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Maringá,31/03/2026

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As canetas são seguras para os adolescentes?

Com aumento da obesidade infantil, especialistas explicam riscos e indicações para o uso de canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes

Ana Lucia Azevedo
As canetas são seguras para os adolescentes? Reprodução /Foto: Guito Moreto

A obesidade na infância e na adolescência avança no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), sua incidência quadriplicou na adolescência desde 1990. Dados no Brasil (SUS/Ministério da Saúde) mostram que cerca de um terço dos brasileiros até 19 anos tem sobrepeso.
Nessa faixa etária, 15% têm obesidade e 18%, sobrepeso.
As canetas surgem como opção de tratamento também para elas.
O Brasil está entre os países em que as canetas com semaglutida são autorizadas a partir dos 12 anos.
A tirzepatida (Mounjaro) ainda não recebeu autorização da Anvisa para uso abaixo dos 18 anos. Como para adultos, a semaglutida pode ser usada para tratar obesidade e sobrepeso com doenças associadas.
As canetas surgem como uma saída dadas as poucas opções disponíveis para a obesidade infantil.
Dieta e atividade física sozinhos têm efeitos moderados e a cirurgia bariátrica é considerada por alguns médicos invasiva e difícil de expandir para uma faixa maior da população.
Mas, por fatores que vão do preço alto ao temor da necessidade de uso contínuo e efeitos colaterais, muitas vezes os pais se veem à frente de um dilema.
Porém, tratar nessa faixa etária é crucial para evitar doenças associadas, como diabetes e cardiovasculares, e mortalidade precoce.

Kamyle que fez uma cirurgia bariátrica, de um tipo menos invasivo.

Histórias diferentes mostram o desafio das famílias e suas escolhas
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Kamyle, de 16 anos, fez em janeiro uma cirurgia bariátrica, de um tipo menos invasivo, por videolaparoscopia.
Já os pais de Maria Julia, de 13 anos, relutaram muito, mas decidiram que a caneta poderia dar à filha uma chance de levar uma vida mais saudável — a menina já apresenta um quadro de pré-diabetes e placas nas artérias — e livre de bullying.
Canetas são eficientes para tratar crianças e adolescentes com sobrepeso e obesidade?
Sim. As canetas são eficazes para reduzir peso e circunferência de cintura em crianças e adolescentes com obesidade, inclusive abaixo de 12 anos, com perfil de segurança aceitável, segundo estudos publicado em revistas como JAMA e Nature. Mas só o uso acima dos 12 anos tem autorização.
Precisa começar a tratar cedo?
Médicos dizem que sim. A obesidade na infância é passaporte para diabetes e doença cardiovascular na idade adulta e reduz a expectativa de vida, alerta Lício Velloso, coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da Unicamp. Além disso, essas crianças e adolescentes quase sempre já apresentam, com frequência, quadro de pré diabetes, placas nas coronárias e hipertensão.
Como outros especialistas, ele diz que estudos comprovaram a eficiência e a segurança do uso de canetas (semaglutida) a partir dos 12 anos.
O efeito das canetas emagrecedoras no corpo: entenda como o remédio age em cada órgão
E antes disso?
Ainda não existem estudos suficientes para sustentar a segurança abaixo dos 12 anos. Porém, João Salles, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, observa que isso deve mudar e já há algumas pesquisas mostrando que o uso das canetas é seguro a partir dos 10 anos. Antes, ele considera arriscado pela falta de estudos. Opinião semelhante tem Maria Edna de Melo, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica e chefe da Liga de Obesidade do Hospital das Clínicas da USP. Ela acrescenta que existem estudos menores com crianças de 6 anos, mas ainda é cedo para que exista recomendação nessa idade.
Os estudos sobre o uso de liraglutida e semaglutida (caneta) em crianças a partir de 12 anos são muito bem estruturados, diz Melo.
O estudo mais recente é com a tirzepatida com crianças a partir de 10 anos, com diabetes tipo 2. Mas é um estudo pequeno e ainda não há aprovação da Anvisa para uso da tirzepatida para pessoas com menos de 18 anos.

O dilema dos pais

Maria Edna de Melo vê no cotidiano o dilema de pais em aceitar dar aos filhos um tratamento que pode ser por toda a vida.
— Vai depender do caso. Pode ser que o remédio não seja por toda a vida. Mas a doença da obesidade será. E a infância é período em que mais se precisa intervir porque é quando a chamada memória metabólica se estabelece no tecido adiposo, no sistema nervoso — destaca Melo.
Maria Julia (para evitar bullying, os pais preferem se manter no anonimato e o nome da menina foi trocado) já passou por psicólogo, pediatra e nutricionista. Fez dieta. Não deu certo. Continuou com fome incontrolável. Isso não é “gula”, explicam os médicos. É um distúrbio e se chama hiperfagia, uma fome excessiva, incontrolável e instintiva. As canetas suprimem essa fome.
— Não tem a ver com falta de disciplina e força de vontade, chamar a criança de “gulosa”. Tudo isso é ofensa. Se trata de uma doença — ressalta Melo.
E foi por isso que os pais decidiram que a caneta seria adequada.
A pediatra Danielle Negri de início era contra o uso das canetas na adolescência, mas mudou de ideia ao ver o benefício do tratamento no dia a dia.
— O tratamento com caneta muda radicalmente a perda de peso e a qualidade de vida. Tira jovens da depressão e do isolamento social. Por isso, hoje defendo. Mas precisa ser muito bem orientado, são medicamentos — frisa Negri.

