Fofoca no trabalho pode ajudar o bem-estar emocional
Conversas de bebedouro podem favorecer a conexão com colegas e o senso de pertencimento; veja cuidados
Reprodução Stephanie Joseph trabalhava em uma emissora de televisão quando alguém espalhou um boato falso alegando que ela e um colega casado tinham um relacionamento amoroso.
Stephanie, então com 20 anos, mal conhecia o homem em questão e só ouviu falar dos boatos quando um produtor lhe contou que estavam circulando.
“Eu pensei: ‘Isso é uma loucura’”, recorda. “Esse colega de trabalho em particular, embora jovem, era casado e tinha família. Isso tornou tudo ainda mais ofensivo, porque eu pensei: ‘Sou amiga dessas pessoas. Será que elas não conhecem meu caráter?’.”
Detalhes sobre a vida privada ou o comportamento de outras pessoas costumam vazar no ambiente de trabalho.
Fofocas podem prejudicar a reputação tanto das pessoas envolvidas quanto de quem as espalha, que podem passar a ser vistas como pouco confiáveis. Embora esses pontos negativos sejam amplamente conhecidos, compartilhar as últimas notícias do trabalho também pode trazer benefícios, segundo especialistas.
Avisos sussurrados sobre gerentes ou colegas que apresentam comportamentos abusivos ou problemáticos podem ajudar os colegas de trabalho a evitar experiências dolorosas, por exemplo.
A fofoca também pode aumentar a cooperação e promover um senso de pertencimento no ambiente de trabalho, afirma Rebecca Greenbaum, professora de gestão de recursos humanos da Universidade Rutgers, que estuda fofocas no local de trabalho.
Muitas pessoas fofocam por necessidade de se conectar com outras que entendem suas experiências, e compartilhar informações sensíveis é uma forma de demonstrar vulnerabilidade e cuidado, afirma ela.
“Precisamos uns dos outros, certo?”, diz Rebecca.
“Por razões de sobrevivência, precisamos saber em quem podemos confiar. Precisamos também de informações que nos ajudem a descobrir de quem devemos nos manter afastados.”
Especialistas em ambiente de trabalho e pessoas que já vivenciaram fofocas explicam quando elas são benéficas, quando são prejudiciais e como se desvencilhar delas sem prejudicar relacionamentos profissionais.
Às vezes a fofoca é essencial
O contexto e a intenção são importantes ao avaliar o valor da fofoca, afirma Stephen Lee, professor assistente de gestão, sistemas de informação e empreendedorismo na Universidade Estadual de Washington. A fofoca geralmente indica um problema negligenciado ou ignorado que as organizações precisam abordar, acrescenta ele.
“Um dos motivos que vemos com frequência é o desejo de alertar ou proteger alguém, como ‘Ei, fique atento a isso, quero te avisar sobre essa pessoa’”, diz Lee.
O indivíduo que recebe esse tipo de conselho pode ficar grato e mais propenso a ajudar quem o aconselhou no futuro, adiciona.
Se a informação for transmitida para alertar os colegas sobre algo sério, avise alguém que esteja em posição de resolver o problema, como um representante do RH, orienta Bev Vitali, pesquisadora de liderança e desenvolvimento de capacidades da Tennessee Nonprofit Network.
“A partir desse ponto, a atuação se torna mais proativa, pois passamos a apresentar argumentos concretos para ajudar a resolver a situação”, diz Bev.
Desabafar pode ajudar a controlar as emoções
Segundo Lee, conversar com alguém de confiança sobre uma interação desagradável ou irritante com um gerente ou colega oferece às pessoas uma maneira de lidar com emoções difíceis e obter apoio no trabalho.
“Isso pode dar à pessoa uma maior sensação de controle sobre a situação”, acrescenta.
Fornecer atualizações oportunas sobre alguém pode, às vezes, contribuir para um ambiente de trabalho melhor. Por exemplo, compartilhar que um colega está de mau humor pode levar os outros a se manterem afastados dessa pessoa por um tempo ou a agirem de forma excepcionalmente gentil, diz Rebecca.
