria sala de aula.
Quem ensina tem o dever de abrir horizontes, não de aprisionar crianças em sua própria visão de mundo.
Porque, quando a ideologia fala mais alto que a responsabilidade, a educação deixa de cumprir sua missão — e quem paga o preço são justamente aqueles que mais deveriam ser protegidos: os alunos.



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