Criminosos “transformam” celulares bloqueados.
Celular roubado pode passar por desbloqueio, troca de peças e adulteração de IMEI antes da revenda
Roubo e furto de celulares • Anna Barclay/Getty Images O celular desaparece das mãos da vítima e, pouco tempo depois, já pode estar circulando por uma cadeia organizada de receptação.
Uma investigação conduzida durante cerca de dois anos pelo Ministério Público de São Paulo, com participação das forças policiais, revelou que aparelhos roubados e furtados não necessariamente são revendidos da maneira como foram levados.
Muitos passam por uma espécie de “transformação técnica”: tentativas de desbloqueio, retirada do vínculo com contas do proprietário, adulteração de identificadores, troca de componentes e posterior revenda do telefone inteiro ou de suas peças.
A estrutura entrou no centro da Operação Frankmobile, deflagrada ontem (10), com 84 mandados de busca e apreensão e sete mandados de prisão temporária em São Paulo e Goiás. A investigação identificou diferentes núcleos dentro da cadeia criminosa. Entre os personagens aparecem os chamados “icloudeiros”.
Quem são os chamados “icloudeiros”
O apelido utilizado na investigação se refere aos operadores especializados em tentar superar as proteções dos aparelhos. Quando um smartphone é roubado, nem sempre basta apagá-lo para que outra pessoa consiga utilizá-lo normalmente. Nos aparelhos modernos existem diferentes camadas de segurança. Uma delas protege o acesso às informações existentes no telefone.
Outra pode manter o equipamento vinculado à conta digital de seu verdadeiro proprietário, mesmo depois de uma tentativa de restauração.
É essa segunda barreira que torna um aparelho bloqueado muito menos valioso para o mercado ilegal.
Os “icloudeiros”, segundo a investigação, atuariam justamente para tentar romper esse vínculo e devolver funcionalidade ao telefone.
Senha da tela e bloqueio do aparelho são coisas diferentes
Existe uma diferença importante entre desbloquear a tela e conseguir ativar novamente o celular.
A senha, biometria ou reconhecimento facial protegem o acesso imediato às informações armazenadas.
Já sistemas como o bloqueio de ativação mantêm uma ligação entre o equipamento e a conta do proprietário.
No iPhone, por exemplo, apagar os dados não significa automaticamente eliminar essa associação.
Durante uma nova configuração, o equipamento se comunica com os sistemas da Apple para verificar se continua relacionado à conta anterior. Nos aparelhos Android existem mecanismos semelhantes de proteção vinculados às contas utilizadas no equipamento.
É justamente por isso que simplesmente formatar um celular roubado não deveria transformá-lo em um aparelho pronto para revenda.
Criminosos querem chegar às contas bancárias
O interesse pelo desbloqueio não termina no valor físico do telefone. Segundo a investigação, um dos núcleos procurava obter acesso às informações pessoais e financeiras armazenadas nos aparelhos.
Um celular desbloqueado pode abrir caminho para aplicativos bancários, e-mails, redes sociais, fotografias, documentos e outras contas digitais.
Em um dos relatos reunidos pelos investigadores, uma única vítima teria sofrido prejuízo de aproximadamente R$ 28 mil depois que criminosos conseguiram acessar informações financeiras.
Isso explica por que algumas quadrilhas tentam agir rapidamente depois do roubo. O aparelho não representa apenas uma mercadoria. Ele pode ser uma porta de entrada para a vida digital da vítima.
E onde entra o IMEI?
Depois de superar ou tentar superar os bloqueios de usuário, existe outra dificuldade para quem pretende recolocar um aparelho roubado no mercado.
É o IMEI — International Mobile Equipment Identity. Na prática, ele funciona como uma identificação do equipamento perante as redes de telefonia.
Quando o proprietário comunica o roubo ou furto e solicita o bloqueio, aquele identificador pode passar a integrar as bases de aparelhos impedidos. Com isso, mesmo que o telefone seja restaurado, pode encontrar dificuldades para utilizar normalmente as redes móveis.
Por esse motivo, segundo a investigação, a adulteração do IMEI passou a ocupar outra etapa da cadeia criminosa.
Alterar IMEI não é uma configuração normal
O número não foi desenvolvido para ser livremente modificado pelo usuário. A investigação identificou oficinas e operadores que utilizariam recursos clandestinos e intervenções técnicas para tentar alterar os dados de identificação dos aparelhos. Em outros casos, haveria substituição de componentes internos importantes.
Uma das intervenções identificadas é a troca da placa principal do aparelho.
Nesse cenário, tela, carcaça e outras peças podem continuar sendo utilizadas, enquanto o telefone passa a funcionar com os identificadores existentes no componente substituído.
A prática é diferente de simplesmente “apagar” o número original.
