500kg de cocaína em avião iriam para Europa
Avião com droga foi interceptado pela FAB no interior de SP
Reprodução Investigações da Polícia Federal (PF) apontam que uma apreensão de 500 kg de cocaína encontrados em um avião bimotor no interior de São Paulo impediu que a droga fosse enviada para a Espanha por um dos traficantes mais procurados do mundo, o sérvio Antum Mrdeza, também conhecido como Nikolas Boro. Na última terça-feira (2/6), ele foi alvo da operação Narco Sky, que apontou sua relação com traficantes brasileiros supostamente ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Boro, que está na lista de difusão vermelha da Interpol, não foi localizado.
A apreensão citada pela PF ocorreu em junho de 2020 na cidade de Fernandópolis.
Segundo a investigação, o avião, de prefixo PT-RAS, partiu do Pará, parou para abastecer no Mato Grosso e decolou em direção ao estado de São Paulo. No caminho, foi interceptado por aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) e obrigado a descer.
Dois homens que estavam no avião foram presos em flagrante por agentes federais e policiais militares.
O elo entre o incidente e o traficante sérvio foi estabelecido pela PF a partir de conversas extraídas do aplicativo de mensagens criptografadas Sky ECC, a partir da apreensão do celular de Marco Aurélio de Souza, o Lelinho, preso pela PF em maio do ano passado, e apontado como um braço do PCC no tráfico internacional.
“A análise das comunicações evidencia que a empreitada teve início com um planejamento mais amplo, no qual Lelinho foi contratado por fornecedores internacionais para inserir cerca de 500 kg de cocaína no navio Panorea, inicialmente fundeado no porto de Paranaguá/PR”, diz a Polícia Federal na representação que deu origem à Narco Sky.
A investigação aponta que a carga apreendida no interior de São Paulo teria provocado “atraso significativo” na partida do veleiro, “gerando inclusive tensões internas entre os membros da organização, especialmente entre a equipe brasileira e o capitão estrangeiro“. A partida da embarcação ocorreu em 30 de julho de 2020, do Porto de Santos.
“Esse evento paralelo […] evidencia a conexão entre a remessa marítima e a utilização da aeronave PT-RAS como meio de transporte interno da droga, demonstrando a existência de uma cadeia logística integrada, envolvendo diferentes modais (aéreo e marítimo) para viabilizar o tráfico internacional”.
Núcleo estrangeiro
Segundo a PF, os diálogos encontrados indicam que os traficantes internacionais, que estão na lista vermelha da Interpol, faziam parte de um “núcleo estrangeiro” de financiamento das ações que seriam ligadas ao PCC. “Não se está diante de mero fornecedor periférico ou de interlocutor ocasional.
Ao contrário, os elementos constantes do procedimento evidenciam que Antum Mrdeza integrava o núcleo estrangeiro de financiamento, direção e articulação de remessas internacionais de cocaína, mantendo interlocução direta com Lelinho para viabilizar operações marítimas de grande porte a partir do litoral brasileiro”, afirma a Polícia Federal.
“A interlocução de Marco Aurélio de Souza não se dava com operadores secundários, mas com indivíduo que, segundo a própria investigação, se apresenta como ‘mega narcotraficante internacional’”, acrescenta a PF.
Modus operandi - Segundo a Polícia Federal, Lelinho e traficantes internacionais trocavam mensagens sobre a operação, combinavam a organização das cargas de droga e mudavam de aparelhos frequentemente para evitar qualquer rastreamento. Após combinarem o envio, os investigados usavam aeronaves para o transporte interno da droga até o litoral, onde a carga era transferida para o modal marítimo.
O grupo pagava tripulantes e marinheiros para executarem uma técnica de içamento e esconder a cocaína em contêineres refrigerados para efetuar o transporte.
Na prática, a droga era levada até navios mercantes ou veleiros e içada para bordo com a ajuda de cordas. Os tabletes de cocaína eram ocultos em compartimentos específicos, como o motor de sistemas de refrigeração, onde a droga podia chegar escondida e útil na hora do desembarque.
