O agricultor que se vestiu de drag por amor ao filho.
Fotos: Danilo zocatelli Um homem de meia-idade com uma peruca, vestido com uma blusa azul com listras brancas e uma calça jeans.
O rosto está enfeitado com um batom e uma sombra verde e amarela pintada dos cílios inferiores até o alto da testa.
Ele segura um facão, cujo cabo é branco. Ao lado, há um veado, morto, com a barriga aberta, pendurado. Há sangue no chão.
O fundo é composto por panelas de aço, galões, mangueiras e outros objetos pendurados nas prateleiras e paredes de madeira.
A figura masculina em questão é João Cesco Filho, um agricultor de Marialva, na região metropolitana de Maringá, no Paraná, e pai do artista visual e fotógrafo paranaense Danilo Zocatelli.
Essa foi a primeira imagem que foi construída no imaginário do fotógrafo para o projeto que se tornaria uma exposição de arte Querido Pai, que já passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Ouro Preto (MG), Tirandentes (MG), além de outros países.
O ensaio, assim que publicado nas redes sociais, no começo de setembro, chamou a atenção do público brasileiro e internacional.
As obras continuam ecoando na vida das pessoas e o motivo, para o autor, é a identificação com o tema.
Há 15 anos Danilo mora no Reino Unido, onde começou trabalhando como chef de cozinha, profissão da primeira graduação, e conquistou até a oportunidade de cozinhar para a rainha Elizabeth II.
Foi nos encontros de vida que um amigo sugeriu, em 2018, que ele cursasse fotografia. Dois anos se passaram e o artista entrou, a convite de uma professora, na University of East London para estudar a arte. Estudou, aprimorou, criou e concluiu o curso.
O próximo passo foi o mestrado em fotografia no Royal College of Art, que o levou a refletir sobre o tema do projeto de conclusão.
Os pensamentos voltaram a Marialva, ao interior e à família, especificamente ao pai.
Na casa, há um dialeto único, que só quem é íntimo sabe. Entre as palavras, uma delas ficou marcada na memória do artista: "golo", usada para se referir a "veado". Era também um termo associado a ele, que relata sempre ter sido o "veado da família".
A lembrança da família, porém, não era apenas feita de palavras. Havia os rituais de família grande, de origem italiana, como os domingos de futebol.
Nessa rotina, tinha a relação de pai e filho que era "boa, mas sempre podada", como define Danilo. Não tinha conversa sobre sentimentos, e havia as diferenças entre eles: um homem rústico e um artista queer. Foi nesse território de lembranças que começou a surgir a ideia de Querido Pai.
O pai como personagem
No processo de criação do projeto, as lembranças da infância passaram a ser revisitadas sob outra perspectiva. A imagem do pai trabalhando no campo se tornou base para a exposição de fotografia. Inicialmente, Danilo imaginou reunir os homens da família e montá-los de drag durante um churrasco de domingo.
A ideia, no entanto, foi mudando. "Não acho que é sobre os meus tios. É sobre o meu pai", contou em entrevista à Revista do Correio.
O objetivo não era transformar o patriarca em outra pessoa: era colocá-lo dentro de uma linguagem que Danilo conhecia intimamente e, ao mesmo tempo, voltar a lugares e memórias nos quais havia se sentido deslocado. Durante anos em que viveu longe de casa, o retorno para casa também significava uma espécie de preparação. Para estar novamente naquele ambiente, o artista dizia precisar controlar a própria aparência e os próprios gestos.
"Todas as vezes que eu voltava para o Brasil, eu começava a me desmontar. Eu tirava os meus brincos, eu vinha sem unha feita, o meu cabelo estava sempre amarrado. Então, quando eu monto o meu pai de drag, naquele espaço, onde eu sempre performei uma masculinidade, eu consigo ser normalizado", disse.
Projeto idealizado, chegou o desafio: o convite ao pai.
Danilo sabia que o pedido significa abrir uma conversa que eles não estavam acostumados a ter. Então, surgiu com o plano de destacar as principais conquistas profissionais e explicar a importância da arte na sua vida.
Disse ao homem rústico que o projeto poderia mudar sua carreira, mas que não conseguiria realizá-lo sem ele.
Do outro lado da linha, João ficou em silêncio por cerca de 15 segundos e, então, respondeu: "Desde que você trouxer uma peruca bonita para mim e uma para sua mãe, eu faço."
Foi um "sim" um tanto quanto diferente, o que levou um Danilo surpreso a retornar para o pai, diversas vezes, para confirmar se ele realmente não havia mudado de ideia.
Cerca de um mês e meio depois, viajou ao Brasil para realizar as fotografias.
O que aconteceu diante da câmera, no entanto, seria diferente de simplesmente vestir o pai com uma peruca e uma maquiagem. A arte transformou a maneira como pai e filho ocupavam aquele espaço.
