Walber Guimarães Junior
Meia-verdade, também conhecidas como fake 2.0.
Nos últimos anos, as fakes news, mesmo as mais ridículas, incomodaram a cena política, deturpando fatos e, principalmente, iludindo mentes sequiosas de conteúdo que combinasse com suas convicções, como bem ensina a Teoria das Comunicações. Todavia, depois da centésima história fantasiosa sobre Jair Bolsonaro e a milésima fazenda atribuída ao filho de Lula, a redução do efeito desejado, exigiu que as milícias digitais evoluíssem e assim surgiram as meias-verdades a serviço dos políticos.
A avalanche das fakes gerou uma reação adversa, com o efeito marginal sobre a mente dos inocentes, se reduzindo substancialmente, aumentando a rejeição à estratégia simplista de substituir a verdade pela mentira, exigindo mais sofisticação para recompor a credibilidade das mensagens enviadas ao exército de leais seguidores, nos transportando a um novo momento, assim surgiu a era da desinformação 2.0, onde o maior risco à integridade democrática não provém necessariamente de notícias fabricadas integralmente em laboratórios de ficção, mas sim da manipulação sofisticada de eventos reais.
Se, nas eleições anteriores o combate se dava contra o "fato inexistente", hoje a batalha ocorre no campo semântico da interpretação e da descontextualização.
Esta evolução marca uma transição profunda: a substituição da mentira pura pela narrativa distorcida, uma ferramenta muito mais resiliente e perniciosa para o debate público e, principalmente, com mais sobrevida à análise primária, elemento único disponível para as fatias mais relevantes do eleitorado.
A mentira absoluta é, por definição, vulnerável.
Uma afirmação factual falsa pode ser refutada por evidências empíricas e pelo trabalho de agências de checagem.
No entanto, a narrativa distorcida opera em uma "zona cinzenta" de difícil monitoramento. Ela se fundamenta em um núcleo de verdade, um evento que de fato ocorreu, uma frase efetivamente dita ou um dado oficial, para, a partir daí, construir uma conclusão falaciosa.
Sem dúvida, esta técnica é muito superior ao estágio anterior, de fakes mirabolantes, por várias razões; sempre que contestada, permite que o desmentido recorra ao fato original para validar a mensagem, acusando leitura sem contrário de contaminação ideológica, além de, por conta da verossimilhança, reduzir as defesas do eleitor comum que reconhece alguns elementos verdadeiros e assume todo o conteúdo como válido.
Esta técnica, com alguma razão batizada de ‘engenharia de viés”, ensina que recortes de fala, transportadas para outro contexto, ou dados estatísticos, isolados do contexto macroeconômicos, produzem efeitos excelentes, como material de convencimento, por usar fragmentos reais, criando uma realidade paralela, facilmente entendida como verdade inquestionável.
O impacto prático dessas táticas nas eleições é a fragmentação da realidade compartilhada.
Para que uma democracia funcione, é necessário que os diferentes espectros políticos concordem, ao menos, sobre a base factual sobre a qual divergem. A descontextualização rompe esse pacto.
No processo de tomada de decisão, o eleitor é bombardeado por informações que reforçam seus preconceitos, mas que agora vêm revestidas de uma aura de "verdade documentada".
Isso aprofunda a polarização, pois as discussões deixam de ser sobre propostas e passam a ser sobre a validade de narrativas antagônicas que utilizam os mesmos fatos para chegar a conclusões opostas. A integridade do debate público é corroída, uma vez que a complexidade dos problemas nacionais é reduzida a slogans manipulados, impedindo uma escolha eleitoral baseada em diagnósticos precisos da realidade.
A mitigação desse fenômeno impõe desafios enormes.
Do ponto de vista legal, a linha que separa o combate à desinformação da censura prévia torna-se tênue quando o objeto de análise não é uma mentira flagrante, mas uma interpretação enviesada de um fato real. Legislar sobre "contexto" é uma tarefa arriscada que pode conferir ao Estado ou às plataformas de tecnologia um poder desmedido de arbítrio sobre o discurso político e isto amplifica a “credibilidade” das narrativas e otimiza seus efeitos.
Imaginar que exista solução de curto prazo para isto é mera ilusão.
Com o reduzido nível de cultura política, com a consolidação das paixões exacerbadas no coração e na mente do exército de convertidos, é inviável acreditar que se minimize o efeito disto sobre o processo eleitoral.
O único antídoto razoável é a atuação consistentes dos veículos de comunicação e dos formadores de opinião, pelo menos a parcela que ainda conserva sua independência e não estejam submetidos aos rigores editoriais, para permitir a manutenção de canais adequados onde a verdade possa fluir, protegida dos interesses das estratégias eleitorais e que se mantenham livre das amarrações dos candidatos e seus tentáculos financeiros.
Por aqui, seguimos firme nesta missão.
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