Walber Guimarães Junior
O Brasil vai viver uma Black Monday?
Compreendo que uma grande parcela dos brasileiros está preocupada com o resultado das eleições de domingo; alguns — grupo no qual me incluo — voltam suas atenções para o 'day after'.
Corremos o risco de uma segunda-feira negra, com o excesso de euforia dos vencedores e a depressão dos derrotados, emoções que pulsarão nas ruas.
Registro que as oscilações preocupantes se estendem à Bolsa e ao dólar.
O que realmente preocupa é o baixo nível do debate: um festival de radicalismos, agressões e promessas irreais, com quase nenhuma consistência programática."
Em síntese, podemos afirmar que a mensagem mais presente em ambas as campanhas pode ser resumida nisto; “Você será muito feliz porque eu serei seu presidente”.
Parece ridículo? Também acho, e realmente é.
Bem piores foram as contradições nos discursos de ambos os candidatos.
Com a imparcialidade necessária, descrevo os pontos críticos de cada competidor, com o devido cuidado para preservar a imparcialidade;
Flávio Bolsonaro;
- O candidato baseia sua crítica ao governo Lula no "descontrole de gastos", prometendo um ajuste fiscal de até R$ 250 bilhões. No entanto, contradiz essa postura ao propor a manutenção e expansão de programas sociais e a criação do Smart Brasil (sistema nacional de monitoramento), sem detalhar a origem dos recursos ou quais cortes permitiriam compensar esses novos custos.com foco no respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal.
- A sinalização de apoio ao fim da escala 6x1, visando o voto popular, cria um curto-circuito com a base empresarial e contradiz o discurso de desoneração e 'menos Estado'.
- Difícil também acreditar na sua promessa de SUS "Padrão Einstein", completamente irrealista no curto prazo, dada a escala do Brasil e o subfinanciamento crônico do setor, assim como a implementação do Smart Brasil, sistema nacional de monitoramento integrado por IA, que exige um investimento tecnológico e de infraestrutura de rede que colide com a promessa de corte bilionário nos serviços públicos.
A avaliação da inconsistência destas promessas se sustenta pela matemática orçamentária.
Não há equação possível para conjugar ajuste fiscal recessivo de R$ 250 bilhões e, simultaneamente, financiar uma modernização tecnológica de alto custo na segurança e na saúde.
Analistas apontam que tal plano exigiria uma reforma administrativa profunda que dificilmente teria apoio célere no Congresso.
Lula;
- Historicamente contrário a medidas punitivistas, Lula passou a defender a redução da maioridade penal e o endurecimento de penas na reta final da campanha de 2026.
Essa mudança é vista como um "cavalo de pau", apontando para um possível estelionato ideológico para atrair o eleitorado conservador, contradizendo décadas de programa partidário do PT.
- Enquanto o governo tenta sinalizar compromisso com metas fiscais para 2027, o candidato anuncia pacotes de benefícios e subsídios, como o incentivo à "Tarifa Zero" em transportes e mitigações de preços de energia, que geram desconfiança no mercado sobre a sustentabilidade da dívida pública porque, na prática é um pesadelo jurídico.
- Também é muito complexo e improvável, a reindustrialização verde acelerada, embora central no discurso, enfrenta o limite de teto de gastos e a baixa capacidade de investimento direto do Estado.
Impossível desconhecer o cenário de deterioração das contas públicas em 2026 que torna qualquer nova despesa permanente um risco de "estelionato eleitoral".
A implementação dessas promessas depende de um improvável crescimento econômico acima da média histórica ou de uma reforma tributária que gere receitas imediatas, o que é improvável no primeiro ano de mandato.
Ainda que a campanha remeta ao personagem de desenho animado “Meu Malvado Favorito”, é mais apropriado apontar para a inspiração na 'Corrida Maluca': competidores se agredindo e usando 'armações' para impedir o adversário de chegar, tudo sob um exercício orçamentário fictício."
• Flávio Bolsonaro tenta equilibrar um discurso de austeridade radical com promessas de modernização tecnológica que o orçamento atual não comporta.
• Lula tenta equilibrar a manutenção de políticas sociais amplas com uma guinada conservadora em temas de costumes e segurança para reduzir sua rejeição.
Em comum, ambos os candidatos desfilam promessas sem a menor preocupação em detalhar a origem dos recursos para suas propostas mais ambiciosas.
Do ponto de vista analítico, o vencedor de 2026 enfrentará um dilema imediato: ou abandona as promessas de campanha para manter a estabilidade econômica, ou arrisca uma crise fiscal severa ao tentar implementá-las sem lastro financeiro.
Em qualquer circunstância, um deles vence e o Brasil perde e se submete a possibilidade uma “Black Monday” real; o momento em que o mercado percebe que as promessas serão cumpridas (crise fiscal) ou que o povo percebe que foi enganado (crise política).
Repetindo edições anteriores, esta eleição é “mais do mesmo”; estamos de novo escolhendo o “menos ruim”.
É possível que na próxima edição as urnas não apontem para a repetição dos nomes Lula e Bolsonaro, mas fica difícil acreditar que o dilema seja outro.
Ainda que seja razoável esperar que direita e esquerda estejam melhor representados em 2030, a sociedade precisa entender que precisamos de novas regras.
Com reeleição, narrativas, promessas irresponsáveis e inviáveis, com legendas com foco nos seus cofres e ignorando solenemente as prioridades nacionais, nada inspira um futuro mais promissor.
Estejam certos de que para “eles”, a elite política dividida em cada polo, está muito bom assim. Mudanças só ocorrerão por força da pressão popular.
Talvez esta missão seja muito mais razoável do que se digladiar nas ruas por candidatos que estão muito aquém do projeto de Brasil que merecemos.
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