Danilo voltou às memórias e tentou reconstruí-las a partir de uma nova perspectiva. Se, durante anos, ele precisou se adaptar à masculinidade esperada naquele ambiente, agora era o pai quem entrava em cena usando elementos associados à feminilidade. E, depois do projeto, alguma coisa havia mudado. "Eu hoje não me desmonto mais para voltar para casa."
Carta para João
Ao voltar para o Reino Unido, Danilo escreveu, em fluxo de pensamento, uma carta para João. No começo, o texto era privado. Era uma maneira de organizar o que havia vivido e compreender o que aquelas imagens significavam para ele.
O texto, porém, acabou se tornando parte importante de Querido Pai.
A memória, na carta, não aparece como uma sequência organizada de grandes acontecimentos.
Ela se constrói por detalhes: uma palavra, uma manhã, uma cerveja, um programa de televisão interrompido, um campo de futebol, uma paçoca.
O texto também preparou Danilo para um dos momentos mais importantes do projeto: ver João diante das próprias fotografias.
Quando o pai esteve na galeria, em Tiradentes (MG), durante o Festival Foto em Pauta, em março, o artista quis que ele ocupasse aquele espaço de maneira diferente da imagem que costumava ter de si mesmo. Ofereceu cerveja, a bebida preferida do pai, e o apresentou como a "estrela da noite".
Havia algo simbólico em ver aquele homem simples, agricultor de Marialva, ocupando um espaço artístico e sendo observado pelas pessoas a partir de uma imagem que, até pouco tempo antes, talvez parecesse impossível. "Foi um sentimento que eu nem sei explicar. É um sentimento de ápice de orgulho", relatou o fotógrafo.
Quando a imagem encontra o público
No começo de setembro, assim que as imagens foram publicadas na internet, Querido Pai dominou as redes sociais e a repercussão surpreendeu Danilo. As fotos, tão únicas e com uma história tão particular, ressoaram de diversas maneiras com pessoas de diferentes lugares do mundo.
O público consegue se reconhecer nas fotografias por conta das camadas da arte: a dificuldade de conversar com os pais, as expectativas sobre masculinidade, a necessidade de esconder partes de si e a busca por pertencimento.
As imagens coloca lado a lado universos que costumam ser apresentados como opostos: o campo e a performance; a masculinidade e a feminilidade; a tradição e a identidade queer; e o pai e o filho.
O que a arte pode reconstruir
Crescer em um ambiente conservador pode significar aprender, desde cedo, a medir os próprios gestos para garantir um lugar na família. Em comunidades rurais, onde as relações entre parentes, vizinhos, colegas de trabalho e membros da comunidade religiosa frequentemente se sobrepõem, o olhar alheio pode adquirir um peso particular.
Para o psicólogo e sexólogo Roberto Kaiser, a proximidade social, somada a expectativas rígidas sobre o que significa ser homem ou mulher, pode fazer com que a diferença pareça perigosa ou solitária para crianças e jovens LGBTQIAPN+. “Sem referências acolhedoras, a tendência natural é tentar se encaixar a todo custo, escondendo o que se sente e adiando a descoberta da sua verdade para quando encontrar um ambiente mais seguro”, explica Roberto.
A psicóloga Karoline Miranda acrescenta que, nesses contextos, a individualidade pode ser percebida como uma ameaça ao pertencimento familiar. A adaptação passa a ocupar o lugar do desenvolvimento espontâneo, enquanto o medo do julgamento interfere na maneira como a pessoa se apresenta ao mundo.
No caso de Danilo Zocatelli, essa vigilância se manifestava concretamente quando voltava para casa. Tirava os brincos, prendia o cabelo e deixava de fazer as unhas. A relação com o pai não era desprovida de afeto, mas havia uma distância que tornava difícil expressar sentimentos e diferenças. Para retornar ao ambiente familiar, o artista sentia que precisava esconder partes de si.
O esforço de controlar a própria aparência, a voz e os gestos pode ultrapassar os momentos em que existe uma ameaça explícita. Roberto acredita que a pessoa aprende a antecipar o julgamento e passa a fiscalizar o próprio comportamento, gastando energia para evitar qualquer sinal que possa ser interpretado como inadequado.
Na vida adulta, essa vigilância pode reaparecer diante de figuras de autoridade, no trabalho ou, como acontecia com Danilo, na casa dos pais. A liberdade conquistada em outros espaços não elimina imediatamente o hábito de se proteger.
Karoline descreve esse mecanismo como uma separação entre a experiência interna e aquilo que a pessoa demonstra para continuar sendo aceita.
“O corpo passa a ser habitado como um território vigiado”, afirma.
O medo da rejeição também pode interferir na maneira como alguém busca reconhecimento.
Roberto chama a atenção para o chamado perfeccionismo compensatório: a tentativa de compensar a sensação de inadequação por meio de conquistas, desempenho profissional ou disponibilidade constante para os outros.
