Claudinei Silva - Terapeuta

Por que uma pessoa se torna adicta?

Reprodução/Autor
Por que uma pessoa se torna adicta?

Quando falamos sobre adicção, ainda existe uma tendência de olhar apenas para aquilo que a pessoa consome.
Álcool, drogas, pornografia, jogos, comida ou outros comportamentos acabam ocupando o centro da discussão.
Mas existe uma pergunta anterior e, na minha visão, mais importante: por que aquela pessoa passou a precisar daquela experiência?
Uma pessoa não se torna adicta simplesmente porque experimentou algo prazeroso.
A adicção é um fenômeno complexo, no qual fatores biológicos, psicológicos e sociais se encontram. Predisposição, ambiente, experiências de vida, disponibilidade da substância ou comportamento, aprendizagem, estresse e saúde mental podem participar desse processo.
Existe, porém, um aspecto importante para compreendermos terapeuticamente: em algumas pessoas, o comportamento adictivo também passa a exercer uma função.
O álcool pode diminuir temporariamente uma tensão.
A pornografia pode oferecer excitação e fuga.

A comida pode produzir conforto.
Determinados comportamentos podem gerar alguns minutos de alívio diante de ansiedade, solidão, frustração, vergonha ou outras experiências difíceis.
O cérebro aprende essa associação.
Quando uma determinada experiência produz recompensa ou alívio, existe uma tendência de repetição. Com o tempo, aquilo que começou como escolha pode se tornar cada vez mais automático, enquanto consequências familiares, profissionais, financeiras e emocionais começam a aparecer.
É por isso que dizer para uma pessoa adicta simplesmente “você precisa parar” costuma ser insuficiente. Muitas delas já sabem disso. Conhecem as consequências e, frequentemente, sofrem profundamente com elas.
A questão é compreender o que mantém aquele ciclo.
É justamente nesse ponto que minha abordagem terapêutica pode atuar como parte de um processo multidisciplinar. Em vez de observar apenas o comportamento final, procuro compreender os padrões emocionais, experiências, relações e respostas aprendidas que podem estar contribuindo para a manutenção daquele comportamento.
Não se trata de afirmar que todo vício nasceu de um trauma ou que trabalhar questões emocionais, sozinho, resolve uma dependência. Dependências podem exigir avaliação médica, psiquiátrica, psicoterapia, acompanhamento especializado, grupos de apoio e outras intervenções.
Em algumas substâncias, inclusive, interromper o uso abruptamente pode representar risco e requer supervisão médica.
O trabalho terapêutico entra como aliado justamente porque parar um comportamento não significa necessariamente ter aprendido a viver sem a função que ele exercia.
Se retiramos a substância, mas não ajudamos aquela pessoa a construir novas maneiras de lidar com sofrimento, frustração, vínculos, limites e emoções, uma parte importante do problema pode continuar presente.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes diante da adicção não seja somente:
“Do que essa pessoa precisa parar?”
Mas também:
“O que ela precisará aprender a enfrentar, sentir e construir quando não puder mais recorrer àquilo que durante tanto tempo utilizou para aliviar o que sentia?”
É nesse espaço que tratamento médico, acompanhamento especializado, rede de apoio e trabalho terapêutico podem deixar de competir e começar a trabalhar na mesma direção: devolver autonomia para uma vida que deixou de ser governada pela repetição.

Claudinei Silva
Terapeuta e Mentor



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