Posts misturam fatos reais e falsos sobre empresas no Brasil
Fechamentos de fábricas no exterior são usados para criar falsa crise no Brasil
Reprodução Uma série de publicações que circula nas redes sociais utiliza informações verdadeiras, mas fora de contexto, para sugerir que grandes multinacionais estariam fechando fábricas e deixando o Brasil em razão de uma crise econômica generalizada.
A alegação, porém, é enganosa. Diversos casos citados nas postagens ocorreram em outros países e não representam o encerramento das operações dessas empresas no mercado brasileiro.
Entre os exemplos está a Nestlé, que fechou unidades na Hungria e na Alemanha.
Também são citados fechamentos de lojas da Domino's, ocorridos na Austrália e na Nova Zelândia.
No caso da Electrolux, houve encerramento de atividades de unidades na Hungria e no Chile, além de um processo de reestruturação na Itália.
As publicações também mencionam a Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, e a Volkswagen, apresentando os episódios de maneira a sugerir que as empresas estariam abandonando o Brasil.
Outro caso envolve a Lupo. A empresa brasileira realmente inaugurou uma fábrica no Paraguai, mas isso não significa que tenha transferido sua produção ou deixado o Brasil.
Lista mistura fatos reais com informações enganosas
A checagem também identificou que as publicações combinam notícias verdadeiras com informações distorcidas para criar a percepção de que existe uma onda de empresas deixando o país.
Entre os conteúdos utilizados estão notícias sobre dificuldades enfrentadas pelas Casas Bahia e por segmentos do varejo.
A lista chegou a circular em aplicativos de mensagens e também foi compartilhada nas redes sociais pelo deputado federal e candidato ao Senado Gustavo Gayer (PL-GO) e pelo empresário e político Pablo Marçal (PRTB). Há ainda situações que não possuem relação direta com uma eventual crise econômica.
Um exemplo é o encerramento da fábrica da Isover Saint-Gobain, em São Paulo, que ocorreu após um acordo entre a empresa e o Ministério Público relacionado a reclamações de moradores sobre impactos provocados pela unidade.
Crise do varejo existe, mas é global
Especialistas apontam que o varejo enfrenta dificuldades em diferentes países, impulsionadas por fatores como juros elevados, mudanças tecnológicas e alterações no comportamento dos consumidores.
Segundo Ricardo Pastore, coordenador dos núcleos de varejo da ESPM, o setor passa por uma transformação nos canais de venda e precisa se adaptar às novas condições do mercado.
O varejo trabalha com grandes volumes financeiros e margens reduzidas.
Quando uma empresa erra a previsão de vendas, pode ficar com produtos parados, comprometer o fluxo de caixa e recorrer a empréstimos ou acumular dívidas com fornecedores.
Esse cenário se torna mais difícil em períodos de juros elevados, aumentando o custo do crédito e pressionando empresas endividadas.
Recuperação judicial não significa falência
Outro ponto que costuma gerar confusão é o aumento dos pedidos de recuperação judicial.
O Brasil registrou um número recorde de pedidos em 2025, mas isso não significa que todas essas empresas estejam falindo.
A recuperação judicial é justamente um mecanismo criado para permitir que empresas em dificuldades financeiras renegociem suas dívidas e continuem funcionando.
De acordo com a análise apresentada, o número de falências foi o menor desde 2012, apesar do aumento das recuperações judiciais.
A diferença é importante porque a quebra de uma grande empresa pode provocar um efeito em cadeia sobre fornecedores, trabalhadores e outras companhias que dependem dela.
Multinacionais continuam no mercado brasileiro
Outro ponto destacado por especialistas é que o fechamento de uma unidade em determinado país não significa necessariamente que uma multinacional esteja abandonando outros mercados.
O Brasil continua sendo um mercado relevante para grandes empresas, justamente pelo tamanho de sua população e pelo potencial de consumo.
Assim, uma multinacional pode reduzir ou encerrar operações em um país enquanto amplia ou mantém investimentos em outro.
Por isso, segundo a análise dos casos citados nas redes sociais, não é correto reunir acontecimentos distintos de vários países e apresentá-los como uma onda de multinacionais deixando o Brasil por causa de uma única crise econômica.
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