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Maringá,10/05/2026

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Senado não pode ser omisso diante das provas

Senador deve ter oportunidade de se defender no Conselho de Ética, mas cassação parece desfecho provável

Editorial/ opinião do GLOBO
Senado não pode ser omisso diante das provas Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

As provas colhidas pela Polícia Federal (PF) sobre as relações entre o senador pelo Piauí Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP), e Daniel Vorcaro, do Banco Master, são eloquentes.
O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado não pode fechar os olhos às evidências. É imperativo conceder a Ciro amplo direito à defesa — na Justiça e no Conselho. 
Ele afirmou que não renunciará ao mandato e, em nota, classificou a operação da PF como “tentativa de manchar sua honra”. 
Mas o Parlamento tem o dever de agir em nome da preservação do decoro.
Com base nos fatos disponíveis, sua cassação parece o desfecho provável.
Por ora, ele deveria afastar-se ou ser afastado temporariamente do mandato para se concentrar na própria defesa, sem prejuízo de voltar ao Senado se for inocentado.
Até a operação da PF da última quinta-feira, sabia-se que o Master adotara estratégia de alto risco antes de ser liquidado pelo Banco Central (BC).
Papéis com taxas de retorno muito acima das praticadas no mercado usavam, como mote para atrair compradores, a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), instituição privada dos bancos que protege até R$ 250 mil de cada investidor.
Em agosto de 2024, Ciro apresentou emenda à Proposta de Emenda à Constituição sobre autonomia do BC propondo aumentar a garantia do FGC para R$ 1 milhão, de modo a tornar os papéis vendidos por Vorcaro mais atraentes.
Àquela altura, o Master já estava em apuros. Também era público um requerimento de urgência assinado por deputados próximos a Ciro em setembro de 2025, para tramitação de projeto estipulando exoneração de diretores do BC pelo Congresso.
Nessa época, a autoridade monetária resistia à pressão para aprovar a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), envolta em suspeitas.
Agora se sabe que o texto da emenda para ampliar a garantia do FGC foi redigido pelo Master.
“Saiu exatamente como mandei”, disse Vorcaro em mensagem na época.
Outra descoberta ainda mais estarrecedora: de acordo com as investigações, Ciro recebia do Master mesada de R$ 300 mil, depois reajustada para R$ 500 mil. Usufruiu viagens pagas, bens de luxo e foi favorecido em transações sem nenhuma lógica econômica.
Em mensagens, Felipe Vorcaro, primo e operador do dono do Master, pergunta se deve manter os pagamentos mensais da “parceria brgd-cnfl”.
A empresa BRGD tem o pai de Felipe como diretor. A CNFL Empreendimentos Imobiliários tem como sócio Raimundo Nogueira, irmão de Ciro. A investigação da PF demonstra que Vorcaro também fornecia cartões de crédito ao senador, custeava hospedagens em hotéis luxuosos e permitia que ele fizesse uso de residência de alto padrão.
A amizade entre o banqueiro encrencado e o senador do PP era notória.
Os fatos apurados pela PF sugerem algo bem mais grave: uma relação cuja base era aparentemente a troca de dinheiro por atuação legislativa, modalidade clássica de corrupção.
Ao fim da investigação, a PF deverá decidir se indicia Ciro, e a Procuradoria-Geral da República se o denuncia. Ele terá oportunidade de se defender em todas as instâncias adequadas.
Desde já, porém, a gravidade das evidências recomenda que se afaste ou seja afastado do cargo.
Paralisia ou corporativismo podem ser fatais e comprometer todo o Parlamento com o escândalo que envolve um de seus expoentes.

A opinião do GLOBO




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