Walber Guimarães Junior
Sem Dark Horse na sucessão nacional?
O furacão Vorcaro balançou as estruturas do clã Bolsonaro, mas, conforme indicam as primeiras pesquisas, Flavio Bolsonaro sobreviveu ao primeiro momento, segue em um dos polos da polarização e tem tempo para recompor números e tentar evitar o quarto mandato de Lula, mas a tempestade pode não ter se encerrado.
Lógico que, do lado direito da sucessão, o sentimento de decepção generalizada é visível por conta do comportamento inaceitável de seu candidato principal.
Muito mais que mentir seguidamente, suas ações geram incertezas em relação á suas ações e, de maneira contundente, até sobre seu caráter, pelas trapalhadas, mentiras e dúvidas que restam da sua relação de “irmandade” com Daniel Vorcaro.
Várias questões ainda incomodam e, não custa lembrar, ainda restam meia dúzia de celulares de Daniel a serem vasculhados e tem muita gente sem dormir na Capital Federal. Vamos tentar percorrer algumas destas perguntas ainda sem respostas.
Não precisa ser crítico nem entendido em cinema para saber que, na pior das hipóteses, o filme custou no máximo quarenta milhões, valor que se foi superado se devem à artifícios contábeis. Basta comparar com uma infinidade de produções lançadas no mercado nos últimos anos. Apontar valores superiores a cento e trinta milhões ofende a inteligência e surge uma questão crítica; quanto foi efetivamente arrecadado, porque só do Master foram realizados sessenta e um milhões, e, certamente, houveram diversos outros patrocinadores e doadores para o filme, e ninguém sabe onde foi parar o saldo destes valores, suspeitas que ainda se avolumam pela estranha coincidência da criação de um fundo desnecessário, exatamente pelo advogado de Eduardo Bolsonaro que, ainda mais estranho, resolve investir em um imóvel exatamente no Texas, próximo de onde reside atualmente o irmão desertor.
Alguns detalhes, que serão explorados pelos petistas, são realmente difíceis de entender, sem que se suspeite de relações pouco republicanas entre os irmãos Flávio e Daniel.
Onde está o bom senso de ligar para uma cobrança de dinheiro na véspera da prisão de Daniel?
Quais razões motivam uma visita ao ex-banqueiro no dia seguinte de seu retorno para casa, já com uma tornozeleira eletrônica, quando as hipóteses sobre depoimentos e até delação premiada já estavam listadas como alternativas previstas? Não há resposta que tranquilize nem o mais fiel dos bolsonaristas, embora, exclusivamente por razões pragmáticas, o dano menor é fingir demência e seguir com o mesmo candidato para não permitir folga ainda maior ao candidato à reeleição Lula.
Podemos projetar que o prejuízo é muito menor na bolha fiel bolsonarista, sempre dispostos a assumir as narrativas emitidas pela sua competente comunicação, mas complexa no universo de eleitores indecisos, divididos desde a centro direita até a centro esquerda. Para este público, a narrativa de imensa defasagem moral entre os líderes, cai por terra, pelas trapalhadas e suspeitas sobre Flávio que, ainda alimentam as suas contradições anteriores, como rachadinhas e relação com milicianos, mas, dá quase para cravar; Flávio Bolsonaro sobrevive e vai seguir competitivo na disputa.
Não há espaço para dark horse na sucessão nacional.
A questão é que a construção de um nome alternativo exige uma conjunção de fatores que não parece viável no curto espaço de tempo disponível. A mídia tradicional já dividiu seus espaços em porções generosas entre os dois líderes e os espaços digitais estão fortemente aparelhados pelas tropas de esquerda e de direita, sendo a última mais barulhenta e competente e, quando se olha para o quadro político, é importante entender que a sobrevivência das legendas não está vinculada ao pleito majoritário, mas pela necessidade de garantir boas bancadas na Câmara Federal, missão muito mais fácil quando se frequenta palanques mais densos de candidatos favoritos.
As alternativas mais visíveis sofrem com as limitações de suas legendas; Romeu Zema tenta navegar no e barquinho do Novo, sem força para cobrir todo o território nacional e Ronaldo Caiado segue sua luta apenas uma parcela de sua legenda, sendo previsível que o sempre oportunista PSD faça a opção pela carona mais adequada em cada unidade da federação, sem nenhuma vocação para aventuras eleitorais. Observem que nem mesmo nets período de instabilidade de Flavio, nenhum deles consegue absorver mais atenção ou preferência eleitoral.
As demais alternativas seguem em um limbo, onde apenas a parcela mais atenta do eleitorado consegue enxergá-los, mesmo o barulhento e eloquente Renan Santos, a bordo do seu Missão. Resta ainda a presença inusitada de ex-ministro Joaquim Barbosa, de excelente currículo, bela história de vida, bom recall entre os brasileiros, mas que, aparentemente, chega oito anos atrasado à cena política.
Poucas variáveis podem alterar o curso destas eleições, inclusive com a improvável delação de Vorcaro e, exceto por novos capítulos não revelados sobre Flávio Bolsonaro, nada deve alterar a polarização que incomoda, derruba o nível da disputa, mas retrata o nível sofrível da nossa política.
Então o que mudou? A despeito de mudanças suaves nos números das pesquisas, com Lula passando à frente, a grande alteração é que a sempre importante expectativa de vitória aponta agora com mais força para o lado esquerdo.
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