Walber Guimarães Junior
Quando o pragmatismo joga a ética na lata de lixo.
Por definição, a política, em definição clássica, é a arte da gestão do bem comum e da mediação de conflitos em busca do interesse público, todavia, a despeito do belo enunciado, o atual momento político brasileiro tem confirmado que, na prática, a realidade é outra porque já estamos em tempos de "campanha permanente" que, ao que tudo indica, autoriza toda e qualquer inversão de prioridades desde que submetidas à única e irreversível meta; vencer as eleições.
Nela, a lógica da conquista e manutenção do poder sobrepõe-se, frequentemente, aos compromissos éticos e institucionais. Quando os dois candidatos principais se enfrentam em um pleito decisivo, observa-se um fenômeno de erosão normativa, onde o cálculo de conveniência suplanta os princípios de Estado. Não há margem para o erro, é literalmente um “vale-tudo” na busca pelos handicaps eleitorais, submetendo a saúde democrática, financeira e até mesmo a estabilidade futura da nação aos objetivos políticos.
Esse é exatamente o primeiro sintoma da flexibilização ética em nome da viabilidade nas urnas, inclusive porque os candidatos também percebem que o discurso moderado ou tecnicamente rigoroso não mobiliza paixões, tendem a adotar uma postura de "vale-tudo" retórico.
A ética da responsabilidade, que exige que o líder considere as consequências de longo prazo de suas palavras e atos, é substituída pela ética da convicção estratégica, voltada exclusivamente para o próximo ponto percentual nas pesquisas, atitude facilmente identificada nos dois principais candidatos da cena política brasileira.
Pelo lado da situação, em nome do pragmatismo eleitoral, o presidente Lula se vale de intensa promoção de populismo fiscal, distribuindo inúmeras “bondades” e benesses, sempre focadas em inflar sua aprovação popular, chegando ao limite da irresponsabilidade orçamentária, autorizando isenções, subsídios e incrementando programas de transferência de renda, pressionando as contas públicas.
Estas atitudes são quase um ataque frontal à integridade institucional, reforçadas por um discurso focado em reforçar estratégias de mobilização de paixões, estimulando a polarização e desconhecendo as consequências econômicas de longo prazo, como inflação e endividamento.
Pela oposição, o candidato Flávio Bolsonaro opta pela instrumentalização diplomática, alheio aos riscos à soberania, com ações que, sem subterfúgios submete as relações internacionais ao marketing da campanha, explorando negociações e tensões com potências estrangeiras (EUA) apenas para sinalizar valores ideológicos à nichos ideológicos específicos.
Flávio não hesita em buscar alinhamento automático a potências externas, comprometendo a soberania e autonomia nacional, relegados à segundo plano por um imperativo de alinhamento ideológico que, em inúmeras situações, desconhece os interesses econômicos brasileiros, admitindo um padrão externo de definição de nossas diretrizes, no limite da irresponsabilidade cívica.
Para além destas questões, em raciocínio válido para todos, as instituições são frequentemente tratadas como adversárias ou meros instrumentos.
Se uma norma legal ou um rito institucional impede uma promessa de campanha, o candidato não hesita em atacar a legitimidade do órgão regulador ou do Poder Judiciário.
Essa postura fragiliza o tecido democrático, pois ensina ao eleitorado que as regras do jogo são maleáveis e que o triunfo pessoal do líder é superior à integridade das instituições que sustentam a República.
Independentemente do resultado eleitoral, Lula e Flávio contribuem, cada um a seu modo, para degradar a nossa credibilidade, reduzindo nossa segurança institucional. A postura de ambos os candidatos revela uma predação do futuro em nome do triunfo imediato. Ao priorizarem o "voto hoje", seja através da hipoteca das contas públicas ou da fragilização da soberania nacional em acordos externos, as lideranças sacrificam os pilares da República.
Essa submissão absoluta à conveniência eleitoral degrada a qualidade da representação e substitui o projeto de país por um jogo de soma zero, onde a estabilidade democrática e o interesse público são os maiores perdedores.
Somos reféns de uma disputa odiosa e polarizada, onde um deles vai vencer e a nação vai perder, em especial na esfera econômica e diplomática, para limitar a avaliação apenas aos setores mais notórios, obviamente com fortes implicações na qualidade da nossa democracia, embora tais variáveis não sejam exclusivas da disputa nacional, ainda que mais grave por aqui.
A submissão de candidaturas majoritárias às conveniências eleitorais, em detrimento da ética e do interesse público, representa um dos maiores desafios à estabilidade das democracias modernas. A priorização de ganhos de curto prazo, sejam eles fiscais, diplomáticos ou institucionais, funciona como uma forma de predação do futuro.
Para que a democracia recupere sua qualidade, é imperativo que o debate público resgate a noção de limite. A política não pode ser um campo onde o fim justifica os meios, sob pena de o vencedor encontrar, ao assumir o cargo, um país exaurido, fiscalmente quebrado e internacionalmente isolado.
A verdadeira liderança deve ser capaz de equilibrar a busca pelo voto com a preservação dos pilares que permitem que a própria disputa eleitoral continue a existir de forma livre e sustentável.
Sem isso, repito, ainda que alguém vença, somos nós brasileiros os verdadeiros derrotados.
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