OPINIÃO & OPINIÃO

A síndrome de Peter Pan

Reprodução/IA
A síndrome de Peter Pan

Assisti ao debate presidencial na noite de ontem com aquela melancolia típica de quem já viu muita água passar por debaixo da ponte. Mas o que se viu ali, encarnado na figura de Flavio Bolzonaro, ultrapassou a fronteira da divergência política para tocar no terreno puro da falta de berço, da mais autêntica molecagem malcriada.

À frente dele estava um senhor de 80 anos.
Uma autoridade que carrega nos ombros o peso e a dignidade da presidência do Brasil, chancelado pelo voto de 59,5 milhões de pais de família, jovens e avós que acreditaram em um projeto de país. Diante da história e da idade, o mínimo que se espera de um homem é o respeito, aquela reverência quase instintiva que aprendemos na infância.

Mas Flavio operou na frequência do garoto mimado.
Enquanto o velho presidente falava, o rapaz, que parece ter mal saído das fraldas do ponto de vista da maturidade, recorria ao mais baixo nível do repertório infantojuvenil: o sarcasmo barato, a mentira deslavada e a simulação jocosa. Fazer caras e bocas pelas costas de quem fala é o expediente clássico do garoto que atira a pedra e esconde a mão no pátio da escola. Uma pirraça que esconde, no fundo, uma profunda fragilidade psicológica.

A psicologia explica esse tipo de fenômeno.
O sujeito que não consegue sustentar o argumento na arena das ideias regride ao comportamento pueril para tentar desestabilizar o outro.
É o mecanismo de defesa do menino que, ao se deparar com a própria impotência e o vazio de suas propostas, tenta humilhar o adulto para se sentir grande. Fugiu das perguntas importantes, preferindo o eco de um discurso fácil, raso e performático.

Olhando para a tela, confesso que me veio um sentimento antigo, compartilhado com certeza por milhões de brasileiros que assistiam àquela cena lamentável. Uma vontade muito nítida de tirá-lo dali pelo braço, colocá-lo de castigo e aplicar-lhe umas boas palmadas pedagógicas, do jeito que nossos avós faziam quando a insolência passava dos limites.
Faltou-lhe, na vida, o limite que educa.

Quem conhece a sua trajetória sabe que as promessas ali despejadas não têm lastro.
É um personagem moldado pela cartilha da extrema direita, cujos interesses parecem flertar mais com os acenos a Donald Trump e com as sombras de ligações obscuras do que com o destino do povo trabalhador.

Fica o questionamento amargo: é esse o líder que parte do Brasil deseja?
Um menino malcriado, incapaz de respeitar os cabelos brancos e a liturgia do cargo que aspira ocupar?
O Brasil é um país grande demais para ser governado por quem ainda precisa aprender a se comportar à mesa.


Dirceu Herrero Gomes



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