O aperto financeiro dos clubes de futebol

Clubes recorrem à Justiça para preservar sua principal fonte de receitas 

Por Bruno Andrade/Veja/
O aperto financeiro dos clubes de futebol Foto: Thiago Ribeiro/AGIF//AFP

 O futebol brasileiro já tinha dívidas demais quando o governo Lula resolveu apresentar uma nova conta.
Ao proibir as bets, a Medida Provisória n° 1.394/2026 cortou uma das principais fontes de financiamento dos clubes e tornou ainda mais difícil fechar seus balanços.
Segundo a consultoria Sports Value, as casas de apostas respondem por 34% das receitas de marketing das equipes e ocupam o espaço de patrocinador master em catorze dos vinte times da Série A.
Para um setor que convive com salários atrasados, credores à porta e orçamentos comprometidos, a decisão do Planalto tem o efeito de uma canelada nas finanças.
Agora, os dirigentes buscam anunciantes provisórios e alternativas para preservar os contratos com as bets, enquanto tentam ganhar tempo, torcendo para que o Congresso ou o STF reveja a medida. 
A insatisfação dos clubes ganhou espaço dentro de campo. No confronto com o Vasco, em 17 de outubro, o São Paulo estampou na camisa a mensagem "Proibir não é proteger".
Por trás do protesto está uma conta que não fecha: os patrocínios saem, mas as despesas permanecem.
"Não teremos dinheiro para pagar o salário do Lucas Paquetá em janeiro com essa MP", afirmou o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, em entrevista recente, referindo-se a uma das estrelas do elenco.
Se até o clube de maior força financeira do país prevê dificuldades, o impacto sobre as equipes mais endividadas tende a ser ainda mais perverso.
Dois jogadores de futebol correndo em campo verde. Um veste camisa preta e branca do Vasco, o outro camisa branca e vermelha do São Paulo, com uma bola rosa aos pés.
Foto: Marina Uezima/Brazil Photo Press

A perda dos patrocínios ameaça até desmontar os acordos que permitiriam reorganizar algumas finanças.
É o caso do Botafogo. Documentos mostram que a recuperação judicial do clube está em risco. Seu contrato com uma casa de apostas prevê receitas anuais de 50 milhões de reais.
Na ação direta de inconstitucionalidade apresentada ao STF, o Botafogo sustenta que a intervenção ameaça também quem tem valores a receber. "A supressão abrupta do patrocínio compromete a execução do plano de recuperação judicial, com reflexos sobre toda a coletividade de credores", afirma o documento.
Entre a urgência de manter o dinheiro entrando e a esperança de reverter a proibição, os clubes improvisam soluções.
São Paulo e Fluminense passaram a exibir a marca Superscore, mantendo a exposição de um negócio associado à antiga patrocinadora.
Outros buscaram anunciantes temporários até dezembro: o Corinthians fechou com a Shopee; o Santos, com o Agibank; e o Flamengo, com a Lubrax.
A intenção é atravessar os próximos meses sem romper os vínculos com as bets, na expectativa de que o Congresso rejeite a MP ou de que o Supremo acolha os argumentos dos clubes.

Encontrar quem ocupe o espaço das bets nas camisas, porém, não significa encontrar quem pague a mesma conta.
Segundo Amir Somoggi, fundador da Sports Value, as casas de apostas desembolsam, em conjunto, entre 500 milhões e 600 milhões de reais a mais em publicidade do que empresas dos demais setores.
A diferença aparece na evolução das receitas: de 2023 a 2025, o faturamento dos clubes com marketing cresceu 95%. "Sem os recursos das bets, o avanço teria sido de apenas 25%", afirma o especialista.
Os acordos provisórios podem aliviar o aperto imediato, mas deixam os clubes diante de um mercado que tende a anunciar por valores inferiores aos oferecidos pelas bets.

A decisão atabalhoada do governo Lula ameaça produzir um duplo prejuízo: agravar a penúria do futebol e empurrar apostadores para plataformas ilegais.
Em vez de interromper contratos e deixar os clubes à própria sorte, o Planalto deveria ter previsto um período de adaptação, com restrições graduais e tempo para reorganizar os orçamentos.
Foi o caminho escolhido pela Premier League: em 2023, os clubes ingleses decidiram retirar os anúncios de bets da parte frontal das camisas a partir da temporada 2026/2027, preservando outras modalidades de patrocínio.
"Esse é um caso de evolução regulatória de sucesso, que trouxe um prazo de três anos de adaptação", diz Carlos Lima, presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável.

Na pressa de proibir, o governo Lula marcou um gol contra o futebol brasileiro.





COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.