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Maringá,29/07/2026

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3 rotinas das quais pessoas mais velhas podem não precisar

Especialistas defendem que decisões sobre exames e tratamentos na terceira idade devem considerar a expectativa de vida, os riscos e os benefícios para cada paciente

Por Paula Span, Em The New York Times
3 rotinas das quais pessoas mais velhas podem não precisar Foto: Dóra Kisteleki/The New York Times

Já havia se passado tempo suficiente desde a última colonoscopia da paciente para que ela atendesse aos critérios para realizar um novo exame, explicou o gastroenterologista Steven Itzkowitz, da Escola de Medicina Icahn, do Hospital Mount Sinai, em Nova York.
Ela estava em "razoavelmente boa saúde", e os riscos do procedimento — sangramento, reação à anestesia e perfuração do cólon — eram relativamente baixos.
Mas havia um fator importante: ela tinha 85 anos.
Além disso, precisaria interromper temporariamente o uso dos anticoagulantes que tomava por causa dos stents cardíacos responsáveis por manter suas artérias desobstruídas.
Essa suspensão também aumentaria os riscos.
Se essa decisão tivesse sido tomada cinco anos antes, Itzkowitz provavelmente teria agendado a colonoscopia "sem pensar duas vezes".
Hoje, porém, estudos recentes voltaram a mostrar que os benefícios de repetir o exame após os 75 anos são bastante limitados.
Agora, segundo ele, a pergunta passou a ser outra:
— O que realmente estamos ganhando com isso?
E ele não é o único médico — nem o único paciente — a reconsiderar esse tipo de decisão.
Quando o benefício deixa de compensar
À medida que a idade avança, a relação entre riscos e benefícios de exames, procedimentos e medicamentos muda.
Cada vez mais pesquisas mostram que algumas intervenções rotineiras podem deixar de ser necessárias em pessoas mais velhas.
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a questionar, por exemplo:
a necessidade de remover determinadas lesões comuns da pele;
o uso contínuo de um medicamento amplamente prescrito para tratar a tireoide;
e a realização de colonoscopias de rotina em idosos, já que a redução do risco de morte por câncer colorretal pode ser tão pequena que não compensa os riscos do procedimento.
Lesões na pele: feias, mas provavelmente inofensivas
As manchas avermelhadas ou ásperas que costumam aparecer na pele recebem o nome de queratoses actínicas. Elas surgem como consequência da exposição prolongada ao sol e são mais frequentes no rosto, couro cabeludo, antebraços e dorso das mãos.
Essas lesões são muito comuns em pessoas idosas.
Um grande estudo realizado com beneficiários do sistema Medicare, nos Estados Unidos, mostrou que quase 30% dos participantes receberam esse diagnóstico ao longo de cinco anos.
A dúvida, então, é: o que fazer depois?
Segundo a dermatologista Allison Billi, da Universidade de Michigan, na maioria das vezes essas lesões acabam sendo removidas.
O tratamento costuma incluir crioterapia (congelamento com nitrogênio líquido), cremes tópicos ou terapia a laser.
O motivo é a preocupação de que elas possam evoluir para um câncer de pele.
No entanto, essa possibilidade é muito menor do que muita gente imagina.
Segundo uma metanálise publicada em 2013, em pacientes sem histórico de câncer de pele, a chance de uma queratose actínica evoluir para um tumor é inferior a uma em mil.
Além disso, essas lesões têm muito mais probabilidade de desaparecer espontaneamente do que de se tornarem malignas.
Segundo Allison Billi, o tratamento pode ser mais incômodo do que a própria condição.
— A remoção costuma ser extremamente dolorosa, tanto durante quanto depois do procedimento.
Além da dor, ela explica que o tratamento pode provocar inchaço, irritação e alterações permanentes na coloração da pele.
Outro ponto é que retirar uma lesão não impede o surgimento de outras.
— Trata-se de uma condição crônica.
Por isso, a dermatologista defende uma estratégia de acompanhamento ativo, em vez da remoção imediata.
Nesse modelo, médicos da atenção primária poderiam examinar essas lesões anualmente para verificar sinais de alerta, como sangramento, dor ou crescimento acelerado — situações em que a retirada realmente seria indicada.
— Em muitos casos, isso não é necessário. Nem sempre precisamos fazer tudo o que somos capazes de fazer.
Ainda assim, ela faz uma recomendação importante: usar protetor solar regularmente.
Tratamento para a tireoide pode não ser necessário para todos
A levotiroxina é um dos medicamentos mais prescritos no mundo. Ela é indicada para pessoas cuja glândula tireoide não produz quantidade suficiente de hormônio tireoidiano.
Nessa condição, conhecida como hipotireoidismo, os sintomas costumam incluir ganho de peso, falta de energia, pele e cabelos ressecados.
— Tudo no organismo fica mais lento — explica Jacobijn Gussekloo, médica de atenção primária e pesquisadora do Centro Médico da Universidade de Leiden, na Holanda.
Nos últimos anos, porém, médicos também passaram a prescrever levotiroxina para um quadro mais leve, chamado hipotireoidismo subclínico.
Essa condição geralmente não provoca sintomas, embora possa evoluir para um hipotireoidismo verdadeiro.
Na maioria dos casos, quem inicia o tratamento continua tomando o medicamento pelo resto da vida. Mas será que isso é realmente necessário?
Pesquisas conduzidas pela equipe de Gussekloo indicam que, em muitos idosos com hipotireoidismo subclínico, os níveis hormonais voltam ao normal espontaneamente.
Os pesquisadores também observaram que, nesse grupo de pacientes, a levotiroxina não melhorou os sintomas nem trouxe benefícios clínicos aparentes.