A pessoa procura ser impecável em outras áreas da vida, como se o sucesso pudesse tornar sua identidade mais aceitável aos olhos da família.
O preço pode ser a exaustão e a dificuldade de construir relações em que não seja necessário esconder a própria vulnerabilidade.
O papel da família
A família ocupa um lugar importante nesse processo por ser uma das primeiras referências a partir das quais se constrói o sentimento de valor pessoal. Quando existe acolhimento, o vínculo oferece segurança para enfrentar as adversidades externas. Quando o afeto parece condicionado à adequação a determinadas expectativas, porém, a pessoa pode passar a acreditar que precisa negociar o direito de pertencer.
É nesse contexto que Querido Pai ganha outra dimensão. 
Ao transformar a própria história em um projeto artístico, Danilo deixa de apenas revisitar as experiências que o marcaram e passa a criar uma situação em que pode se apresentar diante do pai de outra maneira. A fotografia não serve somente para registrar João usando maquiagem e peruca: ela coloca os dois em contato com memórias compartilhadas, em espaços que fazem parte da história familiar.
Para Roberto, a arte permite reorganizar lembranças e atribuir novos sentidos a experiências dolorosas. Ao assumir a autoria de uma narrativa sobre o próprio passado, a pessoa deixa de ser definida exclusivamente pelo que viveu e encontra outras maneiras de se relacionar com essas experiências.
No caso de Danilo, a estética drag introduz elementos de brincadeira, vulnerabilidade e afeto em cenários que também carregam as marcas de uma masculinidade tradicional.
Karoline vê nesse processo uma possibilidade de comunicação para experiências que nem sempre encontram espaço nas conversas cotidianas. Ao aceitar participar das fotografias, João deixa de ocupar apenas o lugar de observador do universo do filho e passa a vivenciar uma experiência compartilhada. “A arte permite externalizar o invisível, flexibilizar papéis rígidos e reconfigurar a memória familiar”, afirma.
Reconstruir uma relação exige que ambos encontrem maneiras de rever as expectativas que os afastaram.
Roberto Kaiser ressalta que os pais precisam abandonar a imagem idealizada do filho para enxergar a pessoa real diante deles. Aos filhos, cabe estabelecer limites que os protejam de novas violências, sem que isso impeça, quando houver condições, a construção de outras formas de convivência.
Esse movimento exige que o filho consiga olhar para o pai para além das próprias dores, sem negá-las, e que o pai se disponha a escutar sem se defender continuamente das experiências relatadas. “Costumo dizer que é preciso coragem para agir pelo coração”, resume a psicóloga.
Compartilhando gestos
Durante a preparação para a exposição em São Paulo, Danilo se maquiava e experimentava roupas na sala de casa, enquanto o pai e os demais familiares participavam das escolhas. João passou a reproduzir movimentos que o filho reconhecia em si mesmo, como afastar o cabelo do rosto ou soprar a franja que caía sobre os olhos. "São coisas tão pequenas e banais, mas que tanto mudaram ele quanto me mudaram”, conta o artista.
Os gestos também apontam para uma transformação na ideia de masculinidade.
Para Roberto, os modelos tradicionais frequentemente associam o masculino à repressão das emoções, à negação do feminino e ao distanciamento afetivo entre homens.
Quando João aceita experimentar a estética drag, abre-se espaço para outras possibilidades de expressão sem que ele precise deixar de ser pai ou abandonar a própria história.
A mudança não está apenas na imagem construída para a câmera, mas na possibilidade de compartilhar uma experiência antes distante.
Karoline observa que as relações familiares podem ser ressignificadas quando há abertura para reconhecer diferenças, rever papéis e construir novas formas de afeto. Isso não significa que toda história de distanciamento chegará à reconciliação, mas que os vínculos não precisam permanecer presos às mesmas expectativas.
Querido Pai não oferece uma fórmula de aceitação nem sugere que a arte, sozinha, seja capaz de resolver conflitos familiares. Entre o campo e a galeria, entre o facão e a maquiagem, as imagens preservam as marcas do passado sem fazer delas o único destino possível para a relação. João continua sendo o pai que Danilo conheceu, mas passa a ocupar também um lugar novo na história do filho, o de alguém que aceitou participar de um encontro capaz de transformar a maneira como ambos se enxergavam.
Depois de fotografar o pai, escrever para ele e vê-lo diante das próprias imagens, Danilo encontrou palavras para descrever o que havia mudado: “Eu hoje não me desmonto mais para voltar para casa”.
A frase não significa que o desejo de ser amado tenha desaparecido, mas que o retorno já não exige o mesmo esforço de esconder quem ele é.
Na carta que acompanha o projeto, o artista escreve: “Encontramos a nossa paz”.
Para Danilo, voltar para casa passou a significar também poder permanecer inteiro.
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