OPINIÃO & OPINIÃO
A Copa acaba. O "nós" também?
A Copa do Mundo talvez seja o único momento em que o Brasil consegue suspender, ainda que por alguns dias, a lógica do "nós contra eles". Durante algumas semanas, a pergunta deixa de ser "em quem você vota?" para voltar a ser "vamos ganhar?".
O abraço dispensa afinidade ideológica. O gol não pergunta partido. A comemoração não exige declaração política. Por 90 minutos, milhões de brasileiros experimentam algo que a política tornou raro: reconhecer primeiro alguém como parte do mesmo país e só depois como um adversário político.
Há anos, o país vive sob uma tensão política permanente.
A disputa deixou de ocupar apenas o espaço institucional e passou a organizar a vida cotidiana. Aos poucos, divergências políticas deixaram de ser apenas diferenças de opinião para se transformar em critérios de confiança, aproximação e afastamento.
A Copa não elimina essa realidade. Apenas a suspende por alguns dias. Sob a camisa da Seleção, o Brasil continua dividido. Apenas recorda, por alguns instantes, que existe algo maior do que as divisões.
É justamente aí que futebol e política se encontram. Ambos compreendem o poder das emoções.
A Copa faz espontaneamente aquilo que toda campanha gostaria de conseguir: convencer as pessoas de que fazem parte do "mesmo time". A diferença é que o futebol transforma esse sentimento em identificação coletiva, enquanto a política, muitas vezes, procura convertê-lo em engajamento, votos e poder. Nenhum marqueteiro consegue fabricar, em 30 segundos de propaganda, aquilo que o futebol desperta naturalmente em 90 minutos: a sensação de que, apesar de todas as diferenças, ainda jogamos pelo mesmo país.
O erro é imaginar que a Copa produz unidade. Ela não produz.
Apenas suspende, temporariamente, a lógica que organiza a vida pública brasileira.
Durante algumas semanas, o "nós" volta a ter o tamanho do Brasil.
Quando a campanha começa, ele encolhe novamente, até que a identidade política passe a importar mais do que a identidade nacional.
É justamente quando esse breve intervalo termina que a campanha eleitoral começa. E ela começa disputando aquilo que hoje vale mais do que qualquer programa de governo: as emoções que orientam o voto. A política aprendeu há muito tempo que eleições não são vencidas apenas no terreno das ideias. Elas também são disputadas na capacidade de despertar paixões, criar identificação, formar torcidas e convencer pessoas de que fazem parte do mesmo lado.
É por isso que futebol e política se aproximam e, ao mesmo tempo, se distanciam. Ambos despertam paixões coletivas. A diferença está no destino que dão a elas.
No futebol, a emoção termina, quase sempre, na celebração de uma vitória ou na frustração de uma derrota.
Na política, ela pode se transformar em desconfiança, ressentimento e hostilidade, sobretudo quando a lógica do "nós contra eles" passa a definir quem ainda merece pertencer e quem passa a ser tratado como alguém a ser descartado.
No futebol, toda torcida quer derrotar o adversário. Nenhuma deseja que ele desapareça do campeonato. Sem adversário, não existe jogo. A vitória só faz sentido porque haverá outra partida, outro campeonato e um novo encontro.
A vida pública perde sua medida quando passa a desejar para a política aquilo que nem o futebol deseja para o esporte: não basta vencer o adversário; ele precisa ser deslegitimado, silenciado ou eliminado.
Quando vencer deixa de ser suficiente e eliminar passa a ser o objetivo, a disputa deixa de fortalecer a convivência e começa a corroê-la.
Toda Copa conhece seu último apito. Meses depois, a Justiça Eleitoral proclamará o resultado das urnas. É aí que futebol e política deixam de caminhar juntos. O Mundial se transforma em memória e só voltará ao centro da vida nacional quando uma nova Copa começar.
A eleição segue o caminho inverso: a apuração encerra a disputa pelo voto, mas inaugura um tempo de decisões, escolhas e consequências que alcançarão inclusive aqueles que não votaram no vencedor.
A pergunta mais importante, porém, não será respondida na noite da apuração.
Ela atravessará os anos seguintes: depois de uma campanha marcada pela lógica confronto, quanto ainda restará da capacidade de reconhecer, no outro, alguém que continuará dividindo o mesmo país?
O problema nunca foi a existência do "nós" e do "eles". Democracias são feitas de divergências.
O problema começa quando a principal disputa deixa de ser sobre projetos de país e passa a ser sobre quem poderá fazer parte do "nós" e quem será empurrado para o lugar do "eles". Quando isso acontece, a eleição deixa de decidir apenas quem governará. Ela também revela o tamanho do país que ainda somos capazes de compartilhar.
Christiany Fonseca — cientista política e doutora em sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
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