Walber Guimarães Junior
Qual o número do teu malvado preferido?
O Banco Master é um dos mais escandalosos casos de corrupção da história brasileira, com um enredo que inclui todo o Código Penal e um elenco que engloba estrelas de todas as constelações da política brasileira.
É ecumênico e, sem preconceitos, contratou personagens de todas as esferas de poder, colocando na mesma planilha de pagamentos gente do primeiro escalão do Executivo, Legislativo e Judiciário.
Daniel Vorcaro é um excelente subproduto que emerge do lodo fértil que envolve as nossas relações do topo da nossa pirâmide de poder.
Permeável, frequentou todos os ambientes, algumas vezes precedido de “maçanetas” de alto calibre, que lhe permitiram sentar-se à mesa e dividir o pão com autoridades e excelências, falando uma espécie de “esperanto” financeiro, com cifras e números com incrível poder de convencimento. Realmente, sedutor, colecionou “amigos” e muitos “mermãos” sempre sedentos de padrinhos e financiadores de suas ambições e projetos de poder.
Dias Tofoli, Alexandre de Moraes e Nuno Marques, todos do STF, ex-governadores como Claúdio Castro do RJ e Ibanes do DF, dentre outros, Davi Alcolumbre que lhe arrombou todas as portas do seu Estado, Ciro Nogueira que da cadeira de chefe da Casa Civil pode ter sido a intermediação mais convincente para que o ex-presidente do banco Central, Campos Neto, ambos da gestão Bolsonaro, fosse acometido e súbita e inexplicável condescendência com as solicitações criminosas do Master, foram todos eles tomados de incontrolável apego ao galã Vorcaro, para limitar a lista apenas aos mais notórios vazamentos de um dos oito celulares de Daniel.
Vamos ser francos; troque estes nomes pelo seu ou pelo meu e estaríamos desfilando com uma linda tornozeleira.
Por fim, para zero surpresa de qualquer observador isento da cena política, Flavio Bolsonaro é flagrado em conluio, cobrando, porque já era acordo anterior, uma singela contribuição de 24 milhões de dólares para finalizar um documentário sobre seu pai que, com muito boa vontade, pode ter custado 20% deste valor.
Despindo o traje de Velhinha de Taubaté, do grande Veríssimo, muito mais que construir uma história convincente, Flavio precisa explicar as razões dos cem milhões de reais excedentes.
É propina, suborno, doação política, ação entre amigos?
O cargo pretendido pelo personagem deveria lhe impor o dever de detalhar a sua irmandade com o meliante.
Ainda que some situações constrangedoras em seu currículo, como ligações com chefes do crime, milicianos, rachadinhas e compras milionárias de imóveis em dinheiro vivo, Flavio Bolsonaro seguirá como forte candidato do polo direito, simplesmente porque nosso padrão ético está próximo do piso e o raciocínio cruel do manual de maldades informa que um chefe vulnerável é muito adequado para a penumbra necessária para “negócios especiais” do andar de cima.
Como nas edições anteriores, a sucessão presidencial desenha-se não como um debate de projetos, mas como um acordo entre elites que fingem se odiar para manter o público entretido.
A polarização entre o lulismo resiliente e a herança dinástica de Flávio Bolsonaro é a linguagem universal que ambos falam fluentemente: uma simbiose onde um precisa da ameaça do outro para justificar a própria existência.
A fragmentação da direita não é um sinal de pluralidade, mas de canibalismo calculado do centrão. Enquanto buscam uma "terceira via" que mais parece uma miragem no deserto ético, os partidos de direita se esfarelam em projetos personalistas, provando que o discurso moralista foi apenas o lubrificante necessário para as engrenagens do poder em 2018.
O sistema, como um clube de sócios exclusivos, já começou a distribuir as fichas para a próxima rodada, onde o objetivo não é mudar o país, mas garantir que a chave do cofre mude de mãos sem nunca sair do mesmo círculo social.
Como nas salas fechadas dos grandes cassinos, o jogo de poder do Brasil, não aceita outsiders, é um ambiente lacrado onde apenas sócios dividem os prêmios, sempre com seus cacifes bancados pelos parceiros invisíveis do mercado financeiros ou grandes empresários que transitam no Palácio do Planalto onde, como investidores espertos, bancam fundações, palestras, viagens ou filmes, indulgências com melhor embalagem que as velhas maletas recheadas de dinheiro.
É só mais um capítulo sujo da nossa realidade política e, como na cena bíblica, praticamente ninguém pode jogar a primeira pedra, portanto, revoltados com a “distração” de Flávio, mas cientes que, após comprar o ingresso, não dá para torcer pelo adversário, pelo menos até o intervalo, a direita, ainda que precise promover alguns ajustes no discurso de moralidade, seguirá firme com o mesmo candidato porque qualquer substituição pode ser fatal aos sonhos de chegar ao poder.
Ao fim e ao cabo, a direita brasileira encontra-se hoje no purgatório dos hipócritas, equilibrando-se precariamente entre o espólio de um messianismo falido e o pragmatismo abjeto da sobrevivência.
O que se vê não é uma reorganização de forças, mas a autópsia de um discurso moralista que morreu de inanição ao primeiro contato com a Realpolitik do orçamento secreto.
Condenada a ser o satélite de uma polarização que a alimenta e a consome, a direita descobre, tarde demais, que no grande banquete do poder em Brasília, quem não se senta à mesa como sócio, acaba invariavelmente no cardápio.
O destino desse bloco é o abraço de afogados com o sistema que jurou destruir, provando que, no Brasil, a única ideologia que sobrevive ao inverno das urnas é o instinto de rapina travestido de salvação nacional.
Talvez nos reste a ilusão de parafrasear o Hino da Inglaterra, com o célebre refrão “God save the Queen”, ajustada por lá com a atualização do “King” que, por aqui seria muito conveniente com a expressão “people”. Sim, “people”, um conjunto enorme de brasileiros do segundo andar que se digladiam, que lutam, que acreditam e para os quais sobra apenas a possibilidade de escolher o seu “malvado preferido”.
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