Pode acreditar: a fé é uma grande aliada da saúde

Entenda como rituais e a conexão com o sagrado ativam mecanismos cerebrais capazes de reduzir o estresse, mas também exigir cuidados médicos


Pode acreditar: a fé é uma grande aliada da saúde Imagem: Freepik

Alguns enxergam a religiosidade simplesmente como uma forma de controle social, algo maior vigiando o comportamento humano.
Outra forma de entendê-la é pensar que a evolução da espécie humana favoreceu a experiência religiosa como um mecanismo que ajuda a manter comunidades unidas e também a promover um melhor autocontrole mental.

A princípio, quando uma meta é encarada como sagrada, o indivíduo teria maior tendência em se esforçar para alcançá-la. Mais do que isso, o sagrado abastece a mente humana no desafio de pensar sobre a vida e a morte, e em tempos mais remotos, isso era fundamental para o entendimento dos sonhos e fenômenos da natureza.

Marx, Freud, Weber, entre tantos outros, defenderam a ideia de que a modernidade reduziria a influência das crenças religiosas na sociedade.
No Brasil, nos últimos 20 anos, houve um discreto aumento na porcentagem de brasileiros que dizem não ter uma religião: em 1991 essa cifra era de 4.75%, em 2009 passou para 6.7%, 10% em 2020, e em 2026 chegamos a 14%.

A religiosidade tem seu lugar no cérebro?
A neurociência tem demonstrado que a experiência religiosa estimula circuitos cerebrais do neurotransmissor dopamina, os mesmos circuitos que são considerados disfuncionais em transtornos neuropsiquiátricos em que a hiperreligiosidade faz parte do quadro clínico, como é o caso da epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, mania e transtorno obsessivo-compulsivo. 

Sistemas cerebrais da serotonina também parecem estar implicados, já que drogas que têm influência sobre eles são facilitadoras da experiência religiosa. Entre essas drogas podemos citar o LSD, mescalina, ecstasy, e o chá de Ayahuasca utilizado pelo Santo Daime e União do Vegetal. Cientistas das universidades americanas de Columbia e Yale demostraram  que o estado de conexão com algo maior, seja pela experiência religiosa ou não, está associada a uma menor atividade da região parietal do cérebro.
Ao alcançar esse estado de consciência, a pessoa apresenta um adormecimento de uma região fortemente vinculada à percepção de si mesmo e dos outros.

Quando pensamos na influência da fé na evolução de problemas de saúde, vale a pena refletir sobre o poder do efeito placebo.
A origem do termo é o verbo placere do latim que significa AGRADAREI. 
A simples expectativa positiva de que um tratamento pode nos fazer bem já é capaz de provocar mudanças fisiológicas em nosso corpo, e esse é o chamado efeito placebo.
Pessoas que apresentam boa resposta ao placebo apresentam circuitos cerebrais de dopamina com maiores concentrações desse neurotransmissor. Também há evidências de que as concentrações dos opioides endógenos e de serotonina são influenciadas pela expectativa positiva.

Isso tudo pode ter repercussões sobre o sistema imunológico e favorecer a evolução de uma condição de saúde.
Se uma pílula de farinha já é capaz de provocar esses efeitos, podemos tentar imaginar o que a prece ou um ritual religioso pode promover.
Esse é um modelo que a ciência tem para explicar os efeitos da fé sobre a mente e o corpo. Isso não quer dizer que outros mecanismos ainda intangíveis não possam ser descritos no futuro.
Imagem: Subbotina Anna -Fotolia
Fé e religião promovem saúde mental e protegem dos vícios - Notícias  Adventistas
A religiosidade faz bem mesmo à saúde?
Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm maior capacidade de lidar com o estresse emocional, uma melhor saúde mental de forma geral e, em situações de doença, cooperam mais com o tratamento.

Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio.
Esse pode ser um dos principais fatores que explicam resultados de maior longevidade entre as pessoas com maior religiosidade. Assume-se também que essas pessoas têm a tendência a apresentar hábitos de vida mais saudáveis.

Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com ideias do tipo: esse é o desejo de Deus, Deus me abandonou, este é o meu destino, este é o meu castigo, etc.

Em situações como essas, é bem razoável que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar dimensões religiosas / espirituais do paciente e assim aumentar a aderência e sucesso do tratamento.

Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro em Brasília




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