Fofocar não precisa significar comunicar más notícias ou opiniões negativas. Colegas podem compartilhar fofocas baseadas em elogios, dizendo que gostaram muito do que alguém fez, mesmo que essa pessoa não esteja presente para receber o elogio, afirma Lee.
Impacto na produtividade e na reputação
Escolha com cuidado com quem você troca figurinhas e com que frequência, pois ficar conhecido como alguém que está sempre falando mal dos outros pode fazer com que seus colegas percam a confiança em você.
“Quando se trata da sua marca pessoal, tudo gira em torno da confiança e da credibilidade”, ensina Mariah Humbert, consultora de etiqueta e imagem que reside em Nova York.
“E se você estiver constantemente envolvido em conversas negativas ou fofocas, isso estará em risco.”
Bev se lembra de participar de fofocas em um emprego anterior, em meio a rumores sobre uma possível fusão e demissões. Ela conta que se sentia menos produtiva quando se envolvia com os boatos.
“Percebi que estava gastando muito do meu valioso tempo de trabalho conversando com meus colegas sobre ‘O que vocês sabem? O que vocês ouviram? O que está acontecendo?’”, afirma.
Cuidado com a euforia pós-boato
A forma como você se sente depois de participar de uma fofoca pode indicar se o encontro foi útil ou prejudicial. Pergunte a si mesmo se você está espalhando boatos por diversão e pense bem antes de repetir algo que possa ser prejudicial, sugere Rebecca.
“Sobre quem você está fofocando? A fofoca é merecida?
Qual a gravidade da situação: é uma fofoca muito grave que realmente vai prejudicar a imagem da pessoa, ou é algo mais leve?”, pergunta Rebecca. “Se você sentir culpa e vergonha, preste atenção a esses sentimentos, pois podem indicar que você não está agindo de acordo com seus próprios princípios morais.”
Desabafar com alguém de fora da sua organização costuma ser uma solução melhor, orienta Bev. Ela se lembra de se sentir mal consigo mesma no final de dias de trabalho com muita conversa nos bebedouros.
“Era uma solução tão temporária, quase como um pico de açúcar ou uma compulsão por notícias ruins, em que você sabe que não é a solução, mas não consegue se controlar e acaba fazendo mesmo assim”, diz Bev.
Como mudar de assunto ou redirecionar a conversa
Quando os boatos começam a circular, as pessoas podem se sentir tentadas a participar como forma de se enturmar. Para aqueles que preferem se abster, existem outras maneiras de se conectar com os colegas de trabalho, diz Mariah.
Se alguém compartilhar uma fofoca e você não quiser participar, pode dizer “entendo seu ponto de vista” ou “concordo”, e então mudar de assunto, afirma Mariah. Ou tente: “Ouvi falar disso, mas não sei todos os detalhes, então não quero comentar agora”.
Em seguida, direcione a conversa para interesses em comum, como recomendações de restaurantes ou viagens, planos para o fim de semana, instrumentos musicais ou esportes. Mariah gosta de ter dois ou três tópicos de conversa preparados com antecedência.
“Essas são maneiras de construirmos relacionamentos profissionais sem que isso gire em torno de algo negativo ou fofoca”, diz ela. É da natureza humana falar sobre o outro, mas pense se o que você está tentado a compartilhar pode ser mentira e se seria capaz de dizer na cara da pessoa alvo da fofoca, orienta Stephanie.
“Fofocas no ambiente de trabalho são inevitáveis, mas vamos tentar mantê-las o mais inofensivas possível — afinal, o próximo alvo pode ser você. Elas podem envolver qualquer um de nós, a qualquer momento”, diz ela.
“Eu gosto de uma boa fofoca, como se costuma dizer, mas também estou muito atenta a como isso pode afetar as outras pessoas.”
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