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Maringá,12/05/2026

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R$ 1 bilhão já foi renegociado nos bancos.

Programa criado para diminuir o endividamento teve 200 mil pedidos de revisão. Especialistas, porém, criticam

Rosana Hessel/CB
R$ 1 bilhão já foi renegociado nos bancos. ministro da Fazenda, Dario Durigan/(crédito: Washington Costa/MF)

Ao fazer o primeiro balanço do Novo Desenrola, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou, ontem, que quase R$ 1 bilhão em dívidas foi renegociado, em praticamente 100 mil pedidos fechados, entre 200 mil realizados. Os outros seguem sendo analisados pelas instituições financeiras e estão "praticamente fechados", segundo Dario.
"Cada dia a gente tem visto mais renegociações sendo feitas, o que é muito importante. Essa semana o (Desenrola) Fies (Financiamento Estudantil) para os inadimplentes deve estar totalmente operativo", disse o ministro, na sede da Fazenda, ao retornar de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto.
Além disso, ele disse que o governo deve anunciar, em breve, outro "Desenrola" para pessoas adimplentes, mas que pagam juros altos. A medida seria uma "recompensa" por não atrasar as parcelas.
Críticas
Lançado em 4 de maio, em cenário de mais de 82 milhões de brasileiros endividados, o novo programa de renegociação de dívidas vem enfrentando críticas de especialistas e do setor produtivo.
Apesar de parecer uma iniciativa agressiva de descontos de até 90% no saldo devedor, eles apontam que o Novo Desenrola foi elaborado de forma atabalhoada, em curto espaço de tempo, após a primeira versão, em 2023. 
Além disso, apresenta sinais de que retoma a questão do risco moral, ou seja, de que terá novamente outra edição em breve, a exemplo do Refis programa de renegociação de dívidas tributárias —, além da questão eleitoreira, segundo os especialistas da área.
Para eles, os problemas do programa não são poucos, segundo os analistas.
O número de brasileiros endividados aumentou de forma expressiva em pouco tempo entre o primeiro e o segundo Desenrola — passando de 70 milhões para 82 milhões de pessoas — e a taxa básica de juros (Selic) aumentou, pois passou de 10% a 11% ao ano, na edição anterior, para 14,50% ao ano, atualmente.  Segundo eles, ainda existe o problema da reincidência dos endividados, uma vez que conforme dados do SPC Brasil, mais de 85% dos novos negativados em 2026 já passaram pela lista de inadimplentes nos últimos 12 meses, e nada impede que essas pessoas voltem a ficar superendividadas. 
"O Desenrola tem vários problemas. O primeiro é que é uma medida, obviamente, eleitoreira, e o governo lançou o programa de olho no impacto eleitoral sem pensar nos efeitos colaterais negativos que isso pode trazer e, nesse sentido, o principal efeito negativo  é o do risco moral", avalia o economista e especialista em contas públicas Bráulio Borges, consultor da LCA Consultoria e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). 
Bráulio Borges destaca que se, a cada ano, o governo sinaliza que pode fazer um novo Desenrola, é um problema sério, porque a inadimplência tende a ter um aumento estrutural, porque as pessoas não vão ter o interesse de quitar as dívidas e vão esperar um outro programa para poderem renegociar com algum desconto futuro.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera o Novo Desenrola uma "repetição  piorada do Desenrola 1.0" e, o simples fato de proibir o indivíduo de fazer apostas on-line durante um ano não resolve o problema das bets. 
"O novo programa incentiva ainda mais as pessoas a voltarem a se endividar. Além disso, há o problema em relação ao financiamento do programa, que é o fato de tentar usar novamente os recursos que haviam sido rechaçados pelo Congresso no passado novamente. Isso não funciona como política de longo prazo, e é paliativo que coloca a população em ciclo de novo endividamento rapidamente", alerta. 
O economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros, também critica o programa. "O Novo Desenrola enxuga gelo e para uma redução de fôlego e permanente sobre o ônus com juros das famílias e das empresas. O caminho é conhecido e passa por endereçar o crescente desequilíbrio e percepção de risco das contas públicas", resume.
Remédio amargo
O especialista em contas públicas e diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), Alexandre Andrade, ainda reconhece que o programa tem problemas estruturais e destaca que um dos principais é que o Desenrola não ataca as causas estruturais do endividamento das pessoas. "Sem contar que pode gerar um incentivo ruim de as pessoas voltarem a se endividar à espera de um novo Desenrola no futuro", acrescenta. 
Com isso, o Novo Desenrola pode ser um remédio amargo para um paciente com infecção generalizada, segundo analistas. Conforme os dados do governo federal, o programa Desenrola 2.0 servirá para pagar, com descontos, dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 e que estejam atrasadas entre 90 dias e dois anos, com cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC).
O governo prevê taxa de juro máxima de 1,99% ao mês e até 48 meses de prazo nas negociações.
Mas vale lembrar que isso representa juro mensal de quase 27% ao ano, o que não é um juro tão baixo assim no mercado, alertam os analistas. Claro que é mais baixo do que o juro do cartão de crédito, que são abusivos se comparados com a taxa média global dos juros do cartão de crédito, e passam de 420% ao ano. 
Uma das novidades do Novo Desenrola é a possibilidade de o brasileiro endividado poder usará até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Mas o  uso do fundo dos trabalhadores também é questionado pelo setor imobiliário.
Em entrevista ao programa CB.Poder, parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília, o vice-presidente financeiro da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Eduardo Aroeira, destacou que o uso do FGTS no Novo Desenrola é uma medida que exige atenção, já que o Fundo é uma das principais fontes de financiamento da habitação e da infraestrutura. "A utilização do FGTS para pagamento de dívidas pode reduzir investimentos em programas como o Minha Casa, Minha Vida e em obras essenciais", disse. O executivo destacou que o setor defende soluções estruturais para o endividamento e avaliou positivamente as mudanças recentes no programa habitacional, "sem comprometer instrumentos essenciais para o desenvolvimento".




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