Meninos não nascem machistas, eles aprendem
O machismo é uma construção social e num mundo que tenta redefinir a masculinidade, meninos tentam entender quem são
Reprodução O machismo é uma construção social e num mundo que tenta redefinir a masculinidade, meninos tentam entender quem são
Lembro de uma cena numa escola, eu ia fazer uma roda de conversa com meninos e meninas sobre temas como primeira relação sexual, abuso, consentimento e IST. Eles tinham em torno de 17 e 18 anos e quando começaram a entrar na sala, bati o olho num garoto que tinha todos os códigos do funkeiro. Correntes douradas, tatuagem por todo corpo inclusive pescoço, relógio enorme dourado e por aí vai.
Eu, de cara, fiz uma leitura super estereotipada e preconceituosa dele. Na hora eu pensei "dançou! Como é que eu vou abordar esses temas com esse menino na roda?". Isso porque eu parti da leitura quase que total que se tem do universo funk e suas músicas onde a mulher é sempre objetificada e retratada como submissa ao homem.
Bom, a gente começou a conversar, eu ia fazendo perguntas e eles trazendo visões, dúvidas, começaram a contar histórias, a dividir suas próprias experiências.
E foi ai que eu fui descontruindo toda visão rotulada que eu fiz desse menino. Ele, entre todos que estavam ali, era o que tinha mais empatia pelos pontos que as meninas traziam. Ele entendia de perto o que era violência de gênero, se preocupava com a forma com que meninos se relacionam com meninas, estava interessado em saber sobre prevenção da gravidez e IST. Ele quebrou todos os paradigmas do estereótipos que foi construído entre o funk e o universo masculino.
E mais, pra mim ele provou que meninos não nascem machistas, eles aprendem. Se tornam.
Em um mundo que tenta redefinir a masculinidade, mas ainda repete velhos padrões, meninos crescem bombardeados por discursos de ódio.
A gente está falando de meninos que não são monstros, nem vilões. São garotos tentando entender quem são e, entre o "seja forte" e o "seja gentil", muitos ficam perdidos.
Nesse caminho, acabam reproduzindo frases machistas, piadas violentas e julgamentos disfarçados de opinião porque é o que ouvem, assistem e recebem como referência todos os dias.
E às vezes o machismo chega para os meninos de um jeito tão naturalizado, tão cotidiano, misturado no humor, na linguagem, que eles sequer conseguem reconhecê-lo como machismo. Até muitas vezes quando reconhecem, se sentem atacados e perdidos. Sem saber como responder a esse movimento.
Volta pra cena do menino lá na escola e imagina ele em casa, depois da aula. Celular na mão, rolando o feed. Cinco minutos o algoritmo já entregou uns três vídeos de influenciador explicando que "mulher emocional demais é problema" e que "homem que chora perde respeito".
Esse menino não escolheu esse conteúdo. O algoritmo escolheu por ele. E o algoritmo não está comprometido com valores ou ética. Está comprometido com engajamento. E o que mais engaja meninos adolescentes hoje é, em grande parte, o que ficou conhecido como machosfera: um ecossistema digital que vende a ideia de que homens estão em desvantagem, que mulheres são manipuladoras e que relações são, no fundo, uma disputa de poder.
Começa inofensivo falando sobre autoestima, como se dar bem com mulheres, como ter confiança. E vai escalando, silenciosamente, até que aquele menino começa a enxergar as meninas como adversárias, não como parceiras, amigas.
E quem é que está educando os meninos hoje? A pergunta é um convite a todos nós aqui. Porque a responsabilidade não é apenas das famílias ou das escolas. Talvez vocês não conheçam, mas existe um provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança. Pois é, a gente precisa dessa aldeia para educar meninos num mundo que pede mais gentileza e afeto.
Isso porque meninos ainda são educados e criados num enorme vazio quando o assunto é desenvolvimento emocional. Meninos parecem que são blindados para o sentir. Não podem chorar, não podem demonstrar vulnerabilidade, fraqueza, angústia. Precisam, a todo momento, engolir o que vem do peito. E quando aparece alguém que oferece respostas rápidas e sedutoras, eles obviamente agarram.
A gente está falando de meninos adolescentes, meninos em formação física e emocional. Que estão, assim como as meninas, buscando um campo de identidade, pertencimento e segurança. E isso é tudo que o universo da machosfera oferece.
Ele acolhe a dor dos meninos quando diz que "o erro não está com você, são as meninas que não entendem". Ele passa segurança aos meninos quando diz que "velhos padrões" devem ser seguidos e reproduzidos. Afinal, os homens sempre tiverem mais força e mais poder, como assim alguém está querendo mudar isso agora?! Num mundo em que tudo parece errado e a gente mais se sente inseguro do que seguro, discursos conservadores são atraentes.
Mas será que são apenas essas as referências dos meninos hoje?
Seis em cada dez meninos adolescentes brasileiros dizem não conviver com homens que sirvam como referência positiva de masculinidade. Seis em cada dez.
