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Maringá,06/06/2026

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OPINIÃO & OPINIÃO

Maringá cogita escolas cívico-militares e restringe movimento espontâneo de jovens

Foto: Roberto Dziura Jr. / AEN
Maringá cogita escolas cívico-militares e restringe movimento espontâneo de jovens

A Secretaria de Educação de Maringá (Seduc) confirmou a abertura de uma consulta pública para avaliar a implantação do modelo cívico-militar nas escolas municipais.
Pelo projeto, haverá uma divisão de tarefas dentro das instituições: o corpo docente civil e a direção continuam com total autonomia sobre o conteúdo pedagógico, planos de aula e avaliações, enquanto profissionais da área de segurança ou militares da reserva assumem a gestão administrativa, a organização dos pátios, os horários e as diretrizes de disciplina e conduta.
O cronograma da consulta prevê a aplicação de questionários e a realização de reuniões presenciais com pais, professores e funcionários de cada comunidade escolar para decidir se o modelo será adotado ou rejeitado.
A prefeitura justifica a medida como uma estratégia para fortalecer a segurança, combater a violência escolar e estabelecer o que chama de cultura de paz, focando na padronização do comportamento e na rigidez da conduta dos alunos já nos primeiros anos de formação.
Caso a comunidade dê parecer favorável nas assembleias e questionários, a proposta ainda precisará tramitar pela Câmara Municipal, onde os vereadores votarão o projeto de lei para autorizar o convênio, a criação das vagas de monitores e o repasse de verbas para o novo formato de gestão.
Fora da escola
Embora o debate esteja concentrado no ambiente escolar, a busca por prever comportamentos e delimitar regras estritas de convivência coincide com um desenho que começa a se repetir do lado de fora do ambiente educacional. Recentemente, a intersecção da Avenida Herval com a Rua Arthur Thomas, que havia se tornado um ponto de encontro espontâneo e noturno da juventude universitária, passou por uma transformação drástica.
Sob a justificativa de conter o ruído e organizar o fluxo a pedido de moradores, o município implementou decretos restritivos de trânsito e proibição de estacionamento na madrugada.
A consequência direta tem sido o esvaziamento da área. A decisão administrativa resolveu o problema do barulho centralizando uma escolha: o espaço da avenida principal deve priorizar o silêncio e o tráfego, enquanto a permanência e o convívio informal dos jovens deixam de ter lugar ali.
Poucos quilômetros dali, na Vila Olímpica, a instabilidade na gestão do espaço público e das expressões juvenis assumiu contornos ainda mais visíveis.
Paredes do complexo esportivo que haviam sido cobertas por grafites — resultado de um edital público anterior que reuniu diversos artistas locais para desenvolver as intervenções — foram cobertas por camadas de tinta verde.
O episódio expõe uma contradição no tratamento dado à cultura urbana: mesmo as manifestações que nasceram sob a chancela e o financiamento institucional do município acabaram apagadas pela própria administração, subordinando a permanência da arte de rua a decisões momentâneas de ordenamento e apagamento estético.
Quando se cruzam esses cenários, a discussão sobre o destino das escolas municipais ganha uma nova dimensão. A introdução de rotinas de vigilância, uniformização e cumprimento estrito de condutas para crianças começa a parecer o primeiro passo de um aprendizado mais longo.
O estudante que absorve, desde cedo, a dinâmica de pátios ordenados e o respeito a regras rígidas de circulação na escola é o mesmo cidadão que, no futuro, caminhará por avenidas centrais silenciadas e por complexos públicos onde a vivacidade e as expressões culturais genuínas deram lugar à previsibilidade e à ausência de contestação
Maringá frequentemente celebra seus rankings nacionais, figurando no topo das listas de melhores cidades do país para se viver, criar filhos e investir.
São títulos que destacam o planejamento urbano, os índices de segurança e a qualidade de vida.
No entanto, as recentes decisões que poderão moldar a rotina escolar e que já tem moldado o uso das ruas convidam a uma reflexão sobre a amplitude desse bem-estar.
A consulta pública que a Seduc realizará nos bairros decidirá um modelo administrativo para as salas de aula, mas, no fundo, também coloca à prova o espaço reservado à juventude, à pluralidade e à própria espontaneidade dentro da engrenagem da melhor cidade para se viver.

Thaís Almeida

Jornalista e redatora, com experiência em diferentes frentes da comunicação: colunas de notícias, reportagem de rua e produção e apresentação de programas ao vivo.
Minha atuação se concentra em temas como política e questões raciais.



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