Bukele reacende debate sobre segurança.
Queda histórica dos homicídios mantém modelo de Bukele no centro do debate
Reprodução Uma declaração do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, voltou a ganhar espaço nas redes sociais ao defender que os governos possuem estrutura suficiente para enfrentar organizações criminosas quando existe decisão política.
A versão compartilhada em português afirma que nenhum Estado seria incapaz de combater o crime e que, quando não consegue derrotá-lo, seria porque mantém algum tipo de cumplicidade.
A frase tem origem em uma publicação feita por Bukele em janeiro de 2023.
Na mensagem original, o presidente afirmou que um governo não deixa de combater efetivamente a criminalidade por falta de capacidade, mas porque os cúmplices dos criminosos estariam dentro do próprio governo. A formulação que circula atualmente é, portanto, uma síntese do pensamento publicado por Bukele, e não a reprodução literal de suas palavras.
Combate às gangues virou principal bandeira
Bukele assumiu a Presidência em 2019 e colocou o enfrentamento às organizações criminosas no centro de seu governo. O chamado Plano de Controle Territorial ampliou a atuação conjunta da polícia e das Forças Armadas contra grupos como a Mara Salvatrucha e a Barrio 18.
A política foi intensificada em 27 de março de 2022, após uma onda de assassinatos.
O país decretou um regime de exceção que suspendeu garantias relacionadas à liberdade de associação, privacidade das comunicações e parte dos direitos processuais dos presos.
A medida, inicialmente apresentada como temporária, foi renovada sucessivamente e passou a sustentar uma política de prisões em massa e ampliação dos poderes das forças de segurança.
A Anistia Internacional afirma que o regime se transformou, ao longo dos anos, em uma estrutura permanente de repressão e suspensão de garantias.
Homicídios caíram de forma acentuada
Os resultados na redução das mortes violentas são expressivos. Dados oficiais indicam que El Salvador encerrou 2015 com aproximadamente 103 homicídios para cada 100 mil habitantes.
Em 2024, a taxa divulgada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública caiu para 1,9 por 100 mil habitantes.
Mesmo organizações críticas ao governo reconhecem que a violência provocada pelas gangues e os homicídios diminuíram drasticamente. A Human Rights Watch afirma que El Salvador passou de um dos países mais violentos do mundo para um dos territórios com menor índice de assassinatos no Hemisfério Ocidental.
Para os apoiadores de Bukele, os números demonstram que o Estado conseguiu recuperar bairros antes controlados por facções, reduzir extorsões e devolver liberdade de circulação à população.
A frase que voltou a circular resume justamente essa interpretação: a permanência do crime organizado seria consequência menos da falta de capacidade estatal e mais da ausência de vontade política ou da corrupção interna.
Modelo acumula denúncias de abusos
A estratégia salvadorenha, entretanto, é alvo de fortes questionamentos relacionados aos direitos humanos e ao funcionamento das instituições. A Anistia Internacional documentou denúncias de prisões arbitrárias, tortura, condições degradantes, falta de atendimento médico e centenas de mortes sob custódia estatal. Até dezembro de 2024, mais de 83 mil pessoas haviam sido detidas durante o regime de exceção.
A Human Rights Watch também relata detenções sem provas suficientes, fabricação de evidências, pressão por metas de prisões, desaparecimentos forçados e descumprimento de decisões judiciais.
Entre os atingidos estão moradores de bairros pobres e jovens detidos por denúncias anônimas, tatuagens ou suspeitas de ligação com gangues. As entidades afirmam que parte dessas pessoas não teve acesso adequado à defesa ou a julgamentos individualizados.
O governo rejeita as críticas e sustenta que suas ações desmontaram estruturas criminosas que dominaram comunidades durante décadas. Bukele argumenta que a prioridade deve ser a proteção das pessoas que respeitam a lei e das famílias que foram vítimas das gangues.
Frase simplifica uma discussão complexa
A declaração de Bukele possui forte impacto político, mas apresenta como conclusão geral uma questão que pode variar entre países. O combate ao crime organizado depende de forças policiais, inteligência, investigação financeira, controle de fronteiras, sistema prisional, Ministério Público e Judiciário. Também envolve diferenças territoriais, institucionais e legais.
Em El Salvador, a redução dos homicídios é comprovada pelos indicadores oficiais e reconhecida por organizações independentes. Ao mesmo tempo, permanecem denúncias graves sobre inocentes presos, ausência de garantias processuais e concentração de poder.
A repercussão da frase expõe justamente esse confronto: de um lado, a cobrança por Estados capazes de enfrentar organizações criminosas; de outro, a discussão sobre quais limites não podem ser ultrapassados durante esse enfrentamento.
Bukele disse um dia: Human Rights Watch nunca veio aqui ver o sofrimento do povo, agora destaca o sofrimento dos presidiários.
COMENTÁRIOS