Memória metabólica
Quanto mais cedo a obesidade aparece, mais difícil de combater porque o corpo se habitua a “funcionar” com excesso de comida. Daí ser fundamental combater na infância. Danielle Negri explica que na infância se cria uma espécie de memória nas células. Ela diz que é por isso que nunca se deve dar doces a crianças até os 2 anos. E depois disso continuar limitando o consumo de açúcares e gordura.
— Hoje as mães estão mais conscientes. Mas mesmo assim é difícil. Pão de queijo no lanche e chocolate quente no café da manhã já são ruins. Não precisa muito para engordar — alerta Negri.
O quanto se engorda depende da combinação de fatores genéticos e ambientais (comida hipercalórica e sedentarismo). — Doces são vistos como recompensas. Devem ser trocados por passeios, por exemplo — acrescenta Negri.

Quem pode (e quem não deve) usar as canetas, de acordo com os especialistas
Canetas interferem nos hormônios?

Maria Edna de Melo e  João Salles asseguram que as canetas não interferem ou prejudicam a ação normal de hormônios nem influenciam o desenvolvimento dos adolescentes.
Há riscos específicos das canetas para os adolescentes?
Um estudo na JAMA mostrou que não. O diretor do setor de Obesidade e Pediatria da Universidade da Califórnia, Vibha Singhal, afirma que não existe um único risco conhecido dessas medicações que seja específico de adolescentes ou diferentes dos de adultos, sendo os mais frequentes problemas gastrointestinais, como enjoo e náuseas.

E, além das canetas, quais as opções para os casos mais severos de obesidade na infância e na adolescência?
Existem outras drogas como a liraglutida, mas esta também é uma injeção subcutânea aplicada por caneta. A patente da liraglutida também caiu no dia 20 de março, mas esse medicamento não promove perda de peso tão expressiva quanto a da semaglutida e nem de longe se tornou tão difundida. Também há drogas como sibutramina, são medicamentos mais antigos. Porém, estes são menos eficientes e costumam causar efeitos colaterais.

E a cirurgia bariátrica?
Os casos mais graves de obesidade podem ter recomendação de cirurgia bariátrica. Ela é autorizada a partir dos 14 anos nessas situações.
E há mais de uma opção de cirurgia bariátrica?
Sim. Há mais de 15 tipos, para diferentes perfis de pacientes. Hoje a bariátrica é bem menos invasiva, explica o médico especialista em cirurgia bariátrica Fernando de Barros, do Hospital São Lucas Copacabana, da Rede Américas, e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.
Há técnicas como a sleeve, de manga em inglês, considerada minimamente invasiva, por ser realizada por meio de videolaparoscopia. Esse tipo de cirurgia dura cerca de quatro horas e o paciente pode ter alta no dia seguinte.
A bariátrica continua sendo muitas vezes a escolha para casos graves, tanto em adolescentes quanto em adultos, porque a caneta sozinha não promove a perda de peso de necessária. Mas não há conflito. Podem ser tratamentos complementares. A caneta pode entrar antes ou depois da bariátrica.
A bariátrica é segura para adolescentes?
Cirurgiões asseguram que sim. Ela é autorizada no Brasil a partir de 14 anos.
Quando a escolha é pela bariátrica?
Vai depender do perfil de cada paciente, ressalta Fernando de Barros. E foi o caso de Kamyle Soares, de 16 anos. Ela e a mãe, Katia, concordaram com o médico na recomendação da bariátrica, possível após uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), que reduziu a idade mínima (14 anos) e ampliou critérios de indicação. A cirurgia pode ser feita em pacientes com IMC superior a 30 (obesidade menos severa), se houver alguma doença metabólica associada.
A obesidade é uma doença crônica e eu resolvi operar. É uma frustração enorme tentar, tentar e não emagrecer. Quero qualidade de vida e não desenvolver problemas ainda mais sérios. Também passei muito mal com o remédio anterior (sibutramina), vomitava, ficava o dia enjoada e não quero passar por isso de novo — diz Kamyle.
Ela foi operada em janeiro no Hospital São Lucas, em Copacabana, no Rio, e está confiante que este ano marcará uma nova fase em sua vida. Kamyle começou a engordar cedo e desenvolveu pré diabetes e hipertensão em função da obesidade. Chegou aos 16 anos, com 96 quilos, muito para os 1,63 m da adolescente.
Sua mãe e companheira de todas as horas, Katia, ressalta o sofrimento da filha com o preconceito sem trégua, desde criança, na escola, na rua e até na igreja.

Organizada, focada e muito madura para a idade, segundo Katia, Kamyle ajuda a cuidar dos irmãos e da casa, e é responsável com os estudos. Ela tentava comer menos, mas não conseguia, seja por distúrbio alimentar seja pela oferta permanente em toda parte de “comidas mimadas”, como Kamyle chama pizza e hamburguer.
— As pessoas não entendem que obesidade é doença. São muito cruéis até com criança. E o bullying na escola, de outras crianças e jovens, também é horrível — afirma Katia Soares.
Kamyle
quer perder entre e 20k e 28k e passar a conseguir viver direito, sair com meus amigos, ter uma vida normal.
— Se eu não operasse agora, como iria estar daqui a dez anos?— questiona a moça, que quer trabalhar na área de saúde.
Há cura para a obesidade na infância e na adolescência?
Não. A obesidade é uma doença crônica e recidiva. Todos os tratamentos controlam, mas não curam. Há consenso entre os médicos que precisa ser tratada desde a infância, para evitar o agravamento do quadro, com mais doenças associadas, má qualidade de vida e mortalidade precoce.




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