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Maringá,14/03/2026

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‘Ninguém quer admitir que a vida acaba’

Ela quer que você perca o medo de falar da morte

Camila Cetrone, redação Marie Claire
‘Ninguém quer admitir que a vida acaba’ Camila Appel, fala de seu novo livro, Enquanto você está aqui — Foto: Hudson Senna

Para a jornalista e roteirista Camila Appel, falar sobre morte não é mórbido. Na verdade, remete a afeto e naturalidade. “Claro que tenho medo da morte. Todo mundo tem, é natural”, diz a criadora do blog Morte Sem Tabu, da Folha de S.Paulo.
Por mais que o fim da vida seja parte inerente da existência humana, o momento nunca parece ser propício para falar dele. Em seu novo livro, Enquanto você está aqui, Camila Appel, estende os 12 anos de pesquisa no tema, percorrendo assuntos como morte assistida, suicídio e experiências de quase morte, além de discutir o mercado funerário e a medicina paliativa.
Mas o cerne é esmiuçar os processos da morte (biológicos, burocráticos e simbólicos) e buscar formas de manter a autonomia e o conforto do paciente, inclusive no estágio terminal. "Dá pra morrer sozinho, mas você precisa de apoio, de coletivo. A questão é que ninguém quer se deparar com a iminência da própria morte por meio da morte de outra pessoa. Ninguém é imortal, e nossa tendência é fugir."
Paralelamente, o livro é uma tentativa de se comunicar com a própria mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, de 84 anos, e dar conta do processo de envelhecimento dela — inclusive detalhando a ela seus planos para o velório, como: “Já sei quem vai ser o coveiro do seu enterro”.
Quando Appel passou pela adolescência, a mãe lhe escreveu um livro, Na palma da minha mão (ed. Globo, 1998), em que descrevia a relação conturbada com a filha, ao passo em que tentava falar como realmente se sentia.
Camila Appel ao lado da mãe, a dramaturga Leilah Assumpção — Foto: Acervo pessoal

Agora, quem impulsionou Appel a escrever foi uma amiga, que, enquanto acompanhava a mãe — que morreria dali a alguns dias — no hospital, pediu recomendações de leitura para se preparar. Salvos os livros da médica Ana Cláudia Quintana Arantes, referência em envelhecimento, abordagem humanizada da morte e cuidados paliativos no Brasil, Appel ficou sem resposta. "Ela não queria ler sobre luto, mas sobre o que é acompanhar o momento final de uma vida. Ninguém escreve sobre isso, porque ninguém quer admitir que a vida acaba", diz. Decidiu que ela mesma escreveria.

No Brasil, o medo da morte também é cultural e dificulta o debate sobre autonomia no fim da vida. Em outras culturas, a relação é diferente.
No México, a morte integra o ciclo da vida; no budismo e no hinduísmo, é renascimento; em certas tradições africanas, um retorno aos ancestrais.
No Brasil, 73% da população não gosta de falar sobre morte, segundo dados de 2018 divulgados pelo Sincep (Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil).
Além de falar da mãe e dos casos que acompanhou como jornalista, Camila Appel também aborda lutos pessoais. Lembra, por exemplo, quando sua gata de 17 anos morreu se espreguiçando enquanto ela sentia a última batida de seu coração. Também precisou intervir para garantir uma morte mais confortável ao sogro, pedindo a retirada de sondas, máscara de oxigênio e das amarras que o prendiam à maca.
“Fui tratada como louca, mas ele estava ali, cheio de apetrechos caros por ‘protocolo’. Parecia que ele era apenas um objeto”, diz. Para ela, a formação médica muitas vezes encara a morte como fracasso pessoal, o que dificulta reconhecer quando é hora de priorizar conforto e dignidade.
“Investir na capacitação humana pode ser um resgate às origens da medicina. A morte já foi tão natural que as pessoas morriam em casa.”
Falar abertamente sobre o tema, porém, também tem um lado luminoso.
“As pessoas me procuram para conversas profundas, em momentos delicados.” Para ela, o mais importante é ouvir sem julgamento. “Tem gente que me procura para dizer que a vida acabou porque perdeu um cachorro. Eu sei que a dor não se mede. Perder um cachorro pode ser como ver o mundo desabar.”
Pelo direito de escolher como e quando morrer
Países como Suíça, Holanda, Colômbia e Portugal estão entre os que legalizaram a eutanásia assistida nos últimos anos. O debate é visto como não prioritário no Brasil e enfrenta barreiras, inclusive religiosas. O que se tem hoje é o testamento vital, documento em que a pessoa estabelece diretrizes sobre o que se deve fazer com seu corpo. Pode ser registrado em cartório e anexado à ficha médica, com reconhecimento do CFM (Conselho Federal de Medicina). "Essa já poderia ser uma forma de honrar o que a pessoa quer que se faça depois da morte."
Para ilustrar a necessidade disso, Appel idealizou e dirigiu a série documental O testamento: O segredo de Anita Harley (Globoplay), que narra o caso da principal acionista das Casas Pernambucanas.
Harley sofreu um AVC em 2016 e está em coma desde então.
Mesmo assim, está no centro de uma complexa disputa por sua curatela e pela herança, avaliada em mais de R$ 1 bilhão. "Espero que a série levanta debates sobre quem pode falar por nós quando estamos numa situação dessas, inclusive pressionando a tramitação de projetos de lei no Congresso.
Quem pode escolher coisas como se vai alimentar ou respirar artificialmente, se intuba ou não, se reanima o corpo ou deixa ele morrer naturalmente? Você pode escolher não sobreviver? E quem pode pedir para desligar as máquinas ou não?", questiona.
Escrever e pesquisar sobre morte não significa que Camila Appel não a tema. Sua visão particular sobre o que é a morte muda com frequência. As definições que mais a convencem são as palavras finais de Hamlet — “O resto é silêncio” — ou a definição do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, que descreveu a morte como um “silêncio mineral”.
“Gostaria de acreditar que existe vida após a morte, porque reconforta pensar que não vamos simplesmente desaparecer”, diz.





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