Como qualquer medicamento, ela também apresenta riscos. Pode interagir com outros remédios frequentemente usados por idosos e exige acompanhamento constante.
— O tratamento requer exames laboratoriais frequentes, consultas de acompanhamento, mais visitas ao médico e maiores custos — afirma Maria Papaleontiou, endocrinologista da Universidade de Michigan e autora de um editorial publicado na revista JAMA que acompanhou o estudo holandês.
Ela acrescenta que doses elevadas podem provocar hipertireoidismo, aumentando o risco de arritmias cardíacas e perda de massa óssea.
Além disso, quem utiliza o medicamento precisa adaptar a alimentação e os horários das refeições para garantir a absorção adequada da levotiroxina.
Para descobrir se alguns pacientes poderiam interromper o uso da levotiroxina com segurança, os pesquisadores holandeses desenvolveram um protocolo de redução gradual da dose ao longo de 30 semanas, acompanhado por exames laboratoriais periódicos e consultas médicas.
Ao final de um ano, um quarto dos 370 participantes, todos com mais de 60 anos, havia conseguido suspender o medicamento mantendo a função da tireoide dentro dos níveis considerados saudáveis. A maioria deles já utilizava doses mais baixas antes do início do estudo.
Maria Papaleontiou faz um alerta: os pacientes não devem interromper o tratamento por conta própria.
A suspensão da levotiroxina precisa ser feita de forma gradual, com redução progressiva da dose e monitoramento médico e laboratorial.
Além disso, alguns pacientes continuarão precisando do medicamento pelo resto da vida.
Ainda assim, segundo a endocrinologista, as evidências indicam que um grupo selecionado de adultos com mais de 60 anos talvez não precise fazer esse tratamento por toda a vida.
Colonoscopia: um exame que também envolve riscos
A discussão sobre quando os idosos podem interromper o rastreamento do câncer colorretal já dura anos.
Nos Estados Unidos, o influente Grupo de Trabalho de Serviços Preventivos (USPSTF) atribui ao rastreamento após os 76 anos uma recomendação de grau C, classificando o benefício como pequeno.
Apesar disso, um estudo publicado em 2023 mostrou que quase 60% dos idosos que já haviam realizado colonoscopias anteriormente e tinham expectativa de vida limitada — inferior a cinco anos — ainda eram orientados a repetir o exame.
O gastroenterologista Samir Gupta, da Universidade da Califórnia, em San Diego, afirma que enfrenta essa situação com frequência na prática clínica.
— Sei que esses pacientes têm um risco muito baixo de desenvolver câncer colorretal e, ainda assim, estou expondo-os a riscos adicionais.
Esses riscos aumentam com a idade. Um estudo recente mostrou que quase 7% dos pacientes com mais de 75 anos precisaram de internação hospitalar ou atendimento em um pronto-socorro no período de até um mês após a colonoscopia. Diante disso, surge a pergunta: vale a pena?
Gupta liderou um estudo envolvendo quase 92 mil pacientes do sistema de saúde para veteranos dos Estados Unidos, todos com mais de 75 anos e que já haviam realizado colonoscopias anteriormente.
Em cerca de 28% deles, exames anteriores haviam identificado um adenoma, um tipo de pólipo que pode evoluir para câncer.
 Embora apenas uma pequena parcela desses pólipos se torne maligna, os gastroenterologistas costumam removê-los preventivamente.
Os pesquisadores descobriram que, após dez anos de acompanhamento, os veteranos que já haviam apresentado um adenoma em colonoscopias anteriores tinham uma probabilidade um pouco maior de desenvolver câncer colorretal do que aqueles que nunca haviam tido esse tipo de pólipo.
Ainda assim, a incidência da doença foi extremamente baixa nos dois grupos.
Mais importante ainda foi o resultado relacionado à mortalidade. Apenas 0,5% — ou seja, meio por cento — dos pacientes que já haviam apresentado um adenoma morreram em decorrência de câncer colorretal. Entre aqueles que nunca tiveram o pólipo, a taxa foi de 0,4%.
— É uma diferença muito pequena — afirma Samir Gupta.
Enquanto isso, quase metade dos participantes morreram, ao longo da década de acompanhamento, por outras causas.
Para Steven Itzkowitz, autor de um editorial publicado juntamente com o estudo, esses números ajudam a colocar os riscos e benefícios da colonoscopia em perspectiva.
— Mesmo quando o procedimento ocorre sem complicações, o mais provável é que você não encontre nada ou encontre algo que não terá impacto real sobre sua expectativa de vida.
Apesar disso, ele observa que muitos pacientes que já retiraram pólipos desejam continuar realizando colonoscopias regularmente.
Mudar práticas médicas consolidadas nem sempre é simples.
Tentativas de reduzir ou interromper medicamentos considerados desnecessários frequentemente enfrentam resistência tanto de pacientes quanto de profissionais de saúde.
Da mesma forma, muitas mulheres idosas continuam fazendo mamografias mesmo depois da idade em que os benefícios do exame deixam de ser comprovados, e muitos homens seguem realizando exames para rastreamento do câncer de próstata além da faixa etária recomendada.
No caso da colonoscopia, porém, o procedimento costuma ser desconfortável, o que pode fazer com que muitos idosos aceitem deixar de realizá-lo.
— Mesmo em pessoas que já tiveram pólipos, a probabilidade de morrer por câncer colorretal é muito pequena quando comparada às inúmeras outras causas que podem levar ao óbito nessa fase da vida — afirma Itzkowitz.
Foi exatamente isso que ele explicou à sua paciente de 85 anos. Disse que ela poderia abrir mão de uma nova colonoscopia.
Ela pareceu satisfeita com a decisão.




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