Walber Guimarães Junior
Impunidade e omissão; retrato do Congresso Nacional?
Que ninguém ouse dizer que já ouviu tudo!
Também não há espaço para ilusão; o caso do Banco Master não é um fato isolado, mas o sintoma de uma realidade cruel. Ele escancara a podridão de uma elite política devidamente encastelada entre poderes e partidos. É uma deturpação indefensável apontar o dedo para apenas um polo ou liderança como vetor da corrupção; o escândalo atual é apenas o mais eficiente — até agora — em saquear o suado dinheiro dos impostos.
O brasileiro comum precisa ainda se submeter ao corporativismo sistêmico, de igual intensidade em todos os poderes que os une em promiscuidade obscena.
Seus membros se protegem, trabalhando ativamente para consagrar a impunidade como a "regra de ouro" do andar de cima.
Nulidades, prescrições e omissões se somam para transformar o país em uma republiqueta onde o crime compensa, desde que o criminoso pertença à elite.
As relações de nossas instituições com a figura de Daniel Vorcaro surpreendem pela facilidade com que a rede de proteção se espalha.
Capachos poderosos apressam-se em abrir portas e gerar atalhos por onde a corrupção trafega livremente em direção aos cofres públicos, tudo sob o olhar cúmplice de autoridades contempladas com fatias desse bolo sujo.
Como cidadão, não possuo cultura jurídica profunda, mas tenho discernimento suficiente para entender que não existe razão ética para uma instituição financeira contratar serviços jurídicos de familiares de ministros do STF por cifras escandalosas. Valores tão astronômicos sugerem que as esposas dos ministros, ou filhos recém-formados, realizam as famosas “petições de ouvido” diretamente com Deus ou, no mínimo, com o Papa.
Com uma dose de atrevimento, me pergunto por que os ministros Alexandre de Moraes, Dias Tofolli, Gilmar Mendes e Nunes Marques, cujos nomes estão associados com condutas suspeitas ou contratos milionários, sentados na nossa Corte Suprema não se sentem constrangidos para oferecer explicações mínimas para o cidadão comum que ajuda a pagar os seus salários?
Sentados no topo da Corte Suprema, parecem ignorar o clamor por transparência.
Como esperar algo do Senado comandado por Davi Alcolumbre?
Parceiro de Vorcaro e beneficiário de contas regadas por "agradecimentos" milionários, Alcolumbre ignora sua obrigação constitucional.
Não há espaço para investigação, CPI ou impeachment quando o jogo é às claras: proteger o "corrupto de estimação".
Quando os números investidos pelo Amapá no Banco Master vieram à tona, ficou claro que o compromisso ali não é com a Constituição, mas com o balcão de negócios.
Enquanto isso, Ciro Nogueira, alvo de uma avalanche de denúncias, segue livre, sem tornozeleira ou notificações da Comissão de Ética, comunicando à nação que para os poderosos as regras são sempre mais “flexíveis”. Da mesma forma, Jacques Wagner mantém-se como líder do governo no Senado, comprometendo a gestão que serve ao não ter a decência de se licenciar em respeito à opinião pública.
A lista de destinatários de somas elevadas e tráfico de influência se estende: Hugo Motta, Renan Calheiros, Antônio Rueda e dezenas de outros parlamentares, "irmãozãos" de Vorcaro, seguem com contas abastecidas para irrigar seus projetos políticos. Estão todos sob o guarda-chuva da imunidade, que para o povo soa como a mais pura ofensa da impunidade.
Você pode até estar indignado com as minhas omissões porque esta lista poderia incluir meia dúzia de ex-governadores, centenas de prefeitos, deputados e senadores que se associaram ao Master, sedentos em recolher as indulgências de Daniel Vorcaro, mas, esteja certo, a lista segue em aberto para novas inclusões que apenas atestam o comprometimento de todo o tecido político.
Enquanto a moralidade desce os degraus do submundo, na superfície, milhões de inocentes se digladiam para decidir qual lado é "mais corrupto" ou qual político de estimação devem defender.
É o descalabro total. E as consequências serão terríveis.
Nosso povo pode não ter mais a garra para ocupar as ruas, mas precisa ter a consciência de que a solução reside nas urnas, especificamente na escolha dos senadores.
Apenas a "Casa Maior" pode sinalizar um novo momento.
O fim da impunidade exige punições exemplares, inclusive para ministros do STF, e o fim do "engavetamento" vicioso nos Conselhos de Ética.
É difícil imaginar que o Brasil punirá este escândalo, pois ele está impregnado na pele de nossa elite. Certamente, logo ali adiante, prescrições e nulidades permitirão que essas "excelências" sigam no poder.
No país onde o crime de colarinho branco é senha de pertencimento ao grupo dos poderosos, a cadeia continuará sendo o endereço exclusivo dos pobres, das prostitutas e dos pretos.
É a triste realidade de uma pátria sugada por seus próprios representantes.
COMENTÁRIOS