OPINIÃO
Crime intimida população — e o governo faz pouco
A proximidade com a violência faz parte do dia a dia da população.
Para 41% dos brasileiros, grupos criminosos envolvidos com o tráfico de drogas ou milícias atuam no bairro onde moram, de acordo com pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Pelas projeções demográficas, isso corresponde a 68,7 milhões de cidadãos. Destes, um quarto afirma que tal presença é “muito visível”.
A situação é percebida principalmente nas capitais (56%) e regiões metropolitanas (46%). Para 35%, criminosos “influenciam muito” as decisões e regras de convivência no bairro.
Os receios mais citados são “ficar no meio de um confronto armado” (81%), “ter familiar envolvido com o tráfico” (71,1%) e “sofrer represálias e punições por denunciar crimes” (64,4%).
Nesse clima de medo, 74,9% evitam circular em determinados lugares e horários (65,2%) ou falar sobre política (59,5%).
O domínio perverso das quadrilhas fica patente quando 12,5% dizem se sentir obrigados a contratar serviços indicados pelo crime e 9,4% a comprar marcas e produtos impostos pelos bandidos.
A pesquisa espelha a dramática realidade das ruas.
Numa área de Jacarepaguá, Zona Sudoeste do Rio, traficantes do Comando Vermelho (CV) têm aterrorizado moradores depois de tomar dos milicianos o controle da região, como mostrou reportagem do GLOBO.
Eles têm achacado comerciantes com a cobrança de taxas ilegais, sempre apontando fuzis.
Sem a garantia do Estado, muitos preferem abandonar o lugar onde viveram por décadas.
A cerca de 2.500 quilômetros dali, a situação não é muito diferente.
A mesma facção criminosa tem infernizado a vida de Cabedelo, destino turístico na Paraíba, como noticiou o Fantástico.
O controle é feito a partir do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, bunker do CV.
Traficantes espalharam câmeras clandestinas, chamadas “besouros”, para monitorar a cidade à distância. Homens armados costumam percorrer as ruas disparando para o alto como forma de intimidação. Autoridades de segurança dizem que o crime organizado está infiltrado nas instituições locais.
A escalada de poder das organizações criminosas tem se tornado desafiadora.
Diante de problemas tão graves, era de esperar que o Planalto estivesse minimamente empenhado em combater essas quadrilhas. Mas as respostas de Brasília têm sido lentas e insuficientes.
É verdade que, em março, o governo sancionou a Lei Antifacção, que aumenta as penas para crimes praticados por traficantes e milicianos.
Foi um avanço, mas a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que dá ao Estado instrumentos robustos para combater esses grupos, permanece esquecida no Congresso, sem qualquer sinal, mesmo por parte da base governista, de que andará.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está prestes a anunciar um pacote de investimentos de R$ 11 bilhões na segurança, ponto frágil nas avaliações de sua gestão.
Recursos sempre são bem-vindos, mas o fato de a medida ser tomada a menos de cinco meses das eleições sugere que o governo está mais preocupado com os índices de popularidade que com os de violência.
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