Paulo Gonet pede nulidade nas investigações.

Gonet e família aparecem 33 vezes em investigação que ele pede nulidade

Oglobo/MaluGaspar/
Paulo Gonet pede nulidade nas investigações. Foto: Rosinei Coutinho/STF/

O procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, e familiares dele são mencionados ao menos 33 vezes nas investigações do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), cujo sigilo foi levantado nesta terça-feira (1º/9).

Na tarde de ontem, Gonet pediu a nulidade das apurações sob o argumento de que o relator do caso, André Mendonça, não tinha autorização do plenário do STF para conduzir investigações que envolviam outro ministro da Corte — no caso, Alexandre de Moraes.

Segundo Gonet, André Mendonça “sabia que entre elas estava o ministro Alexandre de Moraes. Não poderia deixar de o saber. O ato que determinou a investigação pela Polícia Federal data de 24 de agosto de 2026. Há muito que o relator estava com todas as peças que quis fossem detalhadas por escrito”, escreveu o procurador-geral.

No relatório da Polícia Federal, Paulo Gonet é mencionado ora pelo nome, ora pela sigla “PG”.
As iniciais são usadas com frequência pelo advogado Ciro Soares, que atendia Daniel Vorcaro e buscava viabilizar encontros do ex-dono do Banco Master com autoridades da República.

Em uma dessas menções, Paulo Gonet aparece em uma foto ao lado de Ciro Soares, em mensagem enviada em 15 de março de 2025.
Os dois parecem estar em uma varanda. Ambos usam roupas casuais e óculos escuros — 15 de março de 2025 caiu em um sábado. “Liga aqui. Ele quer falar com vc”, diz Ciro Soares a Daniel Vorcaro.

Em mensagem de 28 de março, encaminhada por Ciro Soares a Vorcaro, Gonet afirma: “Que bom! Estou na torcida por vocês!”.

“Já estou com saudades de você!”, prossegue o PGR na mesma conversa. “Estou embarcando para Roma.” Após dizer que Gonet iria com eles para Londres, Ciro Soares encaminha uma mensagem em que o procurador-geral teria escrito: “Oba!!! Tomara que tenha charuto e Macallan!”

No dia seguinte, Paulo Gonet informa que não poderá ir ao evento em Londres e pergunta se o filho poderá substituí-lo, mas o evento acabou não acontecendo.

A colunista Malu Gaspar destaca assim:  Gonet ignora escândalo e age como advogado de defesa de Vorcaro e Moraes.
Procurador-geral que aparece nas mensagens dizendo que “adora” o dono do Master não teve constrangimento em dizer que investigação é nula

Então ficamos combinados assim: ninguém viu as mensagens em que Daniel Vorcaro demonstra estar recebendo do ministro do Supremo Alexandre de Moraes informações sobre uma investigação sigilosa de que ele era o principal alvo.
Também não quer dizer nada Vorcaro perguntar a Moraes se ele achava que já era o caso de “estar fora” na segunda-feira (dia em que o dono do Master foi preso).
O contrato de R$ 131 milhões de reais fechado com o escritório da mulher do ministro e editado por ele próprio? Imagina, super normal isso.

Em oito páginas e uma canetada apresentadas com rapidez atípica para seus padrões, o procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, declarou que nenhuma das provas apresentadas no relatório de mais de 200 páginas da Polícia Federal vale para que se tome providências e se investigue o ministro Alexandre de Moraes.

Em seu despacho, Gonet afirma que a iniciativa de André Mendonça sofre de “dupla nulidade’.
A primeira teria sido investigar o colega sem autorização do plenário.
Para Mendonça, não houve investigação, e sim um pedido de informação preliminar. Além disso, Gonet afirma que não cabia a Mendonça pedir diligências, já que essa seria função proativa do MP e da PF. E assim encerrou o caso, sem dizer uma palavra sobre os espantosos fatos descritos no documento da Polícia Federal.

O fato de ele mesmo, Gonet, ter sido citado por Vorcaro de forma absolutamente imprópria para alguém na sua posição não o fez nem sequer fingir compostura, evitando assinar o despacho.

Para o PGR, tão cioso do devido processo legal e de sua autonomia investigativa, não há nada demais nas mensagens e uma ligação de vídeo em que ele manda dizer, por um advogado amigo de ambos, que está “com saudade”.
Nas mesmas conversas, ele diz que quer “marcar de estar juntos” e confirma que iria ao evento patrocinado por Vorcaro em Londres: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”. Também pouco importa que seu filho, o advogado Pedro Gonet Branco, tenha pedido para ir a Londres em um dos aviões do dono do Master, segundo indicam as mensagens. Ou que Vorcaro tenha pedido para que ele tirasse da disputa para o conselho do MP um candidato incômodo (o tal indesejado realmente desistiu).

Ainda que se admita as nulidades apontadas por Gonet, em nenhum momento se questionou a veracidade dos fatos apresentados no relatório da PF. Caso suas preocupações fossem realmente republicanas, o mínimo que Gonet poderia fazer para se safar ele mesmo da acusação de conflito de interesses seria pedir ao presidente do STF, Edson Fachin, que abra uma investigação e a distribua a outro ministro, começando tudo de novo da maneira que ele considera certa.

Gonet, porém, não está preocupado com nada disso.
Assinou ele mesmo o despacho em que ignora os episódios mais escandalosos do caso Master até hoje.
Não escreveu nenhuma palavra sobre o que se leu e ouviu.
Nenhuma menção à necessidade de que se apure se e quais crimes foram cometidos e até onde Moraes foi capaz de ir para salvar Vorcaro da bancarrota e da prisão.
Gonet pelo jeito considera que tráfico de influência, advocacia administrativa, violação do sigilo funcional e eventualmente até corrupção só são crimes quando cometidos pelos inimigos de seus amigos.
Uma coisa não se pode negar: o investimento do dono do Master não foi em vão. Como procurador da República, Gonet está se saindo como um ótimo advogado de defesa.




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