Walber Guimarães Junior
Por que Flávio Bolsonaro perdeu o segundo turno?
Que me perdoem os apaixonados, mas a razão primeira da derrota de Flávio Bolsonaro foi a escolha fisiológica de Jair Bolsonaro que, fechando os olhos para a realidade, resolver impor sua vontade imperial de garantir a continuidade da família, preterindo nomes testados, sem rejeição e sem o histórico no mínimo discutível do seu filho.
O primeiro turno comprovou aquilo que nem mesmo a surpreendente vitória de Lula desmente; a direita é majoritária no Brasil e, ainda que não some a maioria absoluta, tem folga suficiente para que qualquer cidadão lúcido perceba que uma candidatura sem rejeição teria amplo favoritismo contra uma gestão mal avaliada e defendida por um nome desgastado por mais de vinte anos de janela.
Alternativas não faltavam e, para ficar nos óbvios, os governadores Tarcísio de Freitas, Ratinho Junior, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Eduardo Leite e mais duas dúzias de nomes seriam melhores que o ungido, cuja maior qualidade é o sobrenome.
É possível que as razões de ambos sejam ainda mais amplas; a prioridade nunca foi o Brasil, mas a anistia do ex-presidente Jair Bolsonaro, conforme se verificou em diversas declarações do candidato. Para além desta introdução, para não transformar este artigo em um tratado, tentarei destacar as variáveis que explicam por que os debates, em especial o último na Rede Globo.
O primeiro debate na Band já sinalizou; era a única maneira disponível de colocar os candidatos a nu, sem proteção do marketing, ainda que os excelente mídia training os tenham protegido do confronto, com táticas que permitem “vender” discursos decorados à imagem e semelhança do horário do Rádio e TV.
Depois da fuga dos dois líderes dos primeiros confrontos, em nome da estratégia eleitoral, mas em flagrante desrespeito ao eleitor, a Band os colocou frente a frente, em duas horas de espetáculo circense, algo digno de briga de escola, com ambos os candidatos se comportando como alunos de quinta série. Ainda que assistido por algo entre 10 e 11 milhões de telespectadores, os recortes do dia seguinte atingiram estimados 60 milhões de eleitores, já alterando levemente os índices das pesquisas, com uma redução da diferença entre Flávio e Lula, provavelmente justificada pela atitude um pouco arrogante, ou talvez debochada de Flávio, mesmo sem ter efetivamente perdido o debate, onde apresentou mais desenvoltura e menos nervosismo que o oponente.
Acredito que se não fosse a criatividade de Lula que tirou da cartola o desafio da moralidade, equilibrando o confronto, Flávio teria saído com razoável vantagem da Band.
Todavia, no debate da Globo ocorreu o capítulo decisivo das eleições, só comparável ao incrível levante estudantil, espontâneo a favor de Lula, fatores que somados produziram a inédita e até inesperada virada da esquerda.
Em consenso, telespectadores e analistas acusaram um equilíbrio na atuação de ambos, mas foram os atos falhos de Flávio Bolsonaro que definiram a eleição. Foi um debate assistido por mais de 60 milhões de eleitores e cujos recortes, no dia seguinte, ultrapassaram cem milhões de eleitores.
A esquerda, durante toda a campanha, tentou construir um perfil negativo do adversário, o vinculando às milícias, ao envolvimento com criminosos, com suspeitas de delitos como rachadinhas e compras de imóveis em dinheiro vivo, além de associarem às atitudes discriminatórias do seu pai. A despeito da propagação massiva deste perfil, sempre pareceu muito mais “denúncia vazia” ou intriga eleitoral porque faltavam elementos mais convincentes para confirmar as acusações. E Flávio se encarregou de vestir o figurino desenhado por Lula ao longo de debate.
No primeiro deslize, a declaração capacitista, e já era a terceira, ao chamar Lula de nove dedos, Flávio despiu a imagem de vilão que tentava impor ao adversário e o transformou em vítima de uma grosseria inaceitável em rede nacional com 60 milhões de testemunhas. Muito mais que isto, aproximou Lula de milhões de brasileiros vítimas de bullying das mais variadas ordens e também lhe valeu a solidariedade de familiares e pessoas próximas.
No segundo momento, Lula tocou na ferida, ao apontar para Cristiane, mãe da garotinha Ana Clara, assassinada por um policial que a atingiu no colo da mãe com um tiro de fuzil, de novo apontando para o oponente como defensor de bandidos e milicianos, desconcertado Flávio sai em defesa do assassino, ainda não julgado, mas vestindo a carapuça que a esquerda desenhou milimetricamente durante toda a campanha.
Neste momento, Flávio materializou todo o perfil construído pelos adversários e, de novo diante de milhões de eleitores, ousou minimizar o crime e defender o policial. Pouco importam as atenuantes, foi um erro crasso que no imaginário popular permitiu consolidar a imagem de vínculo consistente com as milícias.
Erros fatais na antevéspera da eleição, potencializada pela extremamente competente campanha digital, sob a liderança de André Janones que mobilizou milhões de jovens, principalmente das universidades que se somaram aos milhões de idosos aliados no Exército do Lula, fato mais relevante do segundo turno.
Por quase três semanas, no segundo turno, a direita teve a vitória em suas mãos e mesmo com a reação imprevista das ruas, com a esquerda buscando fôlego inimaginável quando os números não recomendavam, foi o debate, através da migração de recortes para o digital que selou a disputa.
Não posso encerrar sem repetir o veredicto do último artigo; foi a pior disputa da nossa história democrática, agravada pela inaptidão e contradições do candidato da direita e da absurda irresponsabilidade do candidato da esquerda que gastou quase 400 bilhões dos cofres públicos, já comprometidos pelo abandono das boas práticas de responsabilidade fiscal durante a gestão.
Rogo aos brasileiros que se recordem da analogia; Lula é de novo o piloto do avião Brasil e, independente das preferências pessoais, é necessário torcer para que nos conduza a um bom destino.
Convoco ainda que a paixão exacerbada demonstrada durante a campanha, por ambas as torcidas, se transforme em pressão para que se produzam as necessárias reformas para que Executivo, Legislativo e Judiciário deixem de envergonhar a Nação e trabalhem a favor da população, algo difícil de se enxergar nos últimos anos.
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