O remédio tóxico que quase todo mundo usava.
Encontrado na maioria dos lares brasileiros nos anos 90, remédio sumiu das prateleiras após proibição da Anvisa
Imagens: Acervo: Farmacêuticos das Antigas) Quem foi criança na segunda metade do século 20 no Brasil certamente se lembra que ralar os joelhos brincando de bola significava passar pela tortura de ter que sentir uma pequena espátula plástica raspando no machucado com um remédio vermelho — que muitas vezes ardia.
Comercializado sob o nome de mercúrio cromo ou mercurocromo — que é o nome certo segundo dicionários —, foi um antisséptico tópico amplamente popular. Tanto que constava na maior parte dos lares brasileiros e era a primeira coisa que se pensava no caso de primeiros-socorros para pequenas escoriações comuns a toda infância.
O remédio sumiu das prateleiras do país há 25 anos, quando uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu a produção e a venda desse tipo de produto porque havia mercúrio na fórmula. O metal é altamente tóxico, mas nessas fórmulas, em tese, não havia um risco direto ao paciente.
"O mercurocromo original tinha como princípio ativo a merbromina, que é um composto organomercurial", explica o químico Adriano Andricopulo, professor na Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências.
"Portanto, ele realmente continha mercúrio, mas não na forma de mercúrio metálico solto, como nos antigos termômetros. O mercúrio fazia parte da própria estrutura química da molécula."
O professor afirma que a ideia da Anvisa ao retirar esse tipo de medicamento do mercado fazia parte de uma política de redução da exposição da população ao mercúrio.
"A preocupação era especialmente importante quando o produto era aplicado repetidamente ou sobre áreas extensas de pele lesionada, situação em que poderia haver maior absorção", lembra o químico.
Ele ressalta contudo, que quem um dia usou mercúrio em um machucado, não precisa se preocupar, já que o contato por si só não significa exposição à intoxicação.
Na época, segundo ele, a própria Anvisa explicou que o problema principal era reduzir fontes desnecessárias e cumulativas de exposição.
A decisão técnica foi um medida preventiva, baseada em estudos da relação entre "benefício, eficácia e segurança". Além disso, já existiam alternativas sem mercúrio para tratar pequenos ferimentos.
O mercúrio cromo foi desenvolvido nos Estados Unidos em 1919
O mercurocromo foi desenvolvido nos Estados Unidos em 1919 e, de lá, ganhou o mundo como um antisséptico prático e acessível para pequenas lesões.
Seu nome oficial é merbromina e a solução que costumava ser aplicada nos machucados geralmente era uma diluição de 2% do composto, a base de mercúrio, em 98% de álcool (daí o ardor) ou água.
O cientista creditado como inventor do composto é o norte-americano Hugh Hampton Young (1870-1945). Cirurgião e pesquisador, ele lecionava na Universidade Johns Hopkins, em Maryland — foi nessa instituição que, com sua equipe, descobriu as propriedades antissépticas da merbromina.
Por ser simples e barata, a solução passou a ser recomendada por médicos ao redor do mundo.
"É importante lembrar que isso ocorreu antes da descoberta da penicilina [que ocorreria em 1928] e muito antes dos antibióticos modernos. Naquela época, prevenir infecções em pequenos ferimentos era um enorme desafio, e a merbromina representou uma inovação importante", contextualiza o químico Adriano Andricopulo.
Mas a partir dos anos 1990, seu uso passou a ser questionado.
A própria medicina passou a entender que havia soluções mais eficientes para desinfetar pequenos machucados, como água e sabão. Especialistas afirmam que para ralados comuns, a melhor solução é água e sabão
Em artigo publicado em 2011, o médico Drauzio Varella recorda que sua avó era adepta do dito popular que apregoa "o que arde cura" e suas memórias carregam uma mistura de sensação de ardor e joelhos pintados de vermelho quando se lembra do futebol com os amigos da infância. A cada ralado, era mercurocromo na certa.
"Sem querer menosprezar a sabedoria da avó de ninguém — muito menos a da minha –, é preciso dizer que, apesar de serem mulheres prendadas, prestimosas, que nos encheram de carinho, nossas vovós não entendiam nada de bacteriologia", escreve Drauzio Varella.
O médico explica: as bactérias mais agressivas podiam inclusive crescer dentro do vidro da solução de mercúrio. E a tal pazinha plástica? Pincelava um machucado e trazia para dentro do frasco bactérias prontas para sobreviverem até serem "semeadas na ferida seguinte".
"A conduta atual diante de esfolamentos, arranhões, cortes superficiais ou profundos pode ser resumida em duas palavras: água e sabão! E mais nada", escreveu Drauzio Varella
E essa é a postura mais adotada atualmente.
"Água e sabão se mostraram muitas vezes tão efetivos quanto esses antissépticos locais. Percebemos que não faz muito sentido usar nenhuma substância porque existem potenciais de irritação", diz o pediatra infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Mercúrio cromo sumiu das prateleiras do país há 25 anos, quando a Anvisa proibiu a produção e a venda desse tipo de produto porque havia mercúrio na fórmula
A pediatra Giulia Lima, pesquisadora no Boston Children's Hospital, nos Estados Unidos, diz que apesar de serem muito populares, nunca foi comprovado que de fato o uso dessas substâncias [à base de mercúrio] preveniam o desenvolvimento de feridas. E ela acrescenta que a tintura vermelha, ao cobrir o machucado, acabava dificultando que, em uma inspeção visual, se verificasse alguma possível complicação posterior.
