Promessas podem esbarrar nas contas públicas em 2027

Lula ou Flávio: próximo presidente terá de enfrentar crise fiscal, gastos públicos e país dividido

Daniel Pereira, Hugo Marques /Edson Valério/
Promessas podem esbarrar nas contas públicas em 2027 Fotos: Ricardo Stuckert e Charles Vieira

A situação das contas públicas será um dos primeiros desafios do presidente que vencer o segundo turno das eleições neste domingo, 25 de outubro.
Seja Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), o eleito assumirá em janeiro de 2027 com a dívida brasileira próxima de 83% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma série de compromissos de campanha que dependerão de recursos públicos para sair do papel.

O problema é que os dois candidatos apresentaram propostas de ampliação de benefícios e investimentos durante a campanha, mas ainda enfrentam questionamentos sobre o financiamento de parte dessas medidas.

Dados do Banco Central mostram que a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões.

Além da situação econômica, o vencedor terá de administrar um ambiente político marcado pela polarização.
A pesquisa Quaest divulgada em 21 de outubro mostrou empate técnico entre os candidatos, com 45% das intenções de voto para Flávio Bolsonaro e 44% para Lula. Na mesma pesquisa, 52% dos entrevistados disseram rejeitar Flávio, enquanto 47% declararam rejeição a Lula.

Promessas de Lula ampliam pressão sobre o orçamento

Candidato à reeleição, Lula anunciou medidas sociais e econômicas nas últimas semanas, incluindo transporte público gratuito aos finais de semana, ampliação do Pé-de-Meia para estudantes universitários e repasse de R$ 5 mil a microempreendedores.

O presidente também concedeu reajuste de aproximadamente 15% no Bolsa Família, benefício que ganhou destaque durante a campanha.

Estimativas divulgadas ao longo do período eleitoral apontam que o conjunto de medidas anunciadas pelo governo envolve mais de R$ 200 bilhões, podendo ultrapassar R$ 300 bilhões, dependendo dos programas considerados.

Parte dos compromissos mais recentes, com custo estimado em quase R$ 50 bilhões, não estava contemplada na proposta orçamentária de 2027 enviada ao Congresso.

A execução das promessas dependerá de espaço no orçamento, novas fontes de receita e, em determinados casos, aprovação legislativa.

Flávio Bolsonaro promete cortes, mas também anuncia novos benefícios

Flávio Bolsonaro tem defendido a redução das despesas do governo e a revisão de gastos considerados desnecessários. Integrantes de sua equipe econômica chegaram a discutir um ajuste de aproximadamente R$ 250 bilhões.

O senador, porém, também assumiu compromissos que poderão exigir recursos adicionais.

Entre suas propostas estão um reajuste do Bolsa Família superior ao concedido por Lula, ampliação do Farmácia Popular e redução das prestações do Minha Casa, Minha Vida.

Outra promessa é o chamado Vira Pix, programa que prevê a devolução de parte dos valores pagos pelos consumidores em contas e outras despesas.

Flávio também propôs medidas para renegociar dívidas de pessoas físicas e empresas, incluindo períodos de carência para o pagamento.

O candidato afirma que pretende reduzir despesas por meio do combate ao desperdício, à corrupção e à ineficiência administrativa, sem prejudicar programas sociais.

A combinação entre redução de gastos, manutenção de benefícios e criação de novas medidas também levanta dúvidas sobre a capacidade de financiamento dessas propostas.

Economistas defendem ajuste gradual para evitar problemas em 2027

Para o economista Felipe Salto, ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI) e economista-chefe da Warren Investimentos, o próximo governo precisará enfrentar despesas que pressionam o orçamento federal.

Entre os pontos citados pelo especialista estão os gastos previdenciários, as despesas com saúde e educação, o abono salarial, os supersalários, as emendas parlamentares e os benefícios tributários concedidos pelo governo.

Segundo Felipe Salto, os chamados gastos tributários, que representam receitas das quais o poder público abre mão, já ultrapassaram R$ 600 bilhões em 2026.

O economista defende que as medidas de ajuste sejam aprovadas rapidamente, mas executadas de maneira gradual, para evitar uma retração excessiva da atividade econômica.

Na avaliação dele, o próximo presidente precisará conciliar o controle dos gastos com a preservação de programas sociais e investimentos.

O professor Alberto Aggio, da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp, também considera que as decisões mais difíceis sobre as contas públicas ficaram fora do centro da campanha.

Para  Alberto Aggio,a discussão sobre a intensidade dos ajustes e as medidas necessárias tende a ganhar força somente depois da votação.

Polarização política será outro desafio 

A divisão do eleitorado também poderá dificultar as negociações políticas a partir de 2027.

A disputa presidencial foi marcada por ataques entre os candidatos, divergências sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), segurança pública e propostas econômicas.

Flávio Bolsonaro declarou que, se eleito, pretende trabalhar para libertar o pai, Jair Bolsonaro, e defendeu iniciativas que podem ampliar o confronto político com integrantes do Judiciário.

Lula, por sua vez, busca um quarto mandato presidencial depois de uma campanha em que defendeu a continuidade de programas sociais e criticou os possíveis efeitos de cortes de gastos propostos pelo adversário.

O ex-presidente Michel Temer defende que o futuro governo procure restabelecer o diálogo entre os diferentes grupos políticos.

Para Temer, a reconstrução desse entendimento exigirá uma postura equilibrada e medidas voltadas à estabilidade institucional, política e econômica.

Novo presidente assume em 5 de janeiro 

Além das promessas eleitorais, o vencedor terá de negociar com o Congresso Nacional as mudanças necessárias para executar seu programa de governo.

O controle da dívida, a definição de prioridades orçamentárias e o financiamento das novas políticas públicas estarão entre os assuntos centrais do próximo mandato.

A posse presidencial será em 5 de janeiro de 2027, conforme a mudança estabelecida pela Emenda Constitucional 111/2021.
O resultado das urnas neste domingo definirá qual dos dois candidatos ficará responsável por conciliar os compromissos assumidos durante a campanha com as condições fiscais e políticas do país.




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