Um celular pode virar vários negócios diferentes
Nem todo aparelho roubado precisa retornar ao mercado inteiro. Quando o desbloqueio é difícil ou economicamente inviável, as peças continuam tendo valor.
Tela, câmeras, carcaça, bateria e outros componentes podem abastecer o comércio clandestino de manutenção e recondicionamento.
A investigação identificou justamente uma rede em que aparelhos poderiam seguir destinos diferentes:
revenda do celular após adulterações;
utilização de componentes para reconstruir outros aparelhos;
comercialização separada das peças;
ou tentativa de acesso aos dados financeiros antes do desmonte.
Isso ajuda a explicar por que até telefones bloqueados continuam despertando interesse das quadrilhas.
Investigação encontrou uma verdadeira cadeia de produção
O trabalho do Gaeco identificou quatro núcleos principais. Na primeira ponta aparecem os grupos responsáveis diretamente pelos furtos e roubos. Depois entram os receptadores e operadores especializados em obter acesso aos aparelhos e aos dados das vítimas.
Uma terceira frente atua nas modificações técnicas necessárias para tentar devolver valor comercial aos equipamentos. Por fim aparece o núcleo encarregado de colocar celulares e peças novamente no mercado. A investigação encontrou atuação dessa estrutura em áreas tradicionais do comércio de eletrônicos na região central de São Paulo.
Aparelhos voltam ao mercado com aparência de regularidade
Outro ponto investigado é a utilização de empresas para criar uma aparência de origem legítima aos equipamentos. Segundo o Ministério Público, documentos fiscais e estruturas comerciais poderiam ser utilizados para facilitar a circulação dos produtos.
Com o aparelho visualmente recondicionado, eventualmente com componentes substituídos e identificadores modificados, um comprador comum poderia ter dificuldade para perceber sua origem.
Daí a importância de verificar a procedência antes de adquirir celulares usados ou recondicionados.
Mais de 10 mil celulares foram apreendidos
A dimensão da Operação Frankmobile ajuda a mostrar o tamanho do mercado investigado.
Ao longo da ação, as autoridades apreenderam cerca de 10 mil aparelhos celulares, além de equipamentos eletrônicos, dinheiro e outros materiais. A Justiça também autorizou o bloqueio de mais de R$ 5 milhões em bens e valores. Os investigadores agora pretendem cruzar os dados dos equipamentos encontrados com registros de roubos e furtos para tentar identificar os proprietários.
O IMEI alterado não apaga o passado do aparelho
Mesmo quando ocorre adulteração do principal identificador utilizado pela rede de telefonia, um smartphone possui outras informações técnicas e números relacionados a seus componentes.
Por isso, uma perícia pode encontrar incompatibilidades entre placa, número de série, peças e registros mantidos por fabricantes, operadoras ou sistemas policiais. O trabalho de investigação procura justamente cruzar essas informações. O telefone pode ter sido modificado fisicamente, mas ainda existem caminhos técnicos para tentar reconstruir sua origem.
Comprando celular usado? Procedência faz diferença
O avanço desse mercado também aumenta o risco para quem procura aparelhos usados por preços muito abaixo dos praticados normalmente.
A existência de caixa ou até de uma suposta nota fiscal não deve substituir a conferência da procedência. O consumidor pode consultar a situação do IMEI nas ferramentas oficiais disponibilizadas para aparelhos impedidos. Comprovantes da negociação, identificação do vendedor e documento fiscal também aumentam a segurança da compra. Preços muito abaixo do mercado, origem desconhecida e vendedores que evitam fornecer informações sobre o equipamento são sinais que merecem atenção.
Se o celular for roubado, velocidade também importa
Quanto mais cedo a vítima agir, menores podem ser as oportunidades de exploração do aparelho.
Entre as providências recomendadas estão registrar o boletim de ocorrência, bloquear a linha e o equipamento, utilizar as ferramentas de localização ou bloqueio remoto e comunicar bancos quando houver aplicativos financeiros instalados. Também é importante trocar senhas sensíveis caso exista risco de comprometimento das credenciais. O programa Celular Seguro, do Governo Federal, permite comunicar a ocorrência e acionar mecanismos de bloqueio integrados aos serviços participantes.
O roubo termina na rua, mas o negócio pode continuar
A Operação Frankmobile mostrou que o ladrão que toma o celular da vítima pode representar apenas a primeira peça de uma estrutura muito maior.
Depois dele podem aparecer receptadores, especialistas em desbloqueio, operadores interessados em contas bancárias, técnicos responsáveis por alterações físicas e comerciantes encarregados de recolocar equipamentos e peças em circulação. É justamente essa cadeia que as autoridades procuram atingir.
Porque, enquanto existir um mercado capaz de transformar rapidamente um telefone roubado novamente em dinheiro, o aparelho continuará sendo um dos alvos mais cobiçados da criminalidade urbana.
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