Adriano Andricopulo acrescenta que produtos antissépticos fortes não são mais recomendados para pequenas escoriações porque embora eliminem microorganismos, também podem lesar células importantes para a cicatrização e retardar o reparo da pele.
"A medicina evoluiu de uma abordagem centrada em desinfetar para uma abordagem baseada em limpar adequadamente a ferida e preservar o processo natural de cicatrização", compara o professor da USP.
Riscos de intoxicação mesmo nunca foram um problema — a não ser que uma criança ingerisse acidentalmente o conteúdo de um frasco ou algo assim.
Adriano Andricopulo diz que apenas exposições a níveis muito altos da substância são capazes de afetar o organismo de alguém — principalmente os rins e o sistema nervoso.
Mas passou a ser considerado também o potencial cumulativo do mercúrio no meio ambiente e a virada dos anos 2000 foi um período em que houve uma certa conscientização no meio científico sobre a necessidade de reduzir ao máximo as possibilidades de que esse metal fosse se espalhando pelos solos e rios.
"Descartes de remédios com mercúrio podiam contaminar terra, água e outros animais, aumentando a concentração do mercúrio no ambiente, que poderia retornar ao ser humano em forma de alimento", pontua Lima. "Não fazia sentido manter."
Em 1998, a entidade norte-americana Food and Drug Administration (FDA) reclassificou o mercurocromo como substância não mais considerada de uso seguro.
Pouco tempo depois, o medicamento foi banido das farmácias dos Estados Unidos. Outros países foram adotando parâmetros semelhantes.
"A proibição no Brasil seguiu determinações da Organização Mundial de Saúde", afirma a bióloga Ionara Rodrigues Siqueira, professora de farmacologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A OMS entendia o problema como algo mais coletivo do que individual, segundo Siqueira. Era uma estratégia tanto de proteção do indivíduo, por conta da toxidade direta dos compostos, quanto do ambiente, já que o mercúrio pode ser bioacumulado, transferido nos passos da cadeia alimentar.
Com a proibição, ficou apenas na memória "o carinho e o assopro dos pais para aliviar o ardido", comenta o farmacêutico Fabio Leonardo Mora, autor do projeto memorialístico Farmacêutico das Antigas, que costuma trazer também histórias de medicamentos antigos nas redes sociais.
"Essas soluções marcaram gerações, nos pátios de escola e nos cuidados."
Alternativas contemporâneas
Do ponto de vista da química medicinal, o mercurocromo é um excelente exemplo de como um medicamento pode ser considerado inovador em uma determinada época e, décadas depois, ser substituído à medida que o conhecimento científico evolui e produtos com melhor relação entre eficácia e segurança são desenvolvidos.
Hoje em dia existem no mercado alternativas ao antigo mercurocromo.
No lugar das problemáticas pazinhas, as formulações costumam ser aplicadas por meio de um spray borrifador — evitando os riscos de contaminação cruzada.
Das antigas marcas que continham mercúrio na fórmula, restou o nome comercial Merthiolate, que era também onipresente em farmacinhas domésticas do século passado.
Desenvolvida em 1927, tinha uma formulação diferente do mercurocromo — mas também continha mercúrio.
"Embora muitas pessoas confundam ambos, eles eram medicamentos diferentes. O mercurocromo tinha como princípio ativo a merbromina, enquanto o Merthiolate continha timerosal, também chamado de tiomersal", explica Andricopulo.
"Os dois eram compostos organomercuriais, ou seja, moléculas que continham mercúrio em sua estrutura química. O Merthiolate […] se tornou um dos antissépticos mais utilizados no mundo durante boa parte do século 20", acrescenta.
Mercúrio e merthiolate faziam parte das farmacinhas domésticas de muitos lares brasileiros
Se o nome comercial existe ainda hoje, a formulação é outra. Agora o produto tem em sua composição um antisséptico chamado clorexidina, um produto químico sintético.
"Durante décadas, o timerosal foi amplamente comercializado como agente antimicrobiano em diversos produtos, incluindo soluções antissépticas tópicas, pomadas para cortes, sprays nasais, colírios, espermicidas vaginais e tratamentos para assaduras" enumera a farmacêutica Tânia Alves Amador, professora na UFRGS.
Ela acrescenta, contudo, que desde o início dos anos 1930 estudos indicavam que a substância "não apenas falhava como agente antimicrobiano, mas também apresentava graves riscos de toxicidade para os seres humanos".
"As coisas evoluíram. Os antissépticos a base de mercúrio foram descontinuados e a clorexidina veio como alternativa mais segura, menos poluente ao meio ambiente e menos irritante ao paciente", analisa Kfouri.
Mas para ralado e machucado comum, os especialistas são unânimes: precisa apenas de água e sabão
"E qualquer sabão serve. Não precisa ser antibacteriano nem nada especial. Isso não faz diferença", garante a pediatra Giulia Lima.
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