Novos estudos atesta efeito positivo dos sucos
Os sucos viraram alvo de ataques nas redes sociais, mas pesquisas acabam com a confusão
Foto: Rouzes/Getty Images Nem o sumo da laranja escapou à patrulha de haters da internet.
Não é de hoje que é acusado de ser calórico demais, de causar diabetes e maltratar o fígado em postagens feitas por influenciadores e até profissionais de saúde.
A questão é que toda essa demonização não se sustenta à luz da ciência.
Pelo contrário: pesquisas recentes mostram que, dentro de um cardápio equilibrado, o consumo de sucos naturais ou com 100% de fruta desbanca mitos divulgados por aí e agrega, sim, benefícios. Inclusive em quesitos aparentemente improváveis como o controle dos níveis de açúcar no sangue.
É um refresco e tanto para uma rotina já tolhida por contraindicações no supermercado, desde que se leve para casa um suco de verdade, e não versões que contêm mais aditivos do que frutas.
A campanha contra esse tipo de bebida nas plataformas digitais se alimenta de extrapolações, erros de interpretação de estudos e colheradas de sensacionalismo.Os inimigos dos sucos põem no mesmo banco dos réus tanto as receitas mais naturais como as ultraprocessadas e batem na tecla de que a frutose, o açúcar das frutas, é particularmente nociva à saúde.
Como todo açúcar, o excesso é desaconselhável, mas a preocupação com a tal da frutose remonta a um ingrediente dos refrigerantes, o xarope de milho em alta concentração, não às moléculas que conferem dulçor aos vegetais.
Isso porque, quando comemos uma fruta ou bebemos um suco extraído dela, não ingerimos apenas açúcar, mas um combo de substâncias como fibras, vitaminas e antioxidantes.
Esse mix de nutrientes ajuda a entender os efeitos positivos do suco de laranja mapeados por experimentos recentes. Em uma pesquisa espanhola, homens saudáveis foram convidados a consumir a bebida 100% fruta ou apenas seu componente açucarado para, na sequência, realizar exames de sangue. O trabalho comprovou que o suco ajuda a retardar a decolagem da glicemia depois das refeições, justamente pela matriz de ingredientes da laranja que vai parar no copo.
Em outro estudo, cientistas belgas fizeram um teste parecido, mas com pessoas com diabetes sob controle - tampouco houve pico glicêmico após a ingestão do suco no café da manhã.
São evidências que liquefazem as acusações contra a bebida.
Na realidade, as repercussões no organismo podem ser até mais vantajosas do que se imaginava.
Em uma experiência da Universidade de São Paulo (USP), vinte voluntários tomaram meio litro de suco de laranja espremida por dia ao longo de dois meses. Após esse período, cederam seu sangue para uma análise sofisticada.
A equipe descobriu que o consumo rotineiro é capaz de ativar genes que regulam a inflamação e a pressão arterial. Na prática, as constatações sugerem que o suco natural tem o potencial de modular o metabolismo e diminuir o risco cardiovascular. Propriedades dignas de um brinde.
Brinde que comporta algumas ponderações, como manda o bom senso à mesa.
Em primeiro lugar, o suco não deve substituir a fruta in natura.
"Ela continua sendo a melhor escolha, principalmente pelo aporte de fibras, que atuam na saciedade e no controle glicêmico", diz a nutricionista Lara Natacci, ph.D. pela USP.
"Mas o suco 100% fruta pode ter um papel complementar na rotina de quem tem dificuldade de consumir vegetais ao longo dia, e sabemos que quase 80% da população não alcança essa meta", prossegue a também vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.
É importante destacar a expressão "100% fruta". Pois, além daquele que se faz em casa no espremedor, suco de verdade à venda no mercado é o que só leva o fruto, partes dele ou a polpa na receita.
"Ele não contém corantes nem conservantes, apenas passa por um processo tecnológico para conservação", afirma Natacci.
Por isso, apesar do apelo das embalagens, o olhar atento ao rótulo é essencial para não levar néctar por suco e cair em pegadinhas, uma vez que nomes e aparências enganam (veja mais no quadro). Refresco ou bebida de fruta, por exemplo, são denominações de produtos que carregam de 4% a 30% do fruto. Não espere encontrar aí as benesses listadas pela ciência.


Embora a laranja seja a protagonista da última colheita de pesquisas, outros sucos 100% fruta, vendidos em caixinhas ou garrafas, também vêm demonstrando seus predicados.
Estudos nacionais destacam o de uva integral pelo potencial de proteger o cérebro.
"Já o de maçã tem compostos capazes de ajudar a modular a flora intestinal e a resguardar os vasos sanguíneos", diz Natacci.
Mais popular lá fora, o suco de cranberry entrou até em diretrizes como um coadjuvante na prevenção de infecções urinárias recorrentes. De novo, o conselho é priorizar os produtos mais próximos de sua roupagem natural. E, enquanto os influencers buscam um novo vilão alimentar, degustar a vida de gole em gole.
COMENTÁRIOS