Especialista questiona moda de levantar às 5h.
Sacrificar o sono para começar o dia mais cedo pode ter efeito contrário
Imagens: FreePik Acordar às 5 horas da manhã tornou-se símbolo de disciplina e produtividade em livros de autoajuda e publicações nas redes sociais. Para o psicólogo espanhol Alfredo Rodríguez-Muñoz, no entanto, adotar esse horário sacrificando horas de sono pode produzir o efeito contrário ao desejado
Professor de Psicologia da Universidade Complutense de Madri e especialista em sono e bem-estar no trabalho, Rodríguez-Muñoz questionou a chamada “cultura das 5 da manhã” em entrevista publicada pelo jornal espanhol La Vanguardia.
Autor do livro Dormir para viver: a ciência do descanso na era do cansaço, ele considera que a tendência está ligada à ideia de começar a produzir antes das outras pessoas e, com isso, obter uma sensação maior de controle sobre o dia.
Para explicar o problema, o psicólogo compara a redução do descanso à atitude de “vender o carro para comprar gasolina”: a pessoa ganha algumas horas acordada, mas compromete justamente o organismo de que depende para trabalhar bem.
Não é o horário isoladamente
Levantar às 5h não é necessariamente prejudicial para quem dorme cedo, acorda descansado e mantém uma quantidade adequada de sono. O risco está em antecipar o despertador sem antecipar também o horário de dormir. A prática pode reduzir o descanso e criar um desalinhamento entre os compromissos diários e o chamado cronotipo, que representa a tendência individual de funcionar melhor em horários mais matutinos, intermediários ou noturnos.
Há pessoas que naturalmente sentem sono e despertam mais cedo. Outras alcançam maior disposição e concentração algumas horas depois. Portanto, um mesmo horário não funciona da mesma maneira para todos.
EM RESUMO
• Acordar às 5h não é prejudicial por si só
• O problema é cortar horas de descanso para seguir a rotina
• Cada pessoa possui um ritmo biológico diferente
• Dormir mais no fim de semana não compensa totalmente uma privação crônica
O que piora com a falta de sono
A restrição de sono afeta funções relacionadas à atenção, memória, controle de impulsos e tomada de decisões. Um cérebro cansado pode ter mais dificuldade para interpretar informações, avaliar consequências e adaptar escolhas diante de novos resultados.
A regulação emocional também pode ser prejudicada.
Estudos associam a privação de sono ao aumento da reatividade emocional, à irritabilidade e à redução da capacidade de controlar determinadas respostas.
Os efeitos podem alcançar ainda as relações sociais. Pessoas privadas de sono podem apresentar maior dificuldade para reconhecer emoções, interpretar sinais sociais e demonstrar interesse por interações com outras pessoas.
Fim de semana não resolve tudo
Dormir algumas horas a mais no sábado ou no domingo pode reduzir temporariamente o cansaço, mas não deve ser tratado como uma compensação completa para noites mal dormidas durante toda a semana.
Pesquisas indicam que o sono de recuperação pode trazer benefícios parciais para o humor e a disposição, mas não reverte necessariamente todos os efeitos metabólicos, cognitivos e comportamentais provocados pela privação crônica.
Por isso, a regularidade tende a ser mais importante do que alternar vários dias de pouco sono com períodos prolongados na cama.
Como organizar melhor o descanso
Em vez de estabelecer um horário universal para despertar, a recomendação é reservar tempo suficiente para dormir e manter uma rotina relativamente estável.
Para a maioria dos adultos, as orientações de saúde indicam pelo menos sete horas de sono por noite, embora a necessidade possa variar entre as pessoas. Também é recomendado manter horários consistentes, diminuir a exposição à luz intensa durante a noite e evitar aparelhos eletrônicos perto do momento de dormir.
Entre as medidas práticas estão:
• Dormir e acordar em horários semelhantes
• Reduzir gradualmente a iluminação à noite
• Interromper o uso de telas antes de ir para a cama
• Evitar estender trabalho e mensagens profissionais pela madrugada
• Planejar o horário de despertar a partir do descanso necessário
Na avaliação de Rodríguez-Muñoz, dormir deve ocupar o mesmo nível de importância da alimentação equilibrada e da atividade física. O sono não representa uma interrupção improdutiva do dia, mas uma condição necessária para o funcionamento do corpo, do cérebro e das emoções.
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