O dado é do Instituto Papo de Homem e ele revela uma geração que não encontra em quem se espelhar.
Segundo artigo publicado pela American Academy of Pediatrics (AAP Publications) as crianças cujos pais demonstram amor e carinho, tendem a ter um desempenho social, emocional e acadêmico melhor. Pais presentes promovem comportamentos saudáveis em seus filhos, como disciplina e bom relacionamento social. A interação paterna também reduz os níveis de agressividade em meninos na pré-escola.
Esse modelo de masculino q existe na nossa sociedade não faz bem nem aos meninos. Percebem?
A gente precisa urgentemente abrir a roda dessa conversa para que eles possam entrar, serem acolhidos e ouvidos. Para que eles tenham um lugar seguro onde possam expor suas vulnerabilidades, falar sobre amores e medos, contar suas fragilidades. Sem serem tachados de "mais" ou "menos" homens.
Um espaço onde possam aprender sobre os termos todos que a gente fala, mas não são explicados.
Machismo, machosfera, red pill e por ai vai. Onde eles possam aprender sobre o próprio corpo e o corpo das meninas.
O que é uma TPM, o que é a menstruação, por que as meninas oscilam de humor nessa fase. Pra daí eles entenderem sobre respeito, consentimento, sobre primeira relação sexual. Desejo. O desejo deles e o desejo delas.
As meninas quando entram na puberdade, por questões óbvias de prevenção e segurança, vão logo ao ginecologista.
Onde aprendem, por um especialista, coisas como IST, órgãos reprodutores, métodos anticoncepcionais, gravidez precoce...mas e os meninos, onde eles vão quando entram na puberdade? Com quem eles aprendem sobre tudo isso?
Não aprendem. Nunca aprenderam. Antigamente, sempre tinha um homem mais velho na família que levava o garoto a uma casa de prostituição para que ele tivesse a primeira relação sexual. A mulher já era apresentada ali como um objeto: paga-se para ter o serviço. E o sexo, ou a relação com o outro, era serviço.
Não tinha nada a ver com desejo, respeito, amor.
E mudou muito pouca coisa de lá para cá porque hoje eles aprendem com a pornografia que tornou tudo ainda mais violento para meninos e meninas. Amor aqui passa longe. Meninos aprendem que relação sexual é sinônimo de performance.
Mas quem vai falar pra esses meninos sobre amor? Sobre toque afetivo? Afetivo, gente.
Metade dos meninos adolescentes brasileiros não tem certeza se são amados pelos próprios pais. Metade. O dado também é da pesquisa do Instituto Papo de Homem. Mas o que será que acontece quando a gente cresce aprendendo a esconder o que sente? Engolindo demonstração de amor. De carinho.
Os homens que puxam o gatilho, que não aceitam o fim de uma relação, que controlam e perseguem, não surgem do nada.
E isso me faz pensar na frase do filósofo Jean Jacques Rousseau que diz "o homem nasce bom, a sociedade o corrompe".
E daí eu vou repetir uma frase: meninos não nascem machistas, eles aprendem. Se tornam.
O que eu tô querendo dizer aqui é que se a gente quer mudar o que chega no fim -- a violência, o feminicídio, o ódio -- a gente precisa também mudar o que acontece no começo. E o começo é um menino de seis anos aprendendo que brincar de boneca é coisa de menina. Um menino de doze recebendo pornografia no celular sem nenhum adulto por perto para contextualizar. Um adolescente de quinze que nunca teve uma conversa real sobre o corpo da menina, sobre consentimento, sobre o que significa respeitar alguém.
A gente só vai conseguir desconstruir o machismo estrutural se entendermos que é preciso educar os meninos. Eu tô falando de três coisas aqui: educação de gênero, digital e sexual. Porque esses três temas convergem quando o assunto é educar meninos para que não perpetuem e reproduzam esse sistema machistas da nossa sociedade. A gente precisa abrir espaço na roda para os meninos entrarem. Porque essa conversa também pertence a eles.
E abrir espaço não significa colocar os meninos no centro. Mas significa garantir que eles estejam presentes onde os temas são ensinados e debatidos.
É na roda que acontece dentro da escola, essa daqui onde a gente tá aprendendo e refletindo juntos. Na qual acontece dentro de casa quando a gente coloca o celular de lado e, de verdade, se interesse pelo universo daquele menino adolescente. É preciso ter coragem para falar das nossas fortalezas, mas principalmente das nossas fraquezas mesmo sentando na cabeceira da mesa.
A masculinidade não é uma sentença. É uma construção. E construção pressupõe escolha, esforço, exemplo.
A pergunta não é se é possível educar meninos de outro jeito porque claro que é. A pergunta é se a gente está disposto a fazer esse trabalho.
Porque ele é coletivo. É dessa aldeia aqui. Ou ensinamos meninos a amar -- a si mesmos e aos outros -- ou continuaremos a enterrar mulheres. Eu escolho ensinar. E espero, de verdade, que a gente escolha isso juntos.
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