OPINIÃO & OPINIÃO
Não faltam homens no mercado: falta disposição para construir relações
O mundo continua cheio de pessoas interessantes. O problema é que muita gente já não sabe construir permanência afetiva
Tem uma frase que se tornou quase um mantra moderno dentro das rodas femininas: “não existe homem no mercado”. E toda vez que eu escuto isso, me pergunto: será mesmo? Será que os homens desapareceram? Ou estamos vivendo uma geração que já não sabe permanecer dentro de uma relação?
Os homens também estão cansados. Cansados de relações superficiais, de jogos emocionais, da obrigação de parecerem fortes o tempo inteiro.
Cansados de serem desejados apenas enquanto performam segurança, estabilidade e sucesso.
Enquanto muitas mulheres reclamam da ausência de homens disponíveis, muitos reclamam da dificuldade de encontrar reciprocidade emocional, leveza e paz dentro dos vínculos.
Durante muito tempo, as mulheres foram ensinadas a aceitar pouco. Felizmente, aprenderam a selecionar mais. O problema é que, no meio desse movimento necessário de autoestima e independência, algumas pessoas passaram a transformar critério em rigidez emocional.
Criamos uma vitrine afetiva. As pessoas passaram a se analisar como se estivessem diante de um catálogo: altura, salário, aparência, estilo de vida, status, seguidores, performance emocional.
Tudo virou filtro, comparação, seleção. Só que relacionamento nunca foi recrutamento. Hoje, muita gente entra em uma relação já calculando riscos, medindo vantagens, tentando prever frustrações.
As conexões ficaram rápidas, descartáveis e, muitas vezes, superficiais.
As pessoas desaprenderam a lidar com desconforto emocional. Qualquer frustração vira motivo para afastamento, qualquer imperfeição parece suficiente para desistir. E não, essa coluna não é sobre culpar mulheres.
É sobre perceber o que estamos nos tornando dentro das relações. Existem homens incríveis, e mulheres incríveis também. Mas há cada vez mais pessoas feridas tentando amar sem baixar as próprias defesas.
A conta emocional começa aí. Dois lados cansados, seletivos e emocionalmente indisponíveis tentando encontrar afeto enquanto escondem suas fragilidades.
Depois, reclamam da falta de conexão enquanto levantam muros cada vez mais altos ao redor de si.
O mundo continua cheio de pessoas interessantes. O problema é que muita gente já não sabe construir permanência afetiva.
Encantar ficou fácil, mas sustentar relações ficou ainda mais difícil. Depois que a novidade passa, o que mantém uma relação já não tem nada a ver com encanto.
Tem a ver com maturidade emocional, conversa, admiração, paciência e disposição para lidar com as imperfeições, os conflitos e a realidade do outro.
A verdade é que muita gente quer viver o amor, mas poucas pessoas estão realmente preparadas para tudo o que ele exige.
Allys Terayama
Allys Terayama é sexóloga, pós-graduada em sexologia multidisciplinar e especialista em sexologia forense, terapeuta acupunturista em medicina integrativa e medicina tradicional chinesa, além de graduanda em biomedicina. Atua promovendo saúde integral com foco no equilíbrio entre corpo, mente e sexualidade. Seu trabalho é guiado pelo propósito de resgatar a autonomia do prazer, acolher histórias com sensibilidade e transformar vidas com ciência, escuta e empatia.
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