Enganadas por mulher que se dizia criança no RJ.
Renata Magalhães, de 52 anos, e Viviane Henrique, de 45, explicaram como foram enganadas em 2023 por Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, que se dizia uma adolescente. Na quarta-feira (3), a mulher foi presa em flagrante em Joinville, acusada pelos crimes de estelionato e falsa identidade.
Conforme a polícia de Santa Catarina, Amanda utilizava o nome falso de “Gabriele” e passou 14 meses morando com uma família, fingindo ter 12 anos. Ela já havia utilizado histórias parecidas em outros estados, incluindo o Rio de Janeiro, onde a nutricionista, Renata, e a diretora de um projeto social, Viviane, costumam acolher crianças vítimas de abuso e com autismo.
Em entrevista à BBC News Brasil, Viviane contou que o primeiro contato com Amanda foi através da página de seu projeto social, “Mãos que abençoam com amor”. Segundo ela, a mulher – à época com 34 anos – dizia ser uma adolescente que escapou de uma rotina de abusos no Ceará e foi vítima de um pai “bruxo” que a obrigava a se prostituir. Por conta disso, recebia hormônios para amadurecimento do corpo.
Viviane disse que Amanda se apresentava como “Duda” e afirmava ter pegado caronas com caminhoneiros até chegar a Magé, na Baixada Fluminense. Assim como a diretora do projeto social, Renata falou que decidiu alugar e mobiliar um apartamento para que Amanda pudesse morar, em Nova Iguaçu. “Quando ela contou a história, me apavorou muito, porque eu já lido com esse tipo de situação“, declarou Viviane.

Viviane e Renata cuidaram de Amanda por um mês como uma adolescente e disseram que foram criando uma relação emocional com ela. Segundo as amigas, a mulher também afirmava ter o Transtorno do Espectro Autista (TEA). “As pessoas acham absurdo acreditar. Mas, pessoalmente, ela aparentava ser adolescente, sempre com casaco e capuz. Ela alegava ter autismo e tinha uma fala muito infantilizada. Ficamos com o coração na mão“, explicaram.
Elas também revelaram que Amanda agia de forma infantilizada, pedindo mamadeira, chupeta e comidas de crianças. Viviane e Renata garantiram que a mulher nunca chegou a pedir dinheiro. “Eu dei carinho, afeto, comida. Não tinha como desconfiar“, lamentou a nutricionista, quem mais se apegou a “Duda”.
De acordo com as amigas, Amanda tinha agulhas enfiadas pelo corpo e que, durante um exame de raio-X, constatou-se mais de 200 agulhas. “Saía até da boca, era assustador“, relembrou Renata. A mulher contava que as agulhas haviam sido inseridos por seu pai “bruxo” em rituais. A nutricionista relatou ainda que Amanda pedia para não ser levada ao conselho tutelar, por medo de ser mandada de volta ao Ceará.
Desconfiança de Amanda
Viviane e Renata só começaram a desconfiar do golpe quando “Duda” passou a se comportar de forma diferente. Renata relatou que Amanda passou a ter “crises” e ameaçava se machucar caso não a tivesse por perto, exigindo a presença constante. “Ela acabou com minha saúde mental, minha vida financeira. Ela me tirou de perto dos meus filhos, fazendo pressão psicológica“, lembrou a nutricionista, que chegou a dormir na casa da “adolescente” para agradá-la.
Com Viviane, ela agia normalmente. Diante da desconfiança, as amigas procuraram a polícia, que prendeu Amanda em flagrante por estelionato, falsa identidade e falsidade ideológica. Segundo a delegada Mônica Areal, a mulher confessou os crimes, mas foi solta após uma audiência de custódia. À BBC News, a delegada explicou que é “difícil” manter pessoas presas nesse caso, pois o crime de estelionato é encarado na Justiça como não tendo emprego de violência ou grave ameaça.

A delegada revelou que no histórico de pesquisa do celular de Amanda, a polícia encontrou buscas sobre “como um autista se comporta” e “como fazer desenhos como se fosse uma vítima de abuso”. Areal disse que se deparou com outra investigação, em São Paulo, que fez um exame de idade óssea de Amanda, provando que ela não era criança. A Justiça do Rio de Janeiro acatou a denúncia do Ministério Público, e Amanda atualmente é ré em um processo no estado.
“Claro que a gente fica chateada com a história, não tenho patrocínio para meu projeto, mobilizei pessoas para ajudar. Aí falavam: ‘Agora vai parar de ser boba’. Mas eu não vou parar de querer ajudar“, salientou Viviane. Renata, por sua vez, afirmou sentir uma sensação de “impotência” ao ver novas pessoas passando pelo mesmo golpe. Mesmo pedindo que a “justiça seja feita”, ela avaliou que Amanda precisaria de tratamento para questões psicológicas. “Acredito que ela tenha algum tipo de transtorno, que pode ser perigoso. Não é só prender, ela precisa de tratamento“, completou.
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