Walber Guimarães Junior
No futebol, Noruega ganhou por 2 a 1, mas fora de campo, o resultado é uma goleada viking.
A Noruega nos fez sofrer com mais uma eliminação precoce na Copa do Mundo e, ingenuamente, na mente do brasileiro comum, persiste a ideia única de um país viking, exótico e que jamais poderia derrotar o gigante Brasil pentacampeão. Talvez seja um ótimo momento de entender onde eles realmente nos vencem de goleada.
Qualquer comparação, precisa respeitar alguns parâmetros que expressam realidades muito diferentes.
A Noruega é um pequeno país, com 5,5 milhões de habitantes, rico e homogêneo, com sólidas instituições, com mais de USD 100 mil, um dos maiores do mundo, governado por uma monarquia constitucional parlamentarista, caracterizada por capitalismo de mercado com um forte Estado de Bem-Estar social, nada que remeta a qualquer parâmetro da nação brasileira.
A Noruega é, provavelmente, o melhor exemplo do chamado “modelo nórdico”, exatamente esta combinação eficiente entre mercado e prioridade social, discussão que nos consome a cada eleição, como se nós brasileiros fossemos obrigados a escolher apenas um destes itens. Lógico que ninguém pode esquecer que o Brasil é um país continental, heterogêneo e que ainda constrói suas instituições, mesmo reconhecendo que atingiram um nível superior de maturidade na última década, mas temos um abismo cultural imenso a ser superado para que nossa população entenda que política pode ser a arte de construir divergências e não uma guerra aberta fraticida.
É possível que esta diferença de escala e maturidade institucional seja crucial para entender por que os dois modelos, da Noruega e do Brasil, produzem resultados tão divergentes, sem desconhecer o óbvio;
A Noruega é um país rico que se tornou organizado; o Brasil é um país com potencial de riqueza que ainda busca organização institucional.
A escala populacional (o Brasil é quase 40 vezes maior) torna a logística dos serviços públicos brasileiros um desafio de magnitude distinta.
Mas, a leitura política talvez seja o item que melhor traduza a diferença entre as duas sociedades. Enquanto, como idiotas insanos, o brasileiro persista apontando para um dos polos ideológicos como a resposta para todos nossos problemas, a Noruega entendeu que pode praticar o melhor de cada de cada ideologia.
Talvez por isso, o sistema norueguês é frequentemente usado como exemplo por ambos os espectros políticos, dependendo do ângulo de análise, como descrevo de maneira sintética;
Leitura da Esquerda; A Noruega celebra o papel do Estado como indutor da economia e proprietário de meios de produção estratégicos. Destaca a alta progressividade dos impostos e a rede de segurança social que elimina a pobreza extrema. Valoriza o poder das negociações coletivas e a baixa disparidade salarial entre CEOs e operários.
Leitura da Direita; a Noruega ocupa posições altíssimas em rankings de facilidade de fazer negócios e abertura comercial. Convive com política de intensa responsabilidade social, com rigoroso controle da Fundo Soberano que impede o governo de gastar mais do que a economia suporta, além disto, e não menos importante, o sistema funciona porque as instituições são transparentes, o direito de propriedade é sagrado e a corrupção é mínima.
Em síntese, o modelo norueguês prova que proteção social e livre mercado não são excludentes, mas exigem instituições sólidas e altos níveis de confiança interpessoal e cívica.
Apenas para incluir algumas informações relevantes, para finalizar; embora seja uma das economias mais livres do mundo para se fazer negócios, o Estado norueguês detém participações estratégicas em setores-chave (energia, alumínio, telecomunicações e bancos).
A empresa de petróleo Equinor, por exemplo, é majoritariamente estatal.
Por fim, a maior característica econômica é o Government Pension Fund Global. A Noruega não gasta toda a sua riqueza petrolífera; ela a investe globalmente para garantir a sustentabilidade das futuras gerações, utilizando apenas uma pequena porcentagem dos rendimentos para o orçamento público. Quase igual a nossa solução para o pré sal...
Se a Noruega, opera um "Capitalismo de Bem-Estar Social" altamente eficiente, onde o sistema político parlamentarista favorece o consenso e a continuidade de políticas públicas, o Brasil, por sua vez, possui uma estrutura ambiciosa de direitos sociais, mas esbarra em dificuldades de financiamento, baixa produtividade e instabilidade política inerente ao presidencialismo de coalizão.
Enquanto a Noruega é um modelo de convergência, onde direita e esquerda concordam nos pilares do Estado, o Brasil ainda vive um modelo de divergência, onde os pilares econômicos e sociais são frequentemente renegociados a cada ciclo eleitoral. A principal lição norueguesa para o Brasil não é apenas o "gastar mais em social", mas sim o "gerir com transparência e foco no longo prazo".
Se olharmos apenas para implicações políticas, na Noruega, políticas de bem-estar social têm continuidade porque o Parlamento as aprova com amplo consenso. No Brasil, políticas mudam a cada governo, dificultando planejamento de longo prazo.
Com foco social, a Noruega pode financiar bem-estar social porque tem superávit fiscal.
O Brasil enfrenta dilema: aumentar impostos (impopular) ou reduzir gastos sociais (politicamente custoso). Em leitura econômica, a Noruega eliminou pobreza extrema; o Brasil ainda a enfrenta. Isso não é apenas questão de "gastar mais", mas de institucionalizar políticas com continuidade.
O texto aponta para diferenças cruciais, mostra características bastante diversas que ajudam a explicar por que a Noruega é um país muito mais resolvido que o nosso Brasil e que, embora em campo tenha sido apenas 2 a 1, fora de campo, sem dúvidas, eles ganham de goleada.
Mas, me permito grifar uma pequena citação perdida no texto que escancara a principal diferença entre os países; a Noruega tem um dos menores índices de corrupção do mundo, já o Brasil ....
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