Walber Guimarães Junior

A revisão da leitura sobre a pandemia, isenta de distorções ideológicas.

Foto do escritor: Walber Guimarães Junior
A revisão da leitura sobre a pandemia, isenta de distorções ideológicas.

Com motivação prioritária política, o Congresso americano desencadeou um intenso processo de revisão de diretrizes e procedimentos em resposta a situações de pandemia, como enfrentados no início da década.
O capítulo principal ocorreu com o depoimento do Dr. Fauci, um dos mais importantes cientistas responsáveis por boa parte dos procedimentos adotados, que à luz da ciência, admitiu leituras diferentes, agora em 2026, em relação às orientações de 2020 e 2021.
Bastou isto para que no Brasil se reacendesse velhas discussões, como se o negacionismo estivesse reabilitado pela revisão admitida pelo Dr. Fauci. Importa registrar com toda ênfase necessária; a ciência não alterou, agora sustentada por estudos de longo prazo, a sua posição em relação ao tratamento precoce, sobre a eficiência da invermectina ou cloroquina ou mesmo sobre a necessidade da vacina, embora, em cada um destes itens, as conclusões estejam ajustadas pela evolução das informações, própria da evolução histórica da ciência nesta área.
Se recuarmos alguns séculos, a Teoria dos Humores, proposta por Hipócrates e consolidada por Galeno, acreditava que as doenças eram causadas pelo desequilíbrio entre os fluidos corporais (sangue, fleuma, bile amarela e a negra), logo, por extensão, o combate à febre, por muito tempo recomendava a “purgação”, sangria para reduzir o excesso de sangue que deveria reduzir o “calor”. 
O estudo posterior da anatomia revisou o conhecimento, assim como a Teoria dos Germes, produziu outra revolução nos procedimentos médicos. 
Todavia, cientista e médicos do período anterior não podem ser tomados como charlatões, simplesmente porque a liturgia médica aplica os conhecimentos disponíveis, da melhor maneira possível, até que a dinâmica da ciência evolua e traga novas informações.
Na pandemia, sem histórico de procedimentos ou estudos, as decisões precisaram ser urgentes e baseadas no conhecimento disponível, com a menor margem de erro possível, ainda que o fator tempo tenha pressionado por decisões questionáveis e que, agora com estudos consolidados, passam por uma responsável reavaliação.
Nada que reautorize as leituras políticas, populistas ou ideológicas, mesmo quando as revisões comprometam decisões anteriores, nada que altere a necessidade dos poderes políticos constituídos de seguir ao comando da ciência. 
De maneira objetiva, vamos revisitar algumas questões que o novo depoimento do Dr. Fauci sugere, enfatizando que sua conduta explica claramente a evolução natural do conhecimento, não como farsa ou admissão de má-fé;
Em relação ao distanciamento, embora listado como importante, não havia nada de científico na definição dos dois metros de distanciamento, sendo adotado unicamente como medida empírica, que os estudos demonstraram ser ineficiente. 
Embora existam consenso absoluto e que as máscaras de alta filtragem reduzam a carga viral individual, estudos não conseguiram determinar qualquer resultado consistente na redução de propagação comunitária, ainda que prejudicada pela baixa adesão, uso incorreto e uso de máscaras de baixa qualidade.
Os estudos também sugerem que lockdowns rigorosos tiveram um impacto marginal na redução da mortalidade total, estimado entre 3% a 10%, quando comparados a medidas menos intrusivas, como o distanciamento voluntário e a proibição de grandes aglomerações. Sua principal utilidade foi "achatar a curva" para evitar o colapso hospitalar imediato, mas não para eliminar o vírus.
As indicações são positivas para tratamento precoce, com antivirais específicos, como o Paxlovid, que reduzem drasticamente as internações se aplicadas logo no início.
A conclusão acerca da ineficácia da Cloroquina e da Invermectina também é definitiva porque não possuem nenhum benefício clínico direto no tratamento ou prevenção da Covid-19.
Reiterando com todas as letras; o tratamento precoce é um dos pilares da medicina moderna, sendo recomendado e vital, mas o uso de “kits” foi apenas um desvio de conduta.
Em relação às vacinas, fundamentais no combate e controle destas situações, os estudos são categóricos em apontar para sua baixa durabilidade contra a infecção, mas é inquestionável sua alta eficácia contra casos graves, hospitalizações e mortes.
A evolução do vírus, inevitável, é a principal razão da revisão das vacinas como imunizantes esterilizantes para efetiva proteção contra desfechos graves.
Sem peso ideológico, a humanidade precisa evoluir à luza da ciência, com expurgo absoluto das contaminações ideológicas, admitindo o fim da era da "infalibilidade burocrática" na saúde pública, mas consciente que a gestão da pandemia envolve decisões políticas que precisam ser tomadas sob o manto da ciência, muitas vezes sem o rigor comprobatório que a emergência exige e sabendo que o conhecimento não é um livro lacrado, mas dinâmico e progressivo com a constante evolução, como qualquer foco na história comprova ser necessário.
Nenhum governante tem o direito de sugerir “cura milagrosa”, ignorar a ciência ou mesmo politizar o debate sobre o tema, qualquer teimosia nestas questões se reflete nas curvas ascendentes de vítimas, sendo também exigência fundamental que sempre que as escolhas estejam baseadas em avaliação de valores e risco, esta informação esteja ao alcance do cidadão comum.
Lamentável que, de novo, este debate esteja pautado em nosso processo eleitoral, como se estas definições estivessem submetidas a leituras ideológicas e não à rigorosa análise de custo-benefício e à estrita obediência ao conhecimento científico disponível.
Nenhuma ferramenta técnica, medicamento ou instrumento pode ser transformado em símbolo de identidade partidária, como regra para nos afastar do obscurantismo e da idiotização de boa parcela da população que, refém da paixão política, prefere acreditar no seu ídolo político ao conhecimento científico.
 Na contramão, a nenhum político é dado o direito de transformar decisão política em “ciência” quando, objetivamente, faltam elementos que a autorizem.
Infelizmente, não há nenhuma lei que nos proteja do populismo barato que coloca interesse eleitoral à frente do bom senso e apenas o exercício do voto pode servir como filtro para políticos ou partidos sem consciência pública. 
Faça a sua parte em 2026.



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