A organização também utilizava bolsas estanques, boias de sustentação, dispositivos de GPS e lanternas para sinalização noturna em alto-mar para monitorar a localização das cargas.
Os alvos da operação
Antun Mrdeza (vulgo “Jhon Gotti” ou “Nikola Boro”): apontado como um meganarcotraficante internacional, integra o núcleo estrangeiro de financiamento e direção das remessas. Ele é proprietário de ativos logísticos (como o veleiro Mobydick) e de parte das cargas de cocaína, exigindo prestação de contas dos operadores locais, de acordo com a PF.
Alejandro Salgado Vega (vulgo “Tigre”): narcotraficante espanhol de alta relevância, responsável pela coordenação de grandes remessas para a Europa. Atua como financiador e coproprietário das drogas, monitorando riscos de fiscalização e coordenando o resgate das cargas em território estrangeiro, de acordo com a PF.
Marco Aurélio de Souza (vulgo “Lelinho” ou “Pirata”): é o líder e coordenador central no Brasil. Atua como elo entre os fornecedores estrangeiros e a estrutura local, gerenciando a guarda, movimentação e a inserção da droga em navios e outras embarcações nos portos brasileiros.
Pedro Alonso Camacho Fernandez (vulgo “Vince”): atua como coordenador logístico transnacional e ponto focal no Brasil. Intermedeia a comunicação entre financiadores e executores, organiza o içamento da droga para os navios e planeja detalhadamente as operações de resgate da carga no mar europeu.
Antônio Greg Ribeiro Pinheiro (vulgo “Fisherman”): operador logístico portuário especializado em atividades marítimas. Sua função principal é a fase crítica de inserção física da droga nas embarcações, cooptando tripulantes e coordenando o carregamento clandestino.
Klaus de Castro Rios Motta e Silva: ocupa uma posição técnica qualificada, sendo responsável pela preparação e manutenção de embarcações (especialmente veleiros) utilizadas no tráfico transoceânico, garantindo a viabilidade técnica das travessias.
Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra (vulgo “Sapão” ou “Sapo”): Atua no suporte operacional, cuidando da movimentação e custódia da droga em solo nacional e alertando o grupo sobre fiscalizações policiais.
Walter Pires Junior (vulgo “Waltinho”): integrante da base operacional vinculado a Lelinho, executa tarefas de armazenamento, transporte interno e preparação do entorpecente para embarque.
Ivan de Freitas Santos (vulgo “Ivan”): agente de execução que presta apoio logístico na preparação e transporte das cargas ilícitas destinadas à exportação.
Rafael Gonçalves Sayão (vulgo “Cabelinho”): participante ativo no fluxo de comunicações criptografadas do grupo, exercendo funções de apoio operacional e transmissão de informações estratégicas.
Frota de Lelinho
A operação Narco Vela, deflagrada pela Polícia Federal em abril de 2025, apontou o empresário Marco Aurélio de Souza, o Lelinho, como um dos principais articuladores da exportação de cocaína do Primeiro Comando da Capital (PCC) à Europa por meio de veleiros e pequenas lanchas.
Segundo a PF, ele seria o responsável pelo envio de 2 toneladas da droga à Espanha, em julho de 2022, além de uma série de outras operações. O crime foi descoberto pela Guarda Civil Espanhola na cidade de Aldea de San Nicolás.
A partir da quebra de sigilos telemáticos, foi possível identificar um número usado na contratação da embarcação seria de uma empresa, a Jacksupply Assessoria de Bordo e Comércio Exterior, que, segundo as investigações, seria controlada por Lelinho por meio de um testa de ferro e teria como base operacional a Baixada Santista.
“Indícios robustos sugerem que o investigado, embora formalmente vinculado ao setor marítimo, utiliza-se dessa posição empresarial como meio de viabilizar e dissimular atividades ilícitas”, diz a Polícia Federal.
Lelinho teria montado uma frota de pequenas embarcações para operacionalizar o envio dos entorpecentes. De acordo com a Polícia Federal, o esquema de envio de cocaína ao exterior tinha início em pequenas lanchas, que transportavam a droga até veleiros em alto-mar, que faziam a travessia pelo Oceano Atlântico.
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