Papa Leão XIV cobra justiça ambiental.
Em área contaminada pela máfia na Itália, papa denuncia ganância e omissão pública
Vatican News O papa Leão XIV fez uma dura crítica neste sábado (23) a empresas que obtêm lucros elevados enquanto deixam para trás destruição ambiental, doenças e sofrimento social. A declaração ocorreu durante visita a Acerra, na região da Campânia, sul da Itália, em uma área conhecida como “Terra dos Fogos”, marcada por décadas de despejo ilegal e queima de resíduos tóxicos. A região fica próxima a Nápoles e se tornou símbolo de uma das maiores tragédias ambientais da Europa.
Diante de milhares de fiéis, o pontífice pediu que a sociedade rejeite as tentações de poder e enriquecimento associadas a práticas que contaminam a terra, a água, o ar e também a convivência social.
Crítica à ganância, ao crime organizado e à omissão
Em seu pronunciamento, Leão XIV denunciou o que chamou de uma mistura mortal de interesses obscuros e indiferença ao bem comum, responsável por envenenar não apenas o ambiente natural, mas também o tecido social da região.
A “Terra dos Fogos” é conhecida pelo descarte clandestino de resíduos industriais, muitas vezes controlado por redes ligadas à Camorra, organização criminosa com base na região de Nápoles. Empresas passaram a destinar lixo tóxico à área para reduzir custos, evitando o tratamento adequado dos resíduos. Entre os materiais descartados ao longo dos anos estão produtos industriais perigosos, amianto, pneus e recipientes com substâncias químicas. Muitos desses resíduos foram queimados a céu aberto, espalhando poluentes pelo ar, pelo solo e pelos lençóis freáticos.
Região tem milhões de moradores afetados
A área conhecida como “Terra dos Fogos” abriga cerca de 2,9 milhões de pessoas em aproximadamente 90 municípios. Estudos e decisões judiciais apontaram aumento nos índices de câncer e contaminação de águas subterrâneas na região.
Em janeiro de 2025, a Corte Europeia de Direitos Humanos concluiu que o Estado italiano falhou em proteger os moradores da região diante do descarte ilegal de resíduos tóxicos. A decisão apontou que as autoridades tinham conhecimento do problema havia décadas, mas não adotaram medidas suficientes para impedir os riscos à população.
“A beleza é frágil”
Durante a visita, Leão XIV também falou sobre responsabilidade coletiva e cuidado com a criação. Ao refletir sobre a fragilidade da vida e da natureza, afirmou que quanto mais frágil é uma beleza, mais ela exige atenção e responsabilidade.
O papa disse que sua presença em Acerra tinha como objetivo encorajar a dignidade e a responsabilidade de quem luta por vida, justiça e reparação em uma terra marcada pela morte.
Segundo o pontífice, a região pagou um preço alto, enterrando muitos de seus filhos e testemunhando o sofrimento de crianças e inocentes.
Justiça ambiental como dever moral
A visita reforça o tom social e ambiental do pontificado de Leão XIV. Ao se aproximar das famílias afetadas pela contaminação, o papa colocou a crise ambiental no centro de uma discussão ética: não se trata apenas de poluição, mas de vidas destruídas por interesses econômicos, crime organizado e falhas do poder público.
A mensagem deixada em Acerra foi clara: não há desenvolvimento verdadeiro quando o lucro de poucos depende da doença, da contaminação e da perda de dignidade de comunidades inteiras.
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