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Maringá,13/06/2026

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Intolerância à lactose exige muito cuidado.

Automedicação, excesso de restrições alimentares e confusão com alergia ao leite ainda cercam o tratamento

Dr. Fábio Kassab Gastroenterologi/revista Gut
Intolerância à lactose exige muito cuidado. Copo com leite e biscoito-Imagem Magnific

Quem convive com intolerância à lactose conhece bem o desconforto que pode surgir depois de refeições aparentemente simples. O café com leite da manhã, uma sobremesa após o almoço, um pedaço de pizza ou um sorvete podem desencadear horas de distensão abdominal, gases, cólicas e diarreia.
Muitos pacientes evitam refeições fora de casa, reorganizam hábitos alimentares e recorrem aos comprimidos de lactase, na tentativa de controlar os sintomas sem abrir mão completamente dos laticínios.
A intolerância à lactose acontece quando o organismo produz pouca lactase, enzima responsável por quebrar a lactose, açúcar presente no leite e em derivados como queijos, cremes e sorvetes.
Sem digestão adequada, a lactose chega praticamente intacta ao intestino grosso, onde sofre fermentação pelas bactérias intestinais. O resultado é aumento da produção de gases, distensão abdominal, flatulência, cólicas e diarreia.
Uma revisão científica publicada na revista Gut estima que a má absorção de lactose afete cerca de 68% da população mundial. Nem todos, porém, desenvolvem sintomas importantes.
A intensidade do quadro depende da quantidade de lactose ingerida, da atividade residual da enzima lactase, do funcionamento intestinal, da composição da microbiota e até da presença de outras doenças digestivas associadas.
O diagnóstico exige avaliação cuidadosa
O diagnóstico não deve ser baseado apenas na percepção individual do paciente. A investigação costuma começar pela relação entre sintomas e consumo de leite ou derivados.
Quando existe suspeita clínica, exames específicos ajudam a confirmar o quadro.
O teste respiratório de hidrogênio é um dos mais utilizados. Nele, o paciente ingere lactose e nas horas seguintes são medidos os níveis de hidrogênio eliminados na respiração. Quando a lactose não é digerida adequadamente, ela sofre fermentação pelas bactérias intestinais, aumentando a produção desse gás. Outra possibilidade é o teste de tolerância à lactose, que avalia alterações da glicemia após o consumo da substância.
Também é importante investigar doenças que podem provocar deficiência secundária de lactase, como gastroenterites, doença celíaca, doença de Crohn, quimioterapia e uso prolongado de antibióticos. Nessas situações, a intolerância pode surgir temporariamente como consequência de outra condição intestinal em atividade.
Lactase ajuda, mas depende do uso correto
A lactase funciona como uma reposição temporária da enzima que o intestino produz em quantidade insuficiente. Sua função é quebrar a lactose em moléculas menores, permitindo absorção adequada antes que ela chegue ao intestino grosso e seja fermentada pelas bactérias intestinais.
O efeito da enzima depende diretamente do momento em que ela é utilizada.
Os comprimidos devem ser ingeridos imediatamente antes do consumo de leite e derivados ou junto da primeira porção da refeição.
Quando a lactase é usada depois de comer, parte da lactose já percorreu o intestino sem digestão adequada, reduzindo o efeito do suplemento. Também existe muita confusão em relação à dose necessária. Um café com leite possui quantidade de lactose muito diferente daquela encontrada em milk-shakes, sobremesas à base de creme ou refeições com vários derivados lácteos.
A suplementação melhora a digestão da lactose, mas não neutraliza completamente excessos alimentares em todos os pacientes.
Intolerância à lactose não é a mesma coisa que alergia à proteína do leite de vaca. Apesar de ambas estarem relacionadas ao consumo de leite e derivados, são condições diferentes, com causas e manifestações distintas.
Na intolerância à lactose, o organismo apresenta dificuldade para digerir a lactose por produzir pouca lactase, enzima responsável pela quebra desse açúcar no intestino delgado.
Já a alergia à proteína do leite ocorre quando o sistema imunológico reage às proteínas presentes no leite de vaca. Diferentemente da intolerância à lactose, o problema não está na digestão do açúcar do leite, mas em uma resposta imunológica que pode provocar urticária, coceira, manchas vermelhas na pele, inchaço nos lábios, vômitos, chiado no peito e até reações respiratórias mais graves.
Por isso, suplementos de lactase não produzem benefício clínico em pessoas com alergia alimentar.
Essa diferenciação é importante porque o desconforto causado pela intolerância costuma levar muitas pessoas a retirarem completamente leite, iogurtes e queijos da alimentação, mesmo quando apresentam quadros leves ou moderados.
Em longo prazo, essa exclusão indiscriminada pode reduzir a ingestão de cálcio, proteínas e vitamina D, nutrientes importantes para a saúde óssea e muscular.
O artigo publicado em 2019 na revista Gut destaca que muitas pessoas com intolerância à lactose conseguem tolerar pequenas quantidades da substância, principalmente quando o consumo ocorre junto das refeições.
Os autores também observam que gases, distensão abdominal e diarreia nem sempre estão relacionados exclusivamente à lactose, outros fatores como sensibilidade intestinal, composição da microbiota e doenças digestivas associadas também podem contribuir para o quadro.
Alguns derivados lácteos tendem a causar menos sintomas em pessoas com intolerância à lactose. Iogurtes fermentados com culturas bacterianas ativas e queijos maturados, por exemplo, apresentam menor quantidade de lactose em comparação ao leite.
O mesmo artigo da revista Gut aponta que a maioria das pessoas com má absorção de lactose consegue consumir cerca de 12 g da substância, quantidade equivalente a aproximadamente um copo de leite, sem apresentar sintomas importantes, principalmente quando a ingestão ocorre junto das refeições.
Os autores ressaltam, porém, que a tolerância varia de pessoa para pessoa e depende de fatores como quantidade ingerida, sensibilidade intestinal, microbiota e presença de outras doenças digestivas associadas.
Dor abdominal frequente, excesso de gases, distensão e diarreia persistentes não devem ser tratados apenas com exclusão alimentar automática ou uso indiscriminado de suplementos de lactase.
Além disso, sintomas semelhantes também podem estar associados a outras condições digestivas, como síndrome do intestino irritável, doença celíaca, supercrescimento bacteriano intestinal e doenças inflamatórias intestinais, o que reforça a importância de uma avaliação clínica adequada.




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