Gilmar Ferreira
Fahur lavou o bigode com detergente, mas deveria ter lavado a boca antes de atacar a Anvisa
Fahur lavou o bigode com detergente Ypê, mas o problema maior não está no bigode. Está na boca de um deputado federal que, em vez de agir com responsabilidade pública, preferiu transformar uma decisão sanitária em espetáculo político.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária determinou o recolhimento de lotes específicos de produtos da Ypê após apontar falhas graves na produção.
A própria Anvisa orientou consumidores com produtos dos lotes afetados a suspenderem imediatamente o uso e procurarem o SAC da empresa.
A medida atingiu lotes com final 1 de lava-louças, lava-roupas líquidos e desinfetantes.
Mesmo assim, o deputado federal Sargento Fahur decidiu publicar um vídeo lavando o próprio bigode com detergente da marca. Na gravação, segundo reportagens, ele ironizou a decisão da Anvisa e afirmou: “Eu uso Ypê”.
Anvisa não pertence a partido político
Antes de transformar a Anvisa em alvo ideológico, é necessário lembrar um fato básico: a agência não nasceu no atual governo e não pertence a partido político.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária foi criada em 1999, durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por meio da Lei nº 9.782. com o objetivo de fortalecer a fiscalização de produtos e serviços de saúde após o escândalo da “pílula de farinha” em 1998. Portanto, trata-se de uma autarquia reguladora de Estado, não de governo.
Sua função institucional é fiscalizar produtos, medicamentos, alimentos, cosméticos, saneantes e outros itens que possam impactar a saúde pública.
Isso significa que a Anvisa atravessou governos do PSDB, PT, MDB, PL e outros arranjos políticos mantendo a mesma atribuição legal: proteger a população.
Além disso, suas decisões técnicas passam por servidores, fiscais, especialistas, laboratórios e processos administrativos. Ou seja, não se resumem à vontade política de um presidente da República.
Anvisa também atuou no governo Bolsonaro
Durante o governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, a Anvisa também proibiu, interditou ou mandou recolher produtos de marcas conhecidas.
A lista inclui cervejas da Backer, como a Belorizontina; chocolates Kinder, da Ferrero; sorvetes Häagen-Dazs; fórmulas infantis Similac, Alimentum e EleCare, da Abbott; além de lotes de implantes mamários da Mentor, ligados à Johnson & Johnson no Brasil.
Portanto, a atuação da agência não começou agora, não escolhe partido e não se limita a um governo.
A Anvisa fiscalizou antes, durante e depois de Bolsonaro.
Esse histórico desmonta a narrativa fácil de que toda decisão técnica contra uma empresa nasce de motivação política. A agência pode errar, pode ser questionada e deve explicar seus atos. Porém, transformar fiscalização sanitária em guerra ideológica é irresponsabilidade.
O problema não é a marca, é o deboche
Este editorial não condena uma empresa antes do fim de todos os procedimentos administrativos. Também não transforma uma decisão da Anvisa em sentença definitiva contra a Ypê.
O ponto é outro.
Quando um deputado federal ironiza uma medida sanitária, ele não atinge apenas um órgão público. Ele enfraquece a confiança da população em uma estrutura criada para proteger consumidores.
Portanto, Fahur não prestou serviço público. Ele prestou um desserviço.
Parlamentar não é influenciador de espuma
Um cidadão comum pode fazer piada ruim na internet. Um deputado federal, porém, carrega mandato, visibilidade e responsabilidade institucional.
Por isso, quando Fahur lava o bigode com detergente para debochar da Anvisa, ele passa uma mensagem perigosa: a de que alerta sanitário pode virar brincadeira ideológica.
Não pode.
A Anvisa pode ser questionada. Toda agência pública deve prestar contas. Contudo, questionar é uma coisa. Desmoralizar, ridicularizar e estimular a população a ignorar uma orientação técnica é outra bem diferente.
Antes do bigode, a boca
Fahur lavou o bigode. Mas, diante da gravidade do gesto, talvez devesse lavar a boca antes de tratar com deboche uma decisão sanitária.
Porque a boca de um parlamentar tem peso público. Ela pode informar, orientar e cobrar. Porém, também pode confundir, atacar instituições e transformar saúde pública em guerra de torcida.
Nesse caso, o deputado escolheu a lacração.
Cabe quebra de decoro?
A conduta pode gerar questionamento político e ético. Afinal, um parlamentar não deveria usar sua influência para relativizar uma orientação de segurança ao consumidor.
No entanto, afirmar de imediato que houve quebra de decoro exige cautela jurídica. A Câmara dos Deputados teria de avaliar se o gesto ultrapassou a liberdade de manifestação política e atingiu a dignidade do mandato.
Ainda assim, uma coisa parece evidente: mesmo que o caso não resulte em punição formal, o episódio revela despreparo institucional.
A espuma vai embora, o mau exemplo fica
O detergente sai com água. A irresponsabilidade pública, não.
Fahur poderia ter cobrado explicações da Anvisa. Poderia ter pedido transparência sobre os laudos. Poderia ter defendido a empresa com argumentos técnicos. Além disso, poderia ter exigido equilíbrio na comunicação pública para evitar pânico entre consumidores.
Mas ele preferiu lavar o bigode.
E, nesse gesto, mostrou que parte da política brasileira ainda confunde mandato com palco, fiscalização com provocação e saúde